RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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A jogada de poker de  David Cameron

Por Anna Villechenon

Le Monde.fr | 25.01.2013 à 21h03 • Mis à jour le 25.01.2013 à 21h03

David Cameron - II

“Se deixarmos a União Europeia, será um bilhete só de ida, sem regresso.” O tom é grave,  sem apelo, a ameaça é sem ambiguidade. O discurso  do primeiro-ministro britânico, David Cameron, na quarta-feira, 23 de Janeiro, tem semeado  sérias preocupações  na  União Europeia já de si enfraquecida pela crise: tudo vai depender do referendo que ele garante que vai organizar  até ao final de 2017, cedendo assim aos   cépticos do  seu partido, o partido  conservador.

Até mesmo a opinião  pública inclina-se   para  um ‘Brexit’ – palavra-passe  de “Saída da Grâ-Bretanha da União Europeia”: se o referendo fosse  realizado hoje, 40% dos entrevistados votariam a favor de uma   saída e 37% aceitariam permanecer na União Europeia e teríamos cerca de  23% de indecisos. O banco americano Morgan Stanley, ele, acredita, numa nota  intitulada ‘De Grexit para Brexit’, publicada  em Dezembro, que o Reino-Unido  deixaria a União Europeia  no corrente ano de  2013 .

Depois,  se David Cameron tenta tranquilizar  os seus parceiros espantados pelo seu comunicado de saída – François Hollande  sobretudo , ele que acredita que  a “Europa deve-se tomar tal como ela é”-, não transige, sobre a sua vontade de ver a Europa reformar-se, uma Europa “ ultrapassada na concorrência   global e negligenciada pelos  investidores”.

Enquanto a economia britânica recuou 0,3% no quarto trimestre de 2012, deixando  então antever uma  terceira recessão desde o início da crise, não é certo que Londres daái retire muitos benefícios em saltar do  mercado único, com excepção de um curto tempo (um terço do tempo parlamentar que é reservado para os assuntos europeus) e um pouco de dinheiro (o equivalente a apenas 1% de seu produto interno bruto).

INCERTEZA PREJUDICIAL’

No entanto, o desejo de David Cameron de  tornar a Europa “mais aberta, mais competitiva e mais flexível“  e não  uma “fonte de custos para o mundo dos negócios”  não é surpreendente para um conservador, cujo partido está comprometido com os interesses  das empresas do país – que beneficiam alegremente da política fiscal muito favorável: o governo baixou sobre um  período compreendido entre 2010 e 2014 a taxa de tributação sobre os lucros das empresas   de 28% para 21%.

No entanto, existem muitos patrões que se manifestaram publicamente, nas últimas semanas, bastante inquietos com a   possibilidade de uma saída da UE. “As empresas não querem que deitemos fora o bebé com a água do banho –  não  com 50% das  nossas exportações  a caminho da  Europa”, advertiu, nos seus votos  para 2013, John Cridland, Director-geral da Confederação de empresários,  a CBI. Há mesmo grandes figuras do mundo empresarial como Richard Branson, fundador do grupo Virgin, que  também estão preocupados com uma renegociação do processo que “seria equivalente (…) a criar-se  uma incerteza prejudicial para as empresas britânicas”, segundo uma carta publicada no início de Janeiro pelo Financial Times.

Para as empresas estrangeiras, uma posição semelhante: “porquê implementar a vossa fábrica no  [Reino Unido] se não se sabe – e ninguém o pode dizer  – quais serão as condições das nossas trocas comerciais no futuro?”, interrogou-se  Lord Heseltine, um ex-ministro de Margaret Thatcher. Especialmente quando o Reino Unido  depende, pelo menos em metade, da União Europeia. ” A União Europeia  é  o primeiro parceiro comercial de Londres e de muito   longe,” disse Stéphane Deo, economista-chefe Europa no banco UBS em Londres. “Se a Grã-Bretanha sair , ela seria obrigada a negociar um Tratado comercial, tal como outros países como não-membros como a Suíça.”  Enfim, Londres deveria pagar as tarifas de acesso ao mercado europeu, e que poderiam variar entre 55% e 200%, dependendo do produto, e isto  de acordo com o semanário The Economist.

“UMA ARMA Apontada à cabeça “

O clima de incerteza seria  tal que as empresas e os investidores do Reino Unido acreditam que iriam deixar o Reino Unido, dizem-nos os liberais, referindo-se à perda de 3 milhões de empregos para o país.  Os primeiros a partir seriam sem dúvida os  bancos estrangeiros da City, primeiro centro financeiro da Europa e plataforma privilegiada para as transacções em  euros. Ora, a finança representa 9,6% do PIB britânico, segundo o relatório anual da associação profissional TheCityUK.

Para Stéphane Deo, “o verdadeiro problema é a  regulação  financeira  e as negociações que começam sobre a união  bancária. Há um risco, para Londres, de que o acordo ocorra  à custa da City . Por exemplo, o actual governador do banco da Inglaterra será substituído por Mark Carney, governador do Banco Central do Canadá  – um especialista da  regulação bancária – o que prova que o Reino Unido  precisa de um  negociador  muito bom sobre esta questão, “disse ele.

David Cameron pode, no entanto, vangloriar-se de ter recebido, depois do seu  discurso, o apoio de cerca de meia centena de empresários de alto nível , numa carta ao Times. Entre os signatários – incluindo um terço dos doadores para o partido conservador-, está o patrão  da Bolsa de Londres, o francês Xavier Rolet , os presidentes do Conselho da marca de produtos de luxo Burberry e Rolls-Royce, John Peace  e Simon Robertson ou ainda o dirigente do gigante de bebidas Diageo. Todos  eles pensam que “David Cameron tinha razão”.

O interessado  repete  a quem o quiser ouvir   que se trata de um debate aberto desde há  muito tempo no país e que “o mundo dos negócios bem o sabe”. O seu antecessor trabalhista, Tony Blair,  ironiza : ” isto faz-me lembrar uma comédia de Mel Brooks, ‘O xerife está na prisão’. “O xerife aponta uma arma à cabeça  e diz : “ se  não fizerem o que eu digo, eu faço saltar os miolos””.

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