Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Entre a força assassina de um golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um david (a Grécia do Syriza)…
Syriza e a indemnização da guerra da França com a Prússia em 1871-73
Michael Pettis, Syriza and the French indemnity of 1871-73
Blogue m.pettis, 4 de Fevereiro de 2015
(CONTINUAÇÃO)
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IV Parte – O desafio do Syriza
É útil lembrar esta história quando nos confrontamos com as consequências das recentes eleições da Grécia. A vitória de Syriza na Grécia relançou os insultos e reavivou as questões de ordem moral que tem caracterizado grande parte da discussão sobre a não sustentabilidade da carga da dívida nos países ditos periféricos da Europa. Pessoalmente considero que é bastante claro e óbvio para quase todos, que a Grécia simplesmente não pode pagar as suas obrigações externas, e de uma forma ou de outra, terá que receber um substancial perdão da sua dívida. Não há sequer muita pretensão sobre esta matéria neste momento. Ainda esta manhã o consultor financeiro Mish Shedlock, enviou-me (como uma piada?, como um sinal de desespero?) o jornal alemão Zeit com a entrevista de Yanis Varoufakis intitulada “Eu sou o ministro das Finanças de um país falido”.
Mesmo sendo a questão de quem é a “culpa”, da Grécia ou da Alemanha, uma questão importante, a resposta não mudaria a dinâmica da dívida. A situação actual pode corresponder a assumir que esta dinâmica corresponde à dinâmica verificada com as políticas de austeridade brutais de Ceausescu na Romênia, que foram impostas durante os anos 1980, para que o país pudesse pagar totalmente a sua dívida externa, para resolver o peso da dívida grega sem uma depreciação, sem uma redução, do seu montante. Tendo em conta que as políticas de Ceausescu levaram directamente à Revolução de 1989, que culminou com as mortes tanto de Ceausescu como da sua esposa que foram executados por um pelotão de fuzilamento na praça pública, não é pois com certeza surpreendente a relutância em Atenas em imitar a Roménia na década de 1980,.
Mas dizer simplesmente que a Grécia não pode pagar, isso não é o fim da história. Agora que a Europa se move sobre o caminho de uma política mais racional sobre a dívida da Grécia, eu lembraria aqui três coisas importantes que não devem ser esquecidas:
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Há um enorme custo económico, para não mencionar o social e talvez mesmo o político, para que se devam evitar imperativamente atrasos na solução do problema. Preocupa-me o assustadoramente baixo nível de sofisticação entre os decisores políticos e os economistas que os aconselham quando se trata de compreender a dinâmica dos saldos orçamentais e da reestruturação da dívida. O excesso de dívida da Grécia impõe um aumento crescente dos custos para resolver as dificuldades financeiras e impõe igualmente distorções cada vez mais profundas na estrutura institucional da economia grega ao longo do tempo, e quanto mais tempo demora a resolver, maior será o custo económico, social e político a pagar.
Acho que a maioria dos analistas entende que os custos vão subir durante o processo de reestruturação. Não tenho a certeza que eles compreendam, no entanto, que os atrasos irão impor custos ainda mais pesados durante os muitos anos de ajustamentos posteriores. Há mesmo muito má vontade e muitas recriminações entre as várias partes. Eu desconfio que alguns daqueles que se opõem ao Syriza estão provavelmente revoltados com o pensamento de que uma rápida resolução da crise grega iria fortalecer fortemente os créditos de Syriza, mas eles precisam sobretudo de perceber que ao estarem a querer arrastar o processo de reestruturação estão a impor custos muito maiores a longo prazo sobre a população grega do que o que eles pensam.
O meu amigo Hans Humes, da Greylock Capital, esteve envolvido em mais reestruturações de dívida soberana do que eu me posso lembrar e ele disse-me uma vez com um enorme desgosto e um grande cansaço que, embora seja geralmente muito fácil de adivinhar desde os primeiros dias qual será o resultado final das negociações, serão necessários ainda meses ou mesmo anos de querelas e de disputas amargas antes de concluir o processo. Não podemos esquecer, porém, que cada mês de atraso será muito mais caro para a Grécia e para o seu povo do que poderíamos supor inicialmente.
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Pelo que li, muita da atenção dada à reestruturação visa determinar um fluxo de caixa para a carga da dívida que seja aceitável e viável para a Grécia. Há uma crença errada de que esta é a única variável “real” que importa e que o resto é cosmética. Eu não concordo. A estrutura da dívida nominal da Grécia não vai apenas afectar os fluxos de caixa da carga da dívida, mas também irá determinar o comportamento futuro dos agentes económicos.
