Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
A moeda única está ameaçada, as economias europeias afundam-se e o desemprego explode.
Por FRANÇOIS MUSSEAU, MADRID, nosso correspondente
“Como é que o banco foi capaz, num tão curto espaço de tempo, de declarar ganhos de 300 milhões de euros e, em seguida, reconhecer como prejuízo 3,7 mil milhões?” perguntou um deputado no Parlamento bastante indignado. “Esta diferença é explicada por uma mudança de critérios contabilísticos,” responde, impávido o antigo director do FMI, Rodrigo Rato, o Presidente do quarto banco espanhol cotado em Bolsa, o Bankia, de onde foi obrigado a demitir-se em Maio passado. O deputado em questão e o próprio grupo de parlamentares que o rodeavam permanecem intrigados. O fleumático e elegante Rato não explicará mesmo nada do edificante ‘buraco financeiro’. Durante quase uma hora, Rato vai repetir-se até à saturação: “agimos correctamente… ‘. “Os culpados não são os gestores, o culpado é a extrema volatilidade dos mercados”.
Ontem de manhã, a câmara baixa foi palco de um tumulto mediático: pela primeira vez, os banqueiros foram ouvidos pelos parlamentares. Neste caso, três banqueiros demissionários das principais Caixas, cujos riscos de falência forçaram a nacionalização. A “grande oral” de Rodrigo Rato era de todas a mais esperada. E por boas razões: ‘Guru’ das Finanças durante a era Aznar, está hoje no centro do fiasco bancário espanhol – principalmente devido à sua excessiva exposição a um sector imobiliário que se afundou – que assusta os mercados financeiros e explica a dificuldade extrema do país para se financiar.
Bankia, que ele dirigia desde 2010, parte do resultado da fusão de duas Caixas poderosas (Caja Madrid e Bancaja), é o principal responsável que prejudicou fortemente a credibilidade da Espanha: sob a direcção de Rodrigo Rato, o banco foi socorrido no montante de 42 mil milhões de euros de dinheiro público. E o resgate não está terminado. O grupo precisa ainda de 17 mil milhões adicionais, concedidos por um empréstimo especial da União Europeia, preparado para resgatar o moribundo sistema bancário espanhol. A cobertura total das necessidades do sistema bancário espanhol poderá ser da ordem de 100 mil milhões.
A pedido de uma formação centrista, a UPYD, Rato e 33 banqueiros foram indiciados por “delito de fraude” e “falsificação de contas anuais”. Em questão: o facto de que a maioria das Caixas de poupança, que anunciavam números mirabolantes até 2009 ou 2010, tiveram que ser resgatadas pelos dinheiros públicos. De acordo com a empresa Oliver Wyman, os prejuízos havidos atingiram 270 mil milhões, um quarto do PIB espanhol! Esmagados pelo colapso da indústria da construção, as Caixas de poupança (controladas pelos governos regionais) actuaram numa opacidade perfeita, provocando a indignação da opinião pública e da Câmara baixa, igualmente. Daí a audição até Setembro, dos principais intervenientes financeiros do país no Parlamento. Na ausência da Comissão de inquérito, cuja criação foi rejeitada pelos conservadores.
Tal como Rodrigo Rato, os outros funcionários negaram qualquer responsabilidade. Ontem de manhã, Julio Fernández Gayoso, ex-presidente da NovacaixaGalicia ( Caixa de poupança da Galiza ), que se demitiu em Junho sob a pressão da Justiça, desviava sempre as perguntas feitas pelos deputados sobretudo quando feitas à volta dos para-quedas dourados de 52 milhões a quatro dirigentes enquanto a instituição se afundava ou quando as perguntas se centravam sobre os investimentos ruinosos ou ainda quando estas perguntas incidiam “sobre as participações preferenciais (produtos de alto risco financeiro vendidos como produtos garantidos para 40.000 clientes enganados). Ó sr, Garcia, atirou-lhe o deputado socialista Miguel Cortizo, você fala-nos dos melhores de todos os mundos e está a gozar connosco !’
