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UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (81)

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Da Fonte da Moura a António Aroso

Tinha quase seis anos quando saí da rua do Monte da Luz, onde nasci, e vim para a Fonte da Moura. Esta designação, Fonte da Moura, corresponde a um espaço que vai quase desde Pereiró, desce a Av. Antunes Guimarães, de um lado e de outro, e acaba do outro lado da Av. da Boavista. Diz-se da Fonte da Moura, por causa de uma fonte, que a lenda diz que existiu, ninguém sabe muito bem onde, mas muitos opinam sobre o lugar ou possíveis lugares, afirmando saberem quase o seu local exacto. Há porém quem suspeite de que o local onde a fonte possa ter existido, nada tem a ver com o que se julga. Um dia, falaremos disso!
Consta da lenda, que um grupo de cavaleiros liderados por D. Afonso Henriques viajava já há dias pelos campos. Cheios de sede, procuravam afanosamente uma fonte. No caminho, encontraram uma jovem moura e perguntaram- lhe se ela sabia onde podiam encontrar uma fonte por aqueles lados. Ela respondeu-lhes que a única que havia ficava muito longe daquele lugar. Em tom de desafio, acrescentou que se o Deus dos cristãos era assim tão poderoso, então que fizesse nascer ali uma fonte. Se assim acontecesse, talvez que ela se convertesse ao cristianismo. D. Afonso Henriques desceu do seu cavalo e retirou-se para rezar. De súbito, ouviu-se um barulho e um jacto de água límpida e fresca formou um pequeno regato. Os cavaleiros ajoelharam-se perante o milagre e a jovem moura prometeu dedicar a sua vida ao Deus cristão. A fonte ficou, para sempre, conhecida como a Fonte da Moura.
A rua onde eu moro, fazendo parte deste espaço, pertence, contranatura, à Freguesia de Lordelo do Ouro. A parte norte/poente da Freguesia deveria terminar na Av. do Marechal Gomes da Costa, sua fronteira natural, e não continuar até ao final da Rua de Tânger.
Quando para aqui vim, comecei a frequentar a “Escola da Ponte”, cujo Director, à altura, era o Professor Cabral, pai do Dr. Fernando Cabral, que viria a ser Presidente da Câmara do Porto. Ao nível do primeiro andar da escola, e dos recreios, havia e há uma ponte que passa por cima da Rua de Tânger. Essa ponte era de madeira, com traves compridas, e por ela passou, em tempos remotos, a linha do combóio que, vindo do Porto, se dirigia à Foz do Douro (Cadouços) e depois seguia para Matosinhos.
Ali, na Escola, fiz muitos amigos e alguns ainda assim se mantêm como tal. A escola, como assim era nesse tempo, separava as meninas dos meninos, tanto nas salas de aula como nos recreios. E, convenhamos, não nos fazia mal algum.

ESCOLA DA PONTE
Era por esta ponte que passava a Máquina que fazia a ligação do Porto a Cadouços e depois a Matosinhos

Ao fundo da minha rua, no cruzamento, havia um quiosque, hexagonal ou octogonal, já não sei muito bem. Era o quiosque da D. Natércia. Ali vendia cigarros (avulso e em maço), os jornais, as revistas, papel de carta e envelopes, lápis e aguças e borrachas, canetas de tinta permanente, penas e aparos, tinteiros e papel mata-borrão, cadernos de linhas, de duas linhas, lisos e quadriculados, e também rebuçados e caramelos, que faziam as delícias dos catraios e dos seus pais (que deixavam de ouvir as pedinchices dos miúdos), mas acima de tudo, o mais importante do quiosque da D. Natércia, era que aquele espaço também era a sua casa. Vivia ali, com o marido e os filhos. Naquele espaço minúsculo, sem casa de banho, sem cozinha, sem sala, sem quarto. Hoje não se imagina a dificuldade que seria viver daquela forma e já ninguém sabe o que isso era. Um dia, a D. Natércia ganhou algum dinheiro e mudou para uma loja do outro lado do cruzamento, já na Av. de Antunes Guimarães. Assim nasceu a mais conhecida papelaria / tabacaria da zona da Fonte da Moura.