Há pelo menos duas importantes funções da estrutura de responsabilidade de uma entidade económica. Uma delas é a de determinar como é que os lucros operacionais ou o crescimento económico é distribuído entre as várias partes interessadas, ou, dito de outra forma, para determinar as estruturas de incentivos económicos. A outra é a de determinar a maneira pela qual os choques externos são absorvidos. É por isso que o processo de reestruturação é tão importante e pode determinar o crescimento económico subsequente. O valor nominal e a estrutura da dívida pendente são importantes, e por mais razões que não as de cosmética. Eles determinam em grande medida como é que os produtores, os trabalhadores, os políticos, os aforradores e os credores, alteram o seu comportamento de forma a retomar acentuadamente a via do crescimento ou sangrar lentamente como resultado da purga. Os incentivos devem ser correctamente estabelecidos ou, por outras palavras, da maneira que seja no maior interesse das partes interessadas em conjunto para maximizar o valor (este ponto bastante óbvio quase nunca é implementado porque os economistas têm dificuldade em conceptualizar e modelizar a presença de comportamento reflexivos em sistemas dinâmicos). Em vez de deixarem os economistas exercitarem a aritmética da reestruturação com base em estimativas lineares de cashflows futuros altamente incertas, cujos valores são igualmente afectados pela forma como os pagamentos da dívida são indexados a esses fluxos de caixa, a Grécia e os seus credores podem querer deixar livres um par de opções técnicas sobre as fórmulas de pagamento e permitir-lhes então calcular como é que a volatilidade afecta o valor desses pagamentos e qual o impacto que isso pode ter sobre os incentivos e o comportamento económico.
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Na verdade, a reestruturação global deve ser projectada de modo a que os interesses da Grécia, o dos produtores que criam o PIB grego e o dos credores, estejam correctamente estabelecidos, correctamente conformes. Até à data, as reestruturações de dívida soberana quase nunca incluíram os instrumentos que reflectem os instrumentos em reestruturações de dívida das empresas que conduzem a esse respeito de interesses, principalmente porque esses instrumentos não têm sido “inventados”. Entre outras coisas, a comissão de negociação pode querer tirar o pó dos warrants sobre a evolução do PIB que foram incluídos na última reestruturação da dívida da Argentina.
Se a reestruturação for bem concebida, dentro de um ano pós reestruturação penso que se poderia facilmente ver o crescimento grego surpreender-nos com o seu vigor. Fiquei satisfeito ao ver que o novo ministro das Finanças da Grécia defende o mesmo ponto de vista. Um artigo no Financial Times de segunda-feira começa com a afirmação de que “O novo governo radical da Grécia revelou propostas na segunda-feira para acabar com o confronto com os seus credores, trocando dívida por novos títulos ligados ao crescimento, à execução de um excedente orçamental permanente e especificando objectivos no combate à fraude e à evasão fiscal praticada pelos mais ricos”. O Financial Times de hoje tem um artigo de Martin Wolf, que menciona os benefícios de “de uma ligação entre as obrigações de dívida e o crescimento económico”. Em The Volatility Machine gasto vários capítulos a explicar como criar estruturas de passivo que minimizem choques externos, tornem conformes os interesses dos credores e dos cidadãos, e melhorem a qualidade dos pagamentos aos credores e mostro igualmente porque é que isto leva a uma reestruturação muito mais bem sucedida para todas as partes interessadas. Mas isto é apenas teoria básica de finanças. O ministro Yanis Varoufakis deve realmente assumir a liderança na concepção de uma forma inteiramente nova de reestruturação da dívida soberana, e não apenas para a Grécia, mas para muitos países, na Europa e noutros lugares, que em breve irão entrar em incumprimento.
Haverá muita gente que parece odiar ou temer o Syriza e essa gente fará muito poucos esforços para tentar abordar os problemas da Grécia com a imaginação suficiente para dar a uma ou a outra parte o que ela precisa, mas, na verdade, actuar em boa cooperação, com imaginação e compreensão intuitiva da forma como as estruturas das contas (públicas) alteram a criação do valor global, uma reestruturação da dívida grega, poderia claramente deixar ambos os lados em muito melhor situação do que qualquer um dos lados poderia antes imaginar. É claro que se a reestruturação for bem feita isso importa muito mais e o seu impacto vai muito mais para além do seu impacto sobre a economia grega. Enquanto toda a gente provavelmente concorda que a Grécia simplesmente não pode prosseguir sem o perdão da dívida, menos amplamente aceite, mas não menos óbvio na minha opinião, é admitir que há uma série de outros países europeus que também precisam de perdão da dívida, para poderem crescer. Porque eu nasci e cresci na Espanha, e a minha mãe francesa fundou e dirigiu uma empresa em que foi bem sucedida, que a minha família e eu próprio ainda mantemos, estou confiante em que conheço suficientemente bem o país para dizer que, mesmo com o facto de algumas reformas impressionantes terem sido implementadas sob Mariano Rajoy, a Espanha é, no entanto, um desses países. Suspeito que muitos outros países, incluindo Portugal, Itália, e talvez até mesmo a França também o são.
