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A TRAGÉDIA DO EURO. Por François Asselineau

Selecção, tradução, montagem e introdução por Júlio Marques Mota

PARTE IV

(conclusão)

É necessário parar um pouco para reflectir. Pense-se apenas que 150.000 emigrantes num só ano é um valor muito significativo e alarmante para uma população total de 10,5 milhões de pessoas. Isso representa não apenas 1,42% da população portuguesa total, mas uma percentagem muito mais alta (da ordem de 3-4% ao ano), se referido em percentagem à faixa etária dos 18 a 50 anos, esta parte da população que é naturalmente a mais dinâmica, a que produz a maior parte da riqueza e que, teoricamente, garante o futuro de um país.

Para bem se perceber a magnitude do fenómeno, a emigração de 150.000 pessoas por ano em Portugal corresponderia em França (onde a população é exactamente 6 vezes maior) a uma partida anual de 900.000 franceses. Isso seria o equivalente de uma classe etária. Seria mais do que a população total da região de Limousin, que se esvaziaria num só ano. Isto equivaleria a esvaziar em dois anos a Alsácia ou ainda a região Alta Normandia de todos os seus habitantes….

No entanto, esta situação é ainda tanto mais grave para Portugal quanto ela vai ainda piorar.

Nenhum economista sério (logo recusando o dogma europeísta) pode alguma vez  imaginar que as medidas previstas pela Troika que IMF – UE – BCE possam melhorar a situação a curto ou mesmo a médio prazo. Porque não só essas medidas, de inspiração ultra-liberal e totalmente em oposição às lições keynesianas são profundamente recessivas, como a  sua duplicação em todos os Estados da zona euro só pode ter como efeito arrastar toda a zona euro para uma espiral de longa e profunda depressão económica, de colapso.

Por outras palavras, a probabilidade de que o número de portugueses deixarem o seu país continuar a aumentar rapidamente é extremamente forte, e isto tanto mais quanto o encorajamento á emigração, relembremos, se tornou desde há algumas semanas um dos objectivos oficiais do Governo Português.

Esta política europeísta praticada pelo governo de Lisboa é, estritamente falando, tão louca como também é verdadeiramente uma política suicidária. Se o número de emigrantes bate rapidamente o registo histórico de todos os tempos (180.000 por ano) e se este valor atinge ou ultrapassa os 200.000 indivíduos/ ano, é a curto médio e médio prazo a existência do país que está a ser posta em causa.

Depois da destruição da Grécia, é nem mais nem menos a destruição do Portugal que. como resultado da loucura que é o dogma europeísta, se está claramente a perfilar no horizonte. Como na Grécia, como na Espanha, como na Itália e como em outros lugares na zona euro, incluindo a França, a classe política europeísta é e deve ser considerada  culpada de não assistência aos povos em perigo.

E deve mesmo ser acusada de alta traição.

AS DUAS CARACTERÍSTICAS RADICALMENTE NOVAS DA ACTUAL EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

Para completar a análise, refira-se que a actual emigração portuguesa tem duas características radicalmente novas em toda a história do país:

1)   uma novidade sociológica

Ao longo de toda a história de Portugal e na década de 1960, a maioria dos emigrantes eram de origem modesta e não diplomados. Agora, já não é este o caso. Nos anos de 2010, a maioria dos emigrantes são jovens citadinos  e licenciados que irão procurar a sorte noutros lugares que não a zona euro, em plena derrocada económica e moral desta.

Trata-se de duplo drama para o país: não só Portugal está a perder a sua força de trabalho, mas também está a perder a sua mão-de-obra qualificada. Ele perde simultaneamente braços e matéria cinzenta

2)   uma dupla novidade geográfica

A outra característica da emigração portuguesa contemporânea encontra-se nas áreas geográficas em causa:

– por um lado  os emigrantes partem de todo o país  e não de uma região precisa porque é bem todo o país que está duramente a ser atingido pelo desastre económico. Os citadinos são a maioria entre aqueles que emigram.

-por outro lado, o país de escolha são primeiramente países da Lusofonia, onde as pessoas falam português, devido à história da colonização: como principal escolha estão em primeiro não apenas o Brasil, mas também e isso é o que é o facto mais recente, os países da África Austral e que são mais precisamente Angola e Moçambique, outrora países devastados pelas guerras de descolonização e pelas guerras civis que parecia nunca mais ter fim.

Esta caricatura resume a mudança sociológica da emigração portuguesa: nos anos 60, a maioria dos emigrantes eram de origem modesta e sem diploma, partiam principalmente da região a norte do Porto e viajavam principalmente para a França. Nos anos de 2010, a maioria dos emigrantes são urbanos jovens licenciados que irão procurar a sorte em outros lugares que não na  zona do euro, em plena derrocada económica e moral..

 Uma nova prova IMPRESSIONANTE DA FALSIDADE do DOGMA europeista

Estas escolhas de países de emigração, como países de destino, estão cheias de muito significado porque elas constituem, se nelas reflectimos um pouco, uma nova evidência poderosa da total falsidade do dogma europeísta.

Eis-nos aqui face a 55 anos, desde 1957, em que a pretensa “construção europeia” se baseia nos pressupostos fundamentais seguintes:

No entanto, o desespero dos gregos ou a emigração em massa de portugueses para o Brasil, para Angola ou para Moçambique prova exactamente o contrário. Ou seja, que não há nenhuma solidariedade natural entre os povos da Europa, e que os 55 anos de “construção europeia ” nada trouxeram dessa solidariedade ou, por outras palavras não têm conduzido e de modo nenhum a uma “União cada vez mais estreita entre os povos da Europa”

Muito pelo contrário! Os portugueses já nem emigram para a França ou para a Alemanha, porque eles sabem que aí já não seriam bem acolhidos e que aí não há trabalho para eles. Eles saem em massa não para a Bélgica, não para a Holanda, não para a Itália, não para a Áustria, não para a Irlanda, não para a Finlândia, porque sabem que por todo o lado iriam encontrar a mesma desolação. Como na fábula de La Fontaine Os animais doentes da peste, “os países da zona euro não morriam todos, mas todos foram atingidos. “

Não, para um número crescente de jovens portuguesa candidatos à emigração, o futuro  já não se situa nos países da velha Europa devastada pelo desemprego, pelo desespero e por uma ditadura que não diz o seu nome.

O futuro situa-se em primeiro lugar nos países da Lusofonia, naqueles que foram colónias portuguesas, naqueles que falam a mesma língua que se fala nas margens do Tejo, naqueles com os quais se tem ligações históricas, culturais, familiares e migratórias criadas ao longo dos séculos, com quem formaram uma verdadeira solidariedade bem real.

Uma solidariedade bem mais real do que a solidariedade mentirosa e fictícia  de tendência geopolítica americana chamada “União Europeia” para enganar os eleitores.

Este mapa dos países lusófonos no mundo, como os mapas da Francofonia, da hispanofonia ou da países Commonwealth britânica, constitui o mais contundente desmentido simultaneamente da pretensa “construção europeia” e da teoria do choque de civilizações caro aos think tanks americanos. Porque é entre Portugal e os países de língua portuguesa que existe na verdade essa verdadeira “solidariedade” que os europeístas desesperadamente tentam fazer surgir entre os países da Europa, em nome de uma visão geopolítica de origem anglo-saxónica cujo alicerce racial e religioso constitui o escandaloso não dito.

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