Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Serie Os expatriados da crise
” Estava a chegar ao ponto de saturação “
Julien Bouissou
Não foi o amor pela Índia que levou Clemente Desmousseaux a Nova Deli, jovem licenciado francês de 28 anos de idade, mas sim a procura do trabalho dos seus sonhos
Desmousseaux Clemente, 28 anos de idade posa para um retrato em Nova Deli , Índia
Índia – a fim de poder chegar ao escritório em Nova Deli, Clément Desmousseaux tinha que começar por aprender algumas palavras de hindi. Este jovem francês desembarcado recentemente na Índia começa a sua jornada de trabalho por longas negociações sobre o preço da viagem. Ele deve perguntar a numerosos condutores de riquexós, veículos a motor de três rodas, até encontrar um que aceite o transporte por poucas rupias, ou seja , por um pouco menos de um euro. Na capital da Índia para se sentar no banco traseiro de um veículo de três rodas exige-se paciência e uma certa arte da negociação.
Uma vez instalado, Clément Desmousseaux percorre a céu aberto o caminho ao longo de favelas, de templos hindus, mesquitas e de lojas, numa estrada que se transforma em rio durante a monção e numa fornalha durante a Primavera, numa circulação caótica. Muitos se queixariam, começando pelos condutores de riquexós, de estarem a viver um verdadeiro pesadelo, mas ele gosta de “ver desfilar em cada dia alguns séculos de história”.
Finalmente chega a um edifício desbotado acessível por estradas esburacadas, no meio de uma área industrial ocupada por tipografias. É aqui que a agência de viagens Shanti Travel vende, graças à magia da Internet, destinos de sonho para os internautas europeus. “Incrível India!” proclama ainda um cartaz pendurado na parede da casa. O jovem francês aqui é o “gerente” que prefere vestir uma camisa de colarinho Nehru, em vez de um fato e gravata .
À frente de uma equipa de cinco pessoas, é responsável pela promoção dos circuitos turísticos da Agência na Internet e nas redes sociais. ” Uma tal responsabilidade seria impensável em França,” diz o jovem quadro de 28 anos. Contudo, apesar do seu diploma em turismo, dois masters em marketing e comunicação na Internet, bem como uma experiência de seis anos, Clemente Desmousseaux é apenas e ainda um estagiário. O patrão francês da Agência de viagens de Shanti recusou-se mesmo pagar-lhe antes de lhe dar finalmente um prémio que lhe permite ser financeiramente independente em Nova Deli.
“Lá, eu sou pago como um índiano, mas dentro de alguns meses eu deverei assinar um contrato de trabalho e eu vou viver como expatriado”, diz-nos com orgulho o jovem gerente. Na Índia, o perfil de expatriados mudou muito. Não há necessidade de estar rodeado por uma nuvem de empregados domésticos ao meu serviço, nem de utilizar o título de “Director” no seu cartão de visita. Um simples salário europeu é suficiente, o que, na Índia, é já a promessa de uma vida confortável. A questão é que o país só dá vistos de trabalho para aqueles que têm rendimento de pelo menos 25 000 $ (20 450 euros) por ano.
Neste caso não foi o amor da Índia que levou Clément Desmousseaux a Nova Deli, mas sim a procura do trabalho dos seus sonhos. Quando ele começou no Outono de 2011, o seu master de gestão editorial e de comunicação via Internet na Universidade de Lyon-II, as perspectivas no mercado de trabalho não eram nada boas. “Os alunos licenciados antes de mim tinham muita dificuldade em arranjar emprego. Eu sabia que eu teria que fazer a escolha entre o desemprego e um emprego subqualificado .” Tive um sonho de infância que nunca se materializado à medida que ia crescendo na aldeia de Dompierre-sur-Besbre, em Auvergne: ir trabalhar para o estrangeiro. Ele envia alguns CV para a Ásia. E, para sua grande surpresa, em dez candidaturas arranjou quatro entrevistas no Skype, que o levam a duas ofertas de postos de trabalho possíveis.
Na Índia, as empresas não encontram jovens licenciados para contratar, enquanto na França, é exactamente o oposto: os jovens licenciados não encontram trabalho. A Índia, portanto, acolhe de braços abertos os jovens formados em França. Amul Sharma, um funcionário indiano de Shanti viagens, tem visto muitos passarem na sua agência “. No início eu não compreendia porque é que queriam saír a todo o custo de França que é um país rico. E depois percebi que um país pode ser rico sem dar trabalho aos jovens.”
Muitos são os franceses que vem para aqui à procura de agarrar a famosa “primeira experiência” exigida nos anúncios de empregos, antes de regressar à pátria.
A Índia afastou Clément Desmousseaux do “ruído da crise”, para seu grande alívio: “estava a chegar ao ponto de saturação ao ouvir e ler todos os dias que a França estava mergulhada na recessão.” Em Nova Deli, o jovem francês pode estar tranquilo : os canais de TV do país preferem transmitir clipes de Bollywood ou reportagens de críquete em vez da crise financeira na Europa. Além disso, ele já não acompanha a actualidade francesa a não ser quando faz zapping do Canal + e escolheu para se familiarizar com a política indiana o motor de busca Google escrevendo nele os nomes dos políticos que lê nos jornais: “a ascensão do racismo na França mete-me medo, especialmente visto daqui, num país que se define antes do mais e principalmente pela sua diversidade”.
Após seis meses de estada na Índia, Clément Desmousseaux tomou as suas referências . “E rapidamente encontrou os seus hábitos, excepto o de vez em quando comprar pão na padaria, vamos comprar ravioli do Tibete no vendedor de rua,” diz-nos com um ar de filósofo, o jovem quadro, que vive num apartamento com um canadiano e um irlandês.
Ele gostaria bem de permanecer na Índia alguns anos mais: “aqui, tudo é possível, os jovens tem as suas possibilidades e podem criar a sua própria empresa e não são estrangulados pelo aumento do custo de vida. Na França, as empresas não estão interessadas nos jovens e tudo é compartimentado.”
Se ele deixar a Índia, isso não é necessariamente para voltar para França, ou mesmo para a Europa, mas sim para ir para outras terras distantes, como o Quénia. Desde a sua partida, ele se sente “a crescer nas suas asas” e imagina facilmente outros lugares, como se as estradas que atravessam os campos da sua infância ligassem entre si os cinco continentes.
Antes de partir, ele prometeu comprar uma moto Royal Enfield, o símbolo de sucesso para todos os expatriados na Índia. Esta moto, com o ruído de uma Harley Davidson, dá a impressão de se ser um aventureiro, mesmo quando ele a conduz para ir para o escritório, vestido de fato e gravata.
