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Espuma dos dias… sobre o circo, os palhaços e as suas vítimas — As notas saíram e as máscaras caíram . Por Júlio Marques Mota

Nota de editor:

Este texto é o primeiro de uma mini-série composta por cinco textos onde é abordada a crise que atravessa as universidades e o sistema de ensino mais em geral, de que o caos criado pelo ministro da educação em torno da avaliação dos exames nacionais do secundário é tão só mais um sintoma.

O último texto da série é uma troca de pontos de vista entre o autor da mini-série e o robô de conversação Claude Sonnet 4.6.

FT


4 min de leitura

As notas saíram e as máscaras caíram

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 18 de Julho de 2026

 

Durante dias e dias, o país viveu suspenso. Suspenso no campo dos professores, do governo, dos pais e filhos deste país, suspenso pela monstruosidade criada por um ministro que passa humanamente por ser um homem sério, empenhado, inteligente (foi assim que sempre o conheci), a uma monstruosidade como político, um utilizador macabro de uma das máximas de Sartre – “l’enfer sont les autres”. E os outros foram, nesta monstruosidade política por ele criada, os professores, os diretores de escola, os pais “imprudentes”, e, por fim, como se isto não bastasse, o culpado maior seria o sistema educativo português, esquecendo-se ele de dizer que o culpado seria então o sistema educativo português que ele próprio recriou e, no limite, o responsável máximo seria então ele mesmo, porque criou uma máquina incompetente para fazer um serviço claramente desnecessário, em que se gastaram milhões, se empregaram milhares de pessoas, desnecessariamente, e se teve o país suspenso por mais de uma semana. E o resto está para vir.

Uma pessoa do meio diz-me que o Fernando Alexandre terá dito, e eu ouvi-o, que o problema para finalizar a classificação era a falta de professores classificadores, mas terão aparecido vários a dizer que se dispunham a classificar mais itens, e nem resposta receberam. Claramente quem esteve ao serviço do país não foi o ministro, não senhor, foram os professores e as famílias dos professores, em nome do respeito pelos seus filhos e pelos filhos dos outros. A todos estes e estas devemos estar reconhecidos. Simplesmente isso.

Apesar das pautas afixadas, o problema não acabou aqui. Haverá múltiplos pedidos de revisão de provas. Evidentemente o problema pode ser ultrapassado pela manipulação das notas, uma vez que nenhum dos classificadores conhece os exames que lhes passaram pelos olhos, conhecem apenas dois itens. Confesso, eu ia a dizer passaram pelas mãos, mas não, para o nosso Luís Montenegro e o seu ministro, passarem os pontos de exame pelas mãos são métodos do passado. Mas não acredito na manipulação, sinceramente. Pelo contrário, há um problema inultrapassável e que levará à degradação das notas se não houver nenhuma correção e, mais uma vez, creio que não haverá nenhuma correção. Quando o professor via uma prova de exame por inteiro, imaginemos que uma questão tem três alíneas, a), b) e c). Por exemplo, o professor está a cotar a alínea b). Depois de cotada esta alínea, e se a pergunta não recebe a cotação por inteiro, o professor confirma se não há nada na resposta de alínea a) que sirva para melhorar a posição do aluno e fará o mesmo com a alínea c), a ver se há lá alguma coisa que possa melhorar a cotação da alínea b. Ora, o professor só tem acesso aos tais itens que lhe foram disponibilizados e, portanto, este mecanismo não pode ser exercido. Isto é válido tanto para este tipo de sistema de alíneas dentro de uma mesma pergunta, como de perguntas em sequência. A questão é a mesma. Estamos a falar de gente muito nova e a viver em exame, numa situação de alta tensão, em que muitos erros deste tipo serão admissíveis, mas agora não retificáveis.

Depois, e ainda mais grave, apareceu uma inovação nas pautas – o aluno SUSPENSO!

São alunos a quem, por “razões várias”, não se conseguiu atribuir uma avaliação de exame. Como Fernando Alexandre se tinha comprometido, como segunda data, com o dia 17, depois de afirmar que a 14 as pautas estariam expostas, não podia falhar com esta segunda data. Com ela em causa, a “habilidade” foi não dar nota a estes alunos e assim poderem sair as pautas!!! Podemos dizer que aqui houve INOVAÇÃO!

Os alunos estão sem saber qual a sua nota, e se até segunda-feira não houver novidades, terão de se inscrever na 2ª fase, que começa na terça-feira, mesmo que não precisem!!!!

Hoje, ouço Mariana Leitão, da Iniciativa Liberal, a dizer que o sistema deve continuar, como se o problema fosse apenas saber o que é que funcionou mal, mas sem pôr em causa a própria digitalização. E eu ponho e já expliquei porquê. Gastar dinheiro sem que seja visível qualquer ganho seja para quem for, a não ser para os operadores que ganham com a digitalização. Mas, apesar de tudo, conheço o Fernando Alexandre e não acredito em corrupção nem sequer num lóbi que as empresas beneficiárias dos milhões gastos e a gastar com a digitalização possam eventualmente ter organizado em torno de algum pateta que no governo defenda, até ao limite, a digitalização da Administração Pública. Quem é contra a organização criada por Fernando Alexandre é contra o progresso da civilização e, no limite, poderíamos dizer, em termos do tempo mental de Luís Montenegro, o político que alguém carimbou de “O Avençado”, que quem se lhe opõe pode ser considerado politicamente atrasado. Eu serei, portanto, um deles.

Mas toda esta história e a forma como o governo reage a ela, tem um pano de fundo social gravíssimo: a capacidade cognitiva das sociedades está em declínio e o reino da estupidez ou do embrutecimento vai-se alargando e minando a nossa capacidade de perceção, de julgamento, a nossa capacidade de raciocínio crítico e analítico. É este o pano de fundo que explica o que se está agora a passar. É ler o romance de Valter Hugo Mãe – O século dos imbecis

 

Nesta base, e por recordação, aqui vos deixo o link a um texto publicado, muito recentemente, no blog A Viagem dos Argonautas:

Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 12. Uma Teoria da Estupidez . Por Lane Brown

Cujo link de acesso é

https://aviagemdosargonautas.net/2026/06/29/crises-de-civilizacao-e-de-ensino-num-mundo-em-profunda-policrise-parte-i-texto-12-uma-teoria-da-estupidez-por-lane-brown/.

Se houvesse dedicatória a escrever para a edição deste texto esta seria:

“Dedico esta peça à extrema estupidez dos nossos dirigentes políticos em exercício, e em particular, a Luís Montenegro e a Fernando Alexandre, pelo elevadíssimo nível que ambos alcançaram.”

 

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