Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Brexit’ e o sermão do tio Sam
Sylvie Kauffmann, Le Monde
A União Europeia adora assustar-se a si-mesma – e não lhe faltam oportunidades para isso. O ano de 2012 começou sob a ameaça da saída da Grécia da zona euro. Um ano mais tarde, já com este perigo [supostamente ] evitado, é o espectro de saída do Reino Unido da União Europeia que aparece e paira no ar em 2013. Saída “Grexit,”, bom-dia, “Brexit”.
Grexit e Brexit, no entanto, são dois monstros bem diferentes. A saída da Grécia do jugo da moeda única poderia fazer explodir a zona euro: a sua manutenção dentro da família euro era mais importante para a sobrevivência desta família do que para os próprios gregos. A saída do Reino Unido da UE, por outro lado, apresentaria mais perigos para os britânicos do que propriamente para a Europa: com ou sem eles, a UE continuará.
Não se trata, evidentemente, para amanhã. Londres não irá celebrar em 2013 o quadragésimo aniversário da sua adesão à UE batendo com a porta, num desses gestos extravagantes, que os ingleses são, por vezes, capazes de nos oferecer. Não, se eles se vão embora, será no final de um processo interminável, pouco brilhante, durante o qual eles entrarão em conflito entre eles mesmos. Alguns políticos, homens ou mulheres, aí deixarão a sua reputação. Não será bonito de se ver.
Ameaça real ou versão legendada de “impeça-me ou eu faço uma desgraça”, Brexit inquieta em todo o caso suficientemente os Aliados europeus do Reino Unido para que, com a abordagem de um discurso ansiosamente aguardado do primeiro-ministro, David Cameron, sobre esta questão, eles se multipliquem em advertências. Nenhum, no entanto, ainda foi tão longe na admoestação pública que o Big Brother americano.
O presidente Obama tinha, informalmente, exposto a posição dos EUA a David Cameron durante uma conversa ao telefone, em Dezembro de 2012: para Washington, a Grã-Bretanha é muito bom ser uma ilha e estar na Europa. A mensagem claramente não chegou até ao fundo das bancadas na Câmara dos Comuns, sobretudo até aos backbenches onde guerreiam, especialmente nas fileiras conservadoras do Tory , os críticos da UE, e a Administração bem quis meter o prego a fundo a 9 de Janeiro, pela voz de Philip Gordon, Secretário de Estado adjunto, braço direito de Hillary Clinton para as questões sobre a Europa. Diante de alguns jornalistas britânicos convidados para a Embaixada dos EUA em Londres,. Gordon formulou a posição americana: “nós temos uma relação crescente com a UE como uma instituição, e esta tem um papel cada vez mais importante no mundo e nós queremos ver uma voz forte na UE. É do interesse dos Estados Unidos.”
Desta vez, não foi “desligado” o som: estava simplesmente ligado, estava “on”. A mensagem estava dita e destinada a ser difundida e foi-o, de facto. Os conservadores gritaram ultraje, face a este intervencionismo descomplexado (“é no interesse dos Estados Unidos!”), eles que ainda não digeriram o facto de terem seguido os Estados Unidos no fiasco do Iraque. Downing Street reagiu suavemente sobre o tema: ” Nós também, nós defendemos uma voz forte na União Europeia”. Com a condição de, precisou George Osborne, Chanceler do Tesouro, “que a UE mude”’.
Mas o mais interessante, nesta precisão da política americana, não é o insulto à lendária ‘relação especial’ entre Washington e Londres. Hoje largamente esvaziada da sua substância, ela já tem visto outros momentos semelhantes, incluindo no tempo de Margaret Thatcher (1979-1990), contudo supostamente a viver em osmose ideológica com Ronald Reagan. “Eu sou mais um bulldog do que um caniche”, retaliou ela em 1986, quando os seus adversários a tinham tratados de ” caniche dos americanos” por ter alinhado com o bombardeamento da Líbia, pela força aérea dos Estados Unidos. O mais interessante, é a visão da Europa que reflectem as afirmações de Phil Gordon.
Primeiramente, ele disse, em substância, a Europa existe, enquanto que instituição e enquanto um actor mundial. O nosso gosto imoderado pela auto-flagelação impede-nos de o ver, mas para os americanos, que acham que a crise do euro relançou a dinâmica da integração, a Europa existe e é cada vez mais importante. Se Henry Kissinger declarou que ela não tinha número de telefone, Barack Obama, ele, encontrou um número de telemóvel e este começa por + 44. O problema é que, se o Reino Unido se separa da Europa, este número deixará de ter uma grande utilidade para o presidente americano. Por outras palavras: a ‘relação especial’ é especial se ela serve de plataforma de ligação para Washington poder chegar à Europa. Ou, mais precisamente, para influenciar, através do Reino Unido, a política europeia.
Segunda coisa que diz Phil Gordon: não somente a Europa existe, mas os Estados Unidos precisam dela. O mundo já não bipolar como na época da guerra fria nem unipolar como no post – guerra fria. Os Estados Unidos hoje evoluem num mundo multipolar, complicado, onde os europeus são, em última análise, os aliados mais confiáveis, além de serem os seus principais parceiros económicos. É necessário que eles possam agir juntos na cena mundial, especialmente na Ásia, onde a ascensão de China levou a administração de Obama a “fazer rodar ” o eixo da sua política externa, para leste.
Washington, portanto, não deseja ter ao seu lado uma Europa absorvida pelos seus problemas de construção, que um referendo britânico só iria agravar. Os Estados Unidos querem uma UE ” virada para fora, não para dentro” de acordo com Gordon.
O que aconteceria se o Reino Unido deixasse a UE? “A Alemanha dirigiria a política económica e a França, a política de segurança, disse Charles Grant, director do Centro para a Reforma Europeia, em Londres. Os Estados Unidos teriam menos influência na Europa, e a política da UE teria mais probabilidades de divergir da política dos Estados Unidos.” No entanto, diz Charles Grant, se os americanos têm necessidade de uma Europa que pense em termos mais estratégicos, particularmente na Ásia, “eles sabem que são os britânicos que, com os franceses, são mais susceptíveis para desenvolver esta abordagem”.
Para os britânicos pró-europeus, Brexit seria o pior cenário, pois custaria ao Reino Unido, isolado, o seu lugar no mundo e nos mercados internacionais. Para os Estados Unidos, o pior cenário seria ter que encontrar o número de telefone do casal Franco-alemão.
