UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (82)

carta-do-porto

DE CRISTO REI AO BAIRRO DA VILARINHA, PASSANDO POR RUI FALEIRO, CORREIA DE SÁ, TÂNGER E ANTUNES GUIMARÃES

– Papá, posso sair?
– Está bem, mas, às dez horas quero-te em casa!
E lá saía eu, a correr.

Eram oito e meia de uma qualquer Sexta-feira ou de um Sábado, e os meus amigos já deveriam estar a chegar à beira da casa dos Vareta, na Rua de Rui Faleiro (como curiosidade, e com um interesse muito relativo, devo dizer que Rui Faleiro foi um cosmógrafo quinhentista de grande nomeada, o primeiro que definiu o método mais rigoroso de determinar a latitude e a longitude no mar. Esteve ao serviço dos senhores D. João II e D. Manuel, Reis de Portugal).
Depois, eles ainda lá iriam ficar mais um pouco, no passeio, encostados às paredes, na conversa sobre tudo e coisa nenhuma, a verem passar o tempo, e eu teria de vir embora.
Nessa altura, deveria ter entre dezasseis e dezassete anos, e estávamos nos finais dos anos sessenta. A maioridade estava muito longe, seria só aos vinte e um anos, e da revolução ninguém sequer suspeitava. A vida era o que era, e estava tudo muito bem.
Conversávamos, um ou outro fumava um cigarrito, um ou outro contava histórias de aventuras que teria vivido e que todos sabíamos que eram mentira, alguns diziam ter uns livros proibidos lá em casa, leitura pornográfica sem fotografias ou desenhos, ou então livros políticos onde na lombada desenhávamos um sinal de sentido proibido, outros faziam planos para o que fazer no dia seguinte, muitas vezes não exequíveis.

Tânger-Cristo-Rei-e-+-1000x

A música fazia parte da vida de todos nós. Vivíamos a época de ouro da música Mundial, e Nacional. A poucos metros de onde nós estávamos, na rua de cima, David Ferreira (órgão Hammond, piano, guitarra e voz), António Brito (baixo, guitarra e voz), Paulo Godinho (voz, teclas e guitarra – irmão de Sérgio Godinho), Álvaro Azevedo (bateria) e Luís “Pi” Vareta (baixo e voz), ensaiavam as suas músicas. Eram os Pop Five Music Incorporated que se tinham formado em 1967, e que em 1968 lançaram, o EP “Those Where The Days” que incluía “You’ll See” de Tozé Brito. Faziam música, equiparável ao que se fazia na altura em Inglaterra ou nos EUA, sendo dos primeiros grupos portugueses a gravar em estereofonia. Com a entrada de Miguel Graça Moura para o grupo (1969), pianista de formação clássica, determinaram-se os novos rumos sonoros da banda, que começou então, a interpretar originais cantados em português.


“Ária (para a 4ª Corda de Bach)” do disco single “Page One” (1970)

 

“Orange”

Quantas vezes fui, com alguns dos meus amigos, ouvir os ensaios (eu e alguns outros ficávamos cá fora a ouvir…. Era assim a vida dos mais novos!).
Cinco minutos antes das dez, lá saía eu a correr, para não falhar a “hora de recolher”.
Com o passar dos anos, e até aos vinte e um, a hora foi avançando até à meia-noite, até que um dia, sem que eu saiba precisar se a maioridade tinha, ou não, chegado, ouvi o meu pai dizer:
– Não venhas tarde, filho!
Penso que a partir desse dia, ganha a confiança dos meus pais, e uma independência subordinada à semanada que recebia, nunca mais me deitei de véspera.
Desse tempo, e de anos posteriores, guardo gratas recordações. Não era só para os lados de Cristo Rei, em frente à Igreja, onde aos Domingos íamos assistir à santa saída e olhar as “piquenas”, e de Rui Faleiro, que eu ia ter com amigos. Também ia para a Avenida Antunes Guimarães, durante o dia, onde pontificavam os cafés Fonte da Moura e Flamingo, ou para o Bairro da Vilarinha. Por lá encontrava grupos diferentes, com amigos diferentes, mas em que alguns, como eu, faziam parte de diversos agrupamentos.
No café Fonte da Moura “habitavam” muitos dos adeptos do Grupo de Futebol amador “Merengues” que acompanhei a muitos lados, e por diversas ocasiões fui fotografar os jogos. Estou a lembrar-me de uma deslocação a Ponte de Lima, onde, na altura, comi pela primeira vez arroz de sarrabulho.
No café Flamingo paravam outros, no bairro, outros ainda, e hoje já quase que os misturo a todos, num enorme grupo, onde algumas mães de alguns dos amigos, se entrosam, com professoras, amigas da minha mãe, conhecidas dos amigos e amigos de conhecidos, numa amálgama maravilhosa de nomes, que fazem parte das minhas memórias. De outros só lembro a cara, de outros só sei situá-los numas ou noutras situações, de outros ainda só me vêm à lembrança vagos esboços. E os nomes bailam frente aos meus olhos, em sequência alfabética, como se os visse hoje aqui à minha frente. Os Aires Pereira, o