ESTRATÉGIAS DE UM XADREZ POLÍTICO, por Manuel G. Simões

Lançamento do livro “O Xadrez sem Mestre”
Uma fotografia do argonauta António Gomes Marques

O Xadrez sem Mestre (Âncora Ed./ Ed. Colibri, 2012) encerra uma trilogia romanesca que começou com Talvez um Grito (1985), a que se seguiu A Mão Incendiada (1995), constituindo uma espécie de “roman fleuve” na medida em que, narrando as três obras acções diversas, com histórias e personagens diferentes, o pano de fundo tem a ver com a luta activa pela conquista da liberdade e a resistência à noite de pedra imposta pelo Estado Novo, numa interacção que vê confluir os três romances em torno dos anos de algum modo marcados pela data simbólica de 1968.

O romance aqui analisado exibe, por isso, um registo histórico, embora a efabulação que lhe serve de suporte não pretenda respeitar, em termos científicos, o ensaio histórico, mas deambule por territórios adjacentes a eventos que condicionaram a História política do país entre aquela data e o ano de 2008. E se os nomes dos protagonistas são fictícios, há elementos de implicação com a acção narrada que explicitamente são declarados e reconhecidos de imediato pelo leitor: figuras políticas determinantes, inspectores e chefes de brigada da famigerada PIDE/DGS, sem esquecer o seu director máximo. E cabe desde já dizer que O Xadrez sem Mestre é um romance político no sentido mais nobre porque, denunciando métodos e estratégias seguidos nos interrogatórios dos presos plíticos, o discurso desencadeia uma série de reflexões que só podem ser lidos no âmbito da ética que uma sociedade dita civilizada não deveria infringir.

O núcleo central do romance é, pois, constituído por um processo político após a prisão de seis membros de uma célula dos chamados “Comités do Povo”, grupo ideologicamente heterogéneo mas dominado por elementos anarquistas. É aqui que o Autor patenteia um grande conhecimento da metodologia geral seguida nos gabinetes de interrogatório – não tivesse ele conhecido na pele, por duas vezes, os seus efeitos devastantes -, a qual podia assumir variantes significativas no caso de membros de famílias altamente influentes no regime político. Neste aspecto, com razão já Urbano Tavares Rodrigues, referindo-se ao primeiro romance da trilogia, teve oportunidade de salientar «que nenhuma obra de ficção foi até à data tão longe na exacta evocação dos processos de tortura dos rituais daquela polícia». Com efeito, em O Xadrez sem Mestre, o Autor liberta de novo a sua criatividade, concedendo-nos páginas de uma grande capacidade expressiva quando refere, por exemplo, o teatro trágico encenado para influir psicologicamente sobre os presos já fragilizados, ou quando distingue os agentes que se ocupavam da “parte suja” que consistia na “tortura do sono” ou na da “estátua”: sempre quatro agentes que representavam, em cena, «o mau, o péssimo, o indiferente e o bom». E a “ciência”narrativa exprime-se particularmente na sequência dramática que, num crescendo de intensidade, atinge o clímax com  a morte de Félix, segmento textual que envolve o leitor na tensão visiva da acção narrada.

O romance é construído a partir de uma arquitectura singular. Servindo-se dos signos temporais da prolepse e da analepse, o Autor produz uma contextura semântica aliciante, de modo a configurá-la como um thriller. Basta ver o primeiro capítulo, datado de 18 de Março de 2008, onde se narra o assassinato de Avelino de Souza-Mello, implicado no processo político acima referido – que se desencadeou em Novembro de 1969 –  e que não só traiu sem tortura os companheiros do grupo como se viria a tornar num colaborador da Pide, antes de se ausentar para o Brasil em 1969. Esta acção, que deveria constituir o epílogo, só nos finais do romance encontra a sua explicação com a referência implícita à mão que vingou o código de honra outrora vilipendiado – e que se pode ler, simbolicamente, como um ajuste de contas com o regime do Estado Novo -, voltando o processo de antecipação  a ser implicado por efeito da analepse inscrita no final.

Sobre o título, que pode parecer estranho porque retoma uma obra conhecida  que propõe um método de aprendizagem do xadrez, mas que encontra, ao longo do discurso, uma sua lógica interna, até pela epígrafe analógica extraída das Odes de Ricardo Reis, apenas uma breve explicação. De facto, para além das inúmeras referências ao rigor metodológico do jogo em si – aspecto visível igualmente na construção do romance, com a interacção dos capítulos como movimentos estudados -, sucede que um dos elementos do grupo, talvez o protagonista mais influente, é preso no momento em que jogava xadrez num café de uma cidade de província. Além disso, este personagem consegue, mais tarde, introduzir o jogo no presídio de Peniche e, mais importante ainda, o xadrez pode ser entendido como metáfora. Já em Peniche, o mesmo recorda o momento em que chegou à sede da Pide e, sem que o soubesse, «já o jogo ia muito adiantado – os peões foram sendo sacrificados, o rei estava a bom recato e a rainha salvara-se» (p.58), numa alusão ao tratamento benévolo reservado a dois protagonistas: por razões de ordem política, num caso, e de ordem sentimental, no outro.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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