Sinto vergonha de mim é um poema que circula pela Internet atribuído a Ruy Barbosa.
Para os brasileiros torna-se supérfluo explicar quem foi Ruy Barbosa (1849-1923). Para os outros falantes de português, basta dizer-se que é uma figura tutelar e um ícone da cultura brasileira – jornalista, filólogo, advogado, deputado, senador, diplomata, ministro… Dificilmente se encontra outra personalidade que tenha marcado de tal forma a história da cultura brasileira.
O poema Sinto vergonha de mim atribuído ao grande Ruy Barbosa circula pela Internet. Afinal foi escrito por uma poetisa – Cleide Canton. Não terá sido intencional e até permitiu divulgar um poema que de outro modo não chegaria ao conhecimento de tantas pessoas, mas queremos hoje chamar (mais uma vez) a atenção para a quantidade de textos apócrifos que circulam na net. Uma das grandes vítimas , é Fernando Pessoa. Há gente na blogosfera, que ao contrário da poetisa Cleide Canton se envergonha de ser honesta, há gente dizíamos que não tem vergonha de ser desonesta e de brincar ou de fazer negócio com o nome de grandes vultos da literatura.
Sabendo-se que muitos jovens estudantes chamam investigar, ou pesquisar, a procurar na Internet os dados de que necessitam para os seus trabalhos escolares, quem comete esses abusos está também a prejudicar esses jovens – oxalá essa gente que não respeita os mais elementares princípios de ética, não sirva de pretexto à introdução das medidas repressivas que têm vindo a ser anunciadas.
Cleide Canton inspirou-se nestas palavras de Ruy Barbosa:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
E criou este poema:
Sinto vergonha de mim!
“Por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
Que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos “floreios” para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”,
voltar atrás
e mudar o futuro.
‘Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo
que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer…
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!
Vamos ouvir o poema declamado por Rolando Boldrin.

