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NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 79 – O que ser homem significa – por Manuela Degerine

Acaba de ser editado O Xadrez Sem Mestre de Carlos Loures. O primeiro capítulo narra o assassinato, no Rossio, no dia 18 de março de 2008, de um homem apresentado nos jornais como um intelectual português residente no Brasil, onde se refugiou em 1969, fugindo à polícia política; advogado e teórico do xadrez, autor de O Lance de Damião – a metáfora enxadrística na literatura de língua portuguesa.

Ora que coincidência: O Xadrez sem mestre faz parte desta literatura, pois as relações, posições, movimentos e estratégias das personagens vão aparecendo como metáforas do jogo. Ou vice-versa. No segundo capítulo um homem assiste, no dia 17 de maio de 1995, no aeroporto de Lisboa, à passagem de uma diva da política perseguida por fotógrafos e televisões, uma mulher de cinquenta anos, bela, poderosa, inteligente, definida nestes termos pelo jornal Expresso: “Possui o killer instinct“. Será a rainha?

Logo a seguir recuamos ao dia 21 de novembro de 1969 e começamos a ler a história de um grupo guiado por dois ideólogos, Cláudia e Avelino, grupo mais ou menos anarquista, mais ou menos heterogéneo, com motivações políticas (todos querem agir para que algo mude) e extrapolíticas (a paixão ou amizade por outros elementos do grupo). Afonso e Avelino jogam xadrez, Filipe, de quatro anos, ouve e observa. O grupo junta-se uma vez por semana em Corroios, no apartamento de Félix e Adelina, onde esconde a tipografia do jornal que redige, imprime e distribui. Há simpatias espontâneas (Afonso, Félix, Adelina, Filipe), antipatias não reveladas (Cláudia e Adelina), rivalidades (Vítor e Afonso), há o trabalho, a conversa, a partilha de livros e discos, um jantar, uma festa, uma partida de xadrez… Há o risco que todos correm. E, de súbito: a DGS prende-os. A tortura vai revelar quais as convicções, as fidelidades, as estratégias, a dignidade de que são capazes. E qual o regime que os governa. Vai mostrar que jogos foram pervertidos. Vai levar à interrogação: o que é ser homem? A narração é descontínua do ponto de vista temporal de maneira a manter a curiosidade até à compreensão dos primeiros dois capítulos: o fim do jogo. Quem sai vencedor?

Esta época da História portuguesa inspirou outras obras literárias – raras, contudo. E pouco divulgadas. O Xadrez Sem Mestre é, para além do prazer que uma história bem construída sempre traz, uma leitura higiénica nos tempos que vivemos, quando começamos a ouvir que “antigamente, antes do 25 de abril, pelo menos”… Talvez  nos ajude a equilibrar os valores.

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