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RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Os expatriados da crise: “Emigrarmos   ou afundarmo-nos”

LE MONDE | 26.07.12

Clemente Gutiérrez, 43 anos, atingido pela explosão da bolha imobiliária saiu de Madrid para o México. Uma fuga que se tornou  uma opção de vida.

Clemente Gutiérrez Sanguino e Maria Verza Perez, a sua esposa, num mercado de rua da cidade do México, 28 de Junho 2012

México – esta tarde, Clemente Gutiérrez tinha o grelhador a fazer um  churrasco. Uma vintena de amigos deste espanhol de 43 anos vieram  para comemorar o aniversário de Maria, a sua  companheira, no pátio de seu pequeno apartamento em La Condesa,   bairro “bobo” no centro da cidade do México. Alguns convidados são colombianos, mexicanos ou escoceses, mas a maior parte são compatriotas seus que, como ele, fugiram da crise que assola a  Espanha.

Este antigo empresário numa empresa de ferro forjado desembarcou na terra dos mariachis em 6 de Novembro de 2009. Naquele ano, houve 2.500 espanhóis que receberam o seu primeiro visa no México; 30.000 no ano seguinte, de acordo com o diário El Universal. Desde então, este número não para de crescer. A maioria tem mais de 35 anos de idade e uma carreira profissional por trás deles. Uma mudança de vida prometedora mas semeada de armadilhas.

“Quando a espiral da dívida nos vence,  é necessário saber fazer as malas a  tempo,” diz-nos  Clemente Gutierrez. Em Madrid, a sua empresa fabricava moldes para peças de aço utilizadas na construção. O sector foi duramente atingido pela explosão da bolha imobiliária: ” o meu caderno  de encomendas estava vazio. Os serviços não cobrados e não cobráveis não paravam de aumentar. Os bancos não renovaram as minhas linhas de crédito. Lutei muito  para salvar a minha empresa. Mas já não tinha mais dinheiro, nem mesmo para pagar a gasolina  do meu carro.” A crise quase lhe custou a vida: a 31 de Dezembro de 2008, um ataque pulmonar enviou-o durante  onze dias para  o hospital.

” Tratava-se de migrar ou de nos afundarmos, suspira este simpático valente de cabelos grisalhos. Quando um jornal espanhol sugeriu que Maria se tornasse a sua  correspondente na cidade do México, aproveitou a oportunidade.” Em Agosto de 2009, Clemente Gutiérrez apresenta o seu pedido de declaração de falência, vende o seu carro e hipoteca o seu duplex de 90 m2, num lindo bairro de Madrid. “Para pagar parte das minhas dívidas e financiar a viagem.”

Um mês depois, este  casal sem filhos desembarcou na cidade do México, com apenas duas malas e duas mochilas às costas . “Tínhamos mais ansiedade do que bagagens, diz-nos de bom humor.

Clemente Gutiérrez encontra facilmente  um apartamento num  sótão de 50 m2 para uma renda de 450 euros por mês. Mas profissionalmente, este autodidacta de fibra empresarial fica rapidamente desiludido: “a vida é mais barata aqui, mas os salários são muito baixos.”

Conseguiu o seu primeiro emprego no início de 2010. “Eu geria a pequena oficina de serralharia de um amigo, conhecido de  Espanha, por 500 euros por mês. Cinco vezes menos do que em Madrid e sem segurança social.” Ele não ia ficar… Durante meses, este homem de grandes obras urbanas propõe ao fabricante espanhol de parafusos industriais, Fator, para importar as peças. “Aqui, constrói-se por toda a parte num país que se pretende desenvolver,” diz ele. Em Setembro de 2011, um dos dirigentes da empresa  Fator vem visitá-lo  na cidade do México. Desde então, Clemente Gutiérrez é o representante da empresa para o México. Este mercado emergente não é imune a outras empresas espanholas, das quais 4.500 estão implantadas aqui. “As comissões são muito atraentes”, felicita-se ele.

Mas ainda assim é preciso assinar contratos. “É difícil vender aos mexicanos que nunca nos chamam e dizem sempre que sim sem termos a encomenda fixa em mãos . Aqui, a paciência é a rainha das virtudes face aos mexicanos que não confiam facilmente”, explica o madrileno que nunca  até então tinha  vivido no estrangeiro.

Clemente Gutiérrez obteve finalmente a  sua primeira grande encomenda de  parafusos. A sua comissão confortável vai ser paga dentro de poucos meses. “Aprendi a ser menos brusco com os meus interlocutores, preocupados com aparências.” Para ir visitar os clientes importantes, ele muitas vezes aluga um belo sedan. “Caso contrário, não sou levado a sério.”

Este homem bem-humorado também está chocado com o “classicismo” da sociedade mexicana: ” podemos ter pessoas que espalham e estragam o seu dinheiro sem vergonha enquanto metade da população é pobre. Estas desigualdades são o leito da criminalidade. Em Espanha, a divisão social é menos forte e temos uma grande classe média.” Para se proteger da  insegurança, Clemente Gutierrez e Maria vivem numa  área um pouco chique, mas também mais cara que as outras.

Os finais dos meses são às vezes difíceis. “Maria teve um ataque de asma. Passou a noite no hospital e esta noite custou-lhes 600 euros! As despesas médicas são muito pouco suportadas pelo Estado.” Sem mencionar que a crise espanhola o ultrapassou a ele. No final de 2011, o jornal que empregava Maria não renovou o seu contrato. “A imprensa espanhola vai mal. Felizmente aqui, as oportunidades não faltam.” Desde há alguns meses, Maria está a trabalhar  com um canal de televisão e de  um rádio peruano.

Em Dezembro, o casal passou o Natal em Madrid. “É mais triste lá fora. As pessoas vivem numa  grande insegurança profissional e numa sociedade em que se perde pouco a pouco as suas conquistas sociais. Espero que a Espanha não vá cair no mesmo marasmo que a Grécia”.

Único meio de consolação para ele: “a nossa equipa de futebol entrou na lenda e é esperado ganhar o Euro 2012!”, diz este devoto do futebol com a t-shirt “Cruz Azul”, uma das três grandes equipas do México.

Terá ele  apanhado  o mal do país? ” Nós ficámos a gostar mesmo muito do México,  da  sua cultura musical, da simpatia do povo,  do sol…” Uma espécie de anarquia organizada que me cativa e me dá energia para cada dia.” O casal parte  muitas vezes para subir a um dos muitos vulcões que se vêem  do México, quando o céu está limpo de  nuvens de poluição. Clemente Gutiérrez também  beneficia da rede dos espanhóis no México: “empresários, artistas e intelectuais aos quais  não tive acesso em  Madrid.” Inicialmente, a sua aventura mexicana tinha ares de fuga . “E esta é, hoje, uma verdadeira escolha de vida .”

Frédéric Saliba (Mexico, correspondente)
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