Sei também que, no entanto, as perspectivas sobre a dívida espanhola são um tema extremamente sensível e emocional e que vou ser firmemente criticado por dizê-lo. O Financial Times de hoje tem um artigo muito preocupante explicando porque é que Madrid quer ser visto entre os que defendem a linha dura em se oporem a um tratamento racional para com a Grécia:
“Quando se trata de ajudar a Grécia, não haverá nada que se possa chamar de solidariedade dos países do Sul ou de patrocínio periférico”. Isto é o inverso do que deveria ser dito e feito. Num artigo publicado em Politica Exterior em Janeiro de 2012, eu realmente propus, embora sem muita esperança, que a Espanha assumisse a liderança e organizasse os países devedores para negociar um acordo sustentável, mas o seu medo de PODEMOS, o equivalente espanhol de Syriza, e sua determinação em ser um dos países “virtuosos”, parece-me que Madrid se está, muito provavelmente, a movimentar economicamente na direcção errada. Em última análise, amarrando-se ainda mais fortemente com os interesses dos seus credores, Rajoy e seus associados estão apenas a fazer tudo para que a campanha eleitoral do PODEMOS seja em tudo ainda mais brilhante.
Como isto é, e por razões que podem ter a ver com a história recente, Francisco Franco, e as cicatrizes psicológicas que este deixou entre as pessoas da minha geração, qualquer discussão em Espanha é susceptível de ser incluída nas considerações não-económicas, especialmente as irritantes denúncias de virtude moral e de torpeza moral. Estas considerações não económicas não são aqui irrelevantes. Na verdade, algumas delas são muito importantes e até mesmo admiráveis. Mas devem ser compreendidas no interior de um contexto mais neutro.
Tanto quanto posso afirmar, há pelo menos quatro razões importantes pelas quais os opositores do perdão da dívida, e não apenas na Alemanha mas também em Espanha, consideram que a exigência para o perdão da dívida seria um desastre a longo prazo para a Espanha:
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O futuro económico da Espanha depende da sua permanência como um membro da Europa e em boa posição. A exigência do perdão da dívida (sem falar já de uma renegociação da união monetária) poderia causar uma crise financeira e relegar a Espanha para o estatuto de um país atrasado.
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Se a Espanha falha em honrar os seus compromissos de dívida isto seria considerado sempre numa perspectiva não confiável e congelaria os investimentos externos e os fluxos comerciais no futuro.
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Mais importante, isso seria moralmente errado. O povo alemão forneceu à Espanha, recursos reais, duramente ganhos que os espanhóis utilizaram muito mal. Não é justo ou não é honroso que a Espanha venha assim punir o povo alemão pela sua generosidade para com a Espanha.
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A Espanha fez efectivamente uma escolha e escolheu gastar o dinheiro desenfreadamente sobre frivolidades de consumo e investir em projectos sem valor. Chegou-se a este caos só por causa das políticas económicas muito pobres e corruptas postas em acção por Madrid . Tivessem os espanhóis actuado como os alemães e abster‑se‑iam de um consumo excessivo – o resultado de um falhado traço de carácter nacional – e não teriam sofrido ataques especulativas sobre a bolsa e nem uma bolha sobre o imobiliário, não teriam desperdiçado o investimento e, acima de tudo, não teriam tido um boom de consumo insustentável e um colapso na poupança. É lamentável que os espanhóis comuns devam sofrer pela venalidade dos seus dirigentes mas, em última análise, eles são os responsáveis.
Estes quatro argumentos, que são os mesmos argumentos apresentados nos outros países europeus altamente endividados, foram apresentados não apenas pelos alemães caricaturalmente gananciosos, mas também, mais importante ainda, pelas pessoas locais indignadas. Estas, realmente acreditam que o seu país se comportou estupidamente e que deve pagar o preço e é difícil não respeitar a sua sinceridade.
(continua)
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Ver o original em:
http://blog.mpettis.com/2015/02/syriza-and-the-french-indemnity-of-1871-73/
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