A CAMINHO DA GRÉCIA, A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO DA EUROPA – A LUTA CONTRA A AUSTERIDADE – CEDÊNCIAS À GRÉCIA ABREM A PORTA A FRANÇA E À ITÁLIA, por BILL MITCHELL – I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A caminho  da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade

 4. Cedências à Grécia abrem a porta à França e à Itália

 

Bill Mitchell, Conceding to Greece opens the door for France and Italy

Billy Blog, 28 de Janeiro de 2015

As notícias de economia são actualmente dominadas pelos resultados das eleições gregas e as suas implicações , com toda a razão. Sem assumir seja o que for sobre de quanto é que  Syriza se irá comprometer (embora eu suspeite que se vá comprometer muito), as eleições demonstraram que uma grande proporção de eleitores na Grécia rejeitam  as bases da estratégia da Comissão Europeia. Os eleitores gregos sabem  por experiência própria,   o que os  comentadores de poltrona  como eu sabem pela teoria, que a austeridade  orçamental  falha em alcançar os seus objectivos. Não é preciso nenhuma ciência espacial  – a despesa igual ao rendimento e se cortamos na despesa a economia contrai-se. Um aumento na despesa privada  não irá certamente acontecer quando as vendas estão a cair, o desemprego está a subir em flecha e se estão a perder rendimentos. A base da economia keynesiana – que quando o sector privado da  economia está envolvido num mal-estar,   a saída da situação de crise é então feita através dos  défices públicos  para fazer saltar a actividade económica do marasmo, o  que, por sua vez, gera confiança entre os consumidores privados  e permite que ocorra uma recuperação sustentada  – o que foi amplamente demonstrado pela Grande Crise Financeira (GCF) em todos os países. Onde essa estratégia foi utilizada  as nações têm estado a recuperar (a nível macroeconómico). Onde tem sido desafiada, tal como na zona  euro, as economias estagnaram. Pensando para o futuro, (especulando) os resultados das eleições claramente chocaram  o clube  ECOFIN, que tem presunçosamente andado por todo o lado na Europa durante os últimos 6 anos a arruinar e a colocar na miséria os cidadãos dos Estados-Membros mais desfavorecidos. Mas eu duvido que eles concordem  com uma redução  de 50 por cento na dívida da Grécia porque então os cidadãos de Espanha, Itália e, até mesmo da França quereriam alinhar pelo mesmo padrão. Então isto está fora de questão  para a zona euro, jogo encerrado por aqui.  Mais  provavelmente se Syriza se agarra às suas promessas eleitorais então haverá uma maneira organizada para lhes facilitar a saída do jogo.   A  Grécia irá sempre  ganhar de qualquer maneira.

Um dos comentários mais revisionistas  sobre os resultados das eleições gregas  apareceu no Reino Unido, no  Guardian (27 de Janeiro de 2015) com um artigo cujo título é:  Germany will relent on Greek debt – and Europe will suffer, ou seja, a Alemanha irá ceder na dívida grega – e a Europa sofrerá.

O autor – Josef Joffe – é o “editor-editor… de Die Zeit, um semanário alemão”. Die Zeit  – representa politicamente o centro de opinião política alemã e dá-nos  uma abordagem mais aprofundada  sobre os  temas  actuais.

O artigo do Guardian abre desta forma:

… os países do  “Club Med” mais os partidos dominantes à  esquerda– estão discretamente triunfantes. Os países do Sul e os partidos sociais-democratas da Europa nunca gostaram do diktat dos alemães, que os têm massacrado com o estalar do chicote da disciplina orçamental  e com  as reformas orientadas para o mercado, e isto  desde o rebentar da  grande crise em 2008. Durante anos eles têm apregoado o dinheiro barato e os défices  sem restrições.

Não é bem assim.

Primeiro, as baixas taxas de juros são uma consequência directa da estrutura da União Monetária, que foi, em grande parte, produto de domínio alemão sobre o debate económico na década de 1980. A abordagem de ‘um-taxa-para-todos’ levou a baixas taxas de juro em toda a zona euro.

O gráfico seguinte mostra uma das taxas de juro directoras da zona euro – a taxa de juro da facilidade permanente de cedência de liquidez  – a partir de 1 de Janeiro de 1999 a 10 de Setembro de 2014.

A taxa marginal de cedência de liquidez é a taxa de juro  marginal do Eurosistema que os bancos podem utilizar  para obtenção de crédito overnight de um banco central nacional que faz parte do Eurosistema”.

A taxa de juro da facilidade permanente de cedência de liquidez é uma “facilidade permanente do Eurosistema que as contrapartes podem utilizar para receber crédito overnight de um banco central nacional a uma taxa de juros pré-especificada  contra activos elegíveis”.

Por outras palavras, é a taxa que o BCE define para fornecer empréstimos overnight aos bancos comerciais para lhes  permitir gerir  a liquidez a curto prazo.

Os cortes nos primeiros anos da zona euro  eram devidos à recessão na  Alemanha e na  França (a não esquecer  que as duas maiores economias na zona euro tiveram diferendos  durante esse período).

Em consequência de serem agora estados membros da zona euro, países  como a Espanha, a Irlanda, Grécia e Portugal tiveram que aceitar as taxas de juro mais baixas.

bill mitchell - I

A recessão provocou a primeira crise no início da história da zona do euro.

Dada a natureza mal concebida do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC)  não foi nenhuma surpresa que este iria  falhar logo no seu  primeiro teste. O que foi surpreendente foi a forma como os políticos e os burocratas se comportaram perante o que qualquer análise minimamente razoável consideraria ser de uma hipocrisia extraordinária.

A história da UEM até à  data  ensinou-nos  que se a Alemanha é incapaz de cumprir as regras, então as regras terão de ser alteradas. Caso contrário, as regras irão ser usadas como uma arma contundente para devastar a base de emprego e qualidade de vida das nações mais fracas, das nações  sem o peso político da Alemanha.

(continua)

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