A CAMINHO DA GRÉCIA, A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO DA EUROPA – A LUTA CONTRA A AUSTERIDADE – CEDÊNCIAS À GRÉCIA ABREM A PORTA A FRANÇA E À ITÁLIA, por BILL MITCHELL – II
joaompmachado
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A caminho da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade
4. Cedências à Grécia abrem a porta à França e à Itália
Bill Mitchell, Conceding to Greece opens the door for France and Italy
Billy Blog, 28 de Janeiro de 2015
(continuação)
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Em 2003, a Alemanha foi uma das primeiras nações a transgredir essas regras. No início de 2002, a economia alemã estava em recessão e a Comissão Europeia emitiu à Alemanha uma ‘alerta’ sob as regras do Pacto de Estabilidade e de Crescimento (PEC) que regem os chamados défices excessivos (acima de 3 por cento do PIB).
A Comissão exigiu que a Alemanha equilibrasse a sua posição orçamental, mesmo que soubessem que isso provocasse uma degradação na já elevada taxa de desemprego.
A mentalidade neoliberal estava assim firmemente assente no lugar, apesar do risco evidente de que o insípido crescimento da Alemanha vacilasse sob a intensificação da austeridade orçamental.
Uma narrativa semelhante foi aplicada para a França. O défice orçamental estava também fora das regras do PEC.
Era óbvio que as regras eram ridículas, dadas as condições reais de ambas as Nações – desemprego elevado e com o crescimento do produto a diminuir.
Em Outubro de 2002, o presidente da Comissão Europeia, o italiano Romano Prodi disse ao jornal diário francês Le Monde que:
… o PEC é estúpido, como todas as decisões que são rígidas e há então necessidade de uma ferramenta mais inteligente e com mais flexibilidade “.
O crescimento alemão tinha parado completamente no final de 2002, enquanto a Alemanha procurava alcançar o seu equilíbrio orçamental para conseguir respeitar as regras do PEC. No entanto, o pior viria depois quando a economia entrou em recessão no ano de 2003. O desemprego alemão, já elevado em 2001 e em cerca de 7,9 por cento, subiu para novas alturas durante os quatro anos seguintes: 8,7 por cento em 2002, 9,8 por cento em 2003, 10,5 por cento em 2004 e finalmente atingiu o valor de pico em 11,3 por cento em 2005.
Tudo isto era devido à estúpida austeridade orçamental que a Alemanha adoptou dentro do enviesamento para a recessão que é a característica do PEC.
Em consequência, milhões de pessoas perderam os seus empregos, enquanto outros verificavam que os seus empregos se tornavam cada vez mais precários e as perspectivas de evolução dos seus salários eram suprimidas sob as reformas chamadas de Hartz (a criação dos “mini-jobs “). Se havia uma boa altura para reflectir sobre os prejuízos que poderiam ser provocados pela má estrutura da UEM, esta boa altura poderia ter sido esta.
A Comissão, contudo, continuou a impor as regras e lançou um aviso de Procedimento por Défice Excessivo (PDE) e a Alemanha foi apanhada agora na armadilha que ela própri a tinha imposto para a Itália, para a Grécia e para outras nações “suspeitas”.
A economia alemã contraiu-se em 2003 e o saldo orçamental aumentou de 3,8 % em 2002.para 4,2% por cento do PIB em 2003.
A 18 de Novembro de 2003, a Comissão recomendava ao Conselho que a Alemanha seja considerada “não-conforme” sob o PDE, o que exigiria cortes orçamentais mais duros e penalizações. Um processo paralelo a este verificou-se igualmente com a França.
O governo francês era publicamente hostil ao processo mas todos os Estados-membros tinham assinado defender a disciplina orçamental que consideravam eles próprios como sendo impossíveis de satisfazer se queriam cumprir com as suas responsabilidades em manter o crescimento internamente e reduzir o desemprego.
A situação veio a lume a 18 de Novembro de 2003 quando a Comissão recomendou ao Conselho Europeu que a resposta às suas exigências anteriormente formuladas dada pelos governo francês e alemão era inadequada sob os termos do Tratado e que uma acção penalizadora mais forte deveria ser desencadeada na base do PDE e um quadro de trabalho muito mais apertado deveria ser exigido como solução.
Cinco dias mais tarde, os Ministros das Finanças encontraram-se em Bruxelas para votar estas recomendações. Nos termos do Tratado, era o Ecofin que supervisionava o processo do PDE.
O resultado foi uma farsa. A Alemanha e França forçaram outras nações a votarem contra a recomendação da Comissão apesar da maioria das nações votarem a favor da recomendação.
O Conselho não só ignorou a recomendação da Comissão como igualmente suspendeu qualquer acção na base do PDE contra a França e a Alemanha.
O que é que resultou de tudo isto? Um relatório publicado pelo The Financial Times (27 de Novembro de 2003) era representativo da resposta dos media :
A França e Alemanha ganharam: o que acontece geralmente. Mas a União Europeia está a avaliar os danos de uma vitória sem alegria, determinadas pelas primeiras horas da manhã de terça-feira, que fez muito mais do que quebrar o conjunto das regras orçamentais da EU … a mensagem era clara. A União Europeia tem regras, mas nem todos têm que as cumprir . A França e a Alemanha, vistos durante muito tempo como a força motriz que está por detrás da integração europeia, são olhados sobretudo como um par de déspotas no terreno do jogo.
A comissão procurou um ruling vindo do Tribunal de Justiça da União Europeia considerando que o Conselho não tinha seguido as regras e os procedimentos tais como estão expostos no Tratado.
Mas apesar do Tribunal de Justiça se aliar com a Comissão, a real politics significava que as regras tinham que ser renegociadas.
Os responsáveis pela quebra das regras desapareceram do primeiro plano da cena porque o impasse levou a uma renegociação do PEC e sem nenhuma sanção seja estabelecida contra a França ou a Alemanha .
A contribuição alemã para os desequilíbrios
O artigo do Guardian fala de “dinheiro barato”, como se fosse apenas a única saída para os países do “Club Med”.
Em primeiro lugar, os fundos para subscrever a explosão do crédito vieram da redistribuição do rendimento nacional a favor dos lucros. Isso foi causado pela obsessão neo-liberal impondo a restrição de crescimento dos salários reais abaixo da taxa de crescimento da produtividade. A Alemanha liderou esta via no bloco da zona euro e neste sentido como sendo um resultado das perniciosas reformas no mercado de trabalho, ditas reformas Hartz.
Em segundo lugar, os grandes excedentes de exportações alemães forneceram igualmente os fundos para emprestar às outras nações. A Alemanha não teve a mesma explosão do crédito que tiveram outras nações mas os bancos alemães eram proeminentes no acumular das dívidas contraídas pelas outras nações europeias.
A supressão do crescimento dos salários reais na Alemanha e o seu crescimento nos ‘mini-empregos’ com salários (muito) baixos significava que a Alemanha severamente esteve a reduzir a despesa interna , para lá de 2005. As políticas de austeridade de Schröder forçaram duramente à contenção na despesa interna feita pelos trabalhadores alemães, o que significava que a Alemanha só poderia crescer através do alargamento dos excedentes de exportação.
A redução do consumo na Alemanha e a dependência das exportações para manter o crescimento, tudo isto foi muito prejudicial para os Estados periféricos.
O crescimento do emprego na Alemanha quando na Europa se caminhava para a crise não foi devido a que a União Monetária estivesse a funcionar bem.
Em vez disso, este crescimento reflectia o seu mau funcionamento, porque dependia dos excedentes comerciais criados – enormes excedentes na Alemanha e em alguns dos seus vizinhos contra o alargamento dos défices na periferia, cobertos estes por fluxos de capital insustentáveis dos primeiros países para os segundos, os da periferia.
Esse tipo de unilateralismo não tem nenhum sentido numa União Monetária, especialmente numa União Monetária que deliberadamente tem evitado um sistema federal de transferências fiscais.
Isto não só prejudicou o bem-estar dos estados membros parceiros da Alemanha na EMU, mas também significava que a qualidade de vida dos trabalhadores alemães passou a ficar diminuída.
De certa forma o governo alemão compreendeu a lógica e as falhas da arquitectura da EMU mais rapidamente do que os outros países que nela participam .
Sabiam que o sistema monetário incentivava uma corrida para o fundo e para a exploração da ‘solidariedade’ dos seus trabalhadores no jogo contra as outras nações participantes na concorrência internacional.
Os enormes excedentes da balança corrente resultaram numa maior capacidade de empréstimos internacionais pela parte dos bancos alemães, em particular para com países como a Espanha e a Itália e um pouco menos para com a Irlanda.
A política monetária comum significava que as taxas de juros caíram nas nações periféricas porque as taxas foram essencialmente ajustadas para reflectir sobretudo mais as condições na Alemanha do que as dos outros países.
As menores taxas de juros incentivaram esta enorme expansão do crédito que, no caso da Espanha e da Irlanda, entre outras nações, levaram à situação de “boom” na construção e no imobiliário. Grande parte da dívida criada era privada.
A enorme mudança no mix de emprego em toda a Europa (no sentido de construção, por exemplo) foi causada por estes desequilíbrios nos fluxos comerciais e financeiros.
O capital alemão teve de procurar oportunidades rentáveis no exterior, dado que as condições internas foram reduzidas pela austeridade imposta.
Por sua vez, o sector bancário mal regulamentado permitiu aos bancos europeus construir carteiras de títulos de crédito arriscadas. Isto é uma outra parte da história neoliberal que precisa de ser compreendida.
As acusações que emergiram quando a crise atingiu os PIIGS foram de que estes ‘gastaram para além dos seus meios’ e que a excessiva ingestão da dívida foi elevada , quando se percebe bem que a estratégia de crescimento da Alemanha exigia que os PIIGS se endividassem fortemente. Para cada euro emprestado tem sempre que haver um credor e um devedor.
É incrível que os comentadores em 2015 ainda agora neguem o papel central que a Alemanha teve em tudo isso. A interpretação que Joffe faz da história é muito pobre.