Em primeiro plano, a esquina onde estava o Quiósque da D. Natércia

Mesmo ao lado do quiosque da D. Natércia, passava um ribeiro, a céu aberto, que descia pela Av. da Boavista. Ali, logo no início, havia a Fábrica de Tecidos de Seda Avis, que pouco tempo depois acabaria, e que passados anos deu lugar aos prédios e complexo habitacional e comercial que agora existem.
Era por esse passeio, o da Fábrica, que eu descia até atravessar para o outro lado, junto à Rua de António Aroso. Aí, na esquina com a Avenida voltava a aparecer o ribeiro, nauseabundo, num buraco fundo, de onde para além do cheiro fétido, subia o ruído das águas. Estávamos nos anos sessenta e princípios dos setenta e a nossa capacidade de imaginação era enorme. A esse buraco dávamos o nome de Lago dos Cisnes, mas também de A Esquina do Pecado.
Subindo a rua, encontramos à nossa direita o Bairro de António Aroso.
O bairro dos dias que correm, está à venda. Passeei por ele e vi inúmeras casas com obras de alto a baixo, outras com tabuletas de “vende-se”. Eram quatro da tarde e o barulho dos martelos, das serras e das máquinas de fazer cimento, ouvia-se por todo o lado. O bairro está em transformação, e dos antigos habitantes, quase nada.
No Bairro de António Aroso, passei muitos dos melhores momentos da minha vida de adolescente. Muitos dos meus melhores amigos eram de lá.
Tinha nove anos quando pela primeira vez, tive contacto com aquelas paragens, no final da minha quarta classe. Fui para ter aulas com a nossa professora primária (senhora casada com um alemão e que tinha um Taunus 17m), já que todos tínhamos sido dissidentes, a professora e meia dúzia de alunos, do Colégio de Santo António, na Rua de Serralves.
Anos mais tarde, passei horas intermináveis em frente à porta do Jaime ou no passeio em frente, sempre na esquina da Rua de Roriz, a esquina dos Couto, ou lá mais acima, na Rua de Meinedo ou na de Bitarães, onde moravam alguns outros amigos. Como esquecer o Ni, o Sano, o Né, o Gui, a Ju, o Carlos, o Nuno, o German, os Corte Real (elas e eles), e tantos outros cujos nomes a memória já tende a esfumar, mas não as situações, as brincadeiras, a vivência, a alegria de ali estar. Por ali conversávamos, tocávamos viola e cantávamos. Muitos amigos de fora do bairro ali foram tocar e cantar, e alguns vieram a ser, mais tarde, figuras públicas. Dali saíamos para outras paragens, para outras vivências, para muitas aventuras.
No Bairro de António Aroso, havia um clube de andebol. Um dos melhores clubes de andebol da cidade. A A.A.A.A. – Associação Académica de António Aroso, hoje ainda existente, creio eu que só na vertente de basquetebol, e sem a glória daquela altura.

A primeira foto é da Esquina dos Couto
Depois – Rua de Roriz, Meinedo e Bitarães.
AAAA
Esquina do Lago dos Cisnes
Casa cinzenta é a da minha professora primária

O Bairro pertence a Aldoar. Hoje, e a dois passos de distância, está o Parque da Cidade.
A freguesia tem origens remotas, anteriores aos Romanos, provavelmente num castro ou povoado galaico. Em meados do século XIX, esta povoação estava a meio caminho entre o Porto e Bouças (actual Matosinhos). Por aqui passava a estrada que saía do Porto e chegava a Bouças, e que hoje desapareceu, encoberta em parte pela Rua da Vilarinha.
Aldoar era atravessada por vários regatos e ribeiros, sendo que a maioria entroncava num ribeiro, a Ribeira de Aldoar, que corria pela actual Avenida da Boavista indo desaguar ao mar, junto ao Castelo do Queijo. A freguesia de Aldoar era uma vila de quintas, cuja principal ocupação era o amanho da terra. Era daqui que saíam muitos dos produtos hortícolas que depois eram vendidos no Porto. Aldoar foi integrada na cidade do Porto a 21 de Novembro de 1895. Em 1916, passa a pertencer à região eclesiástica da cidade. Durante algum tempo, a freguesia manteve as suas características de ruralidade, mas com os passar dos anos o crescimento urbano foi inevitável.
Hoje, com a reforma que foi implantada, a Freguesia de Aldoar faz parte de uma União de Freguesias, onde também estão Foz do Douro e Nevogilde.

Enfim, memórias de vivências de quem as viveu bem, e com alegria.

 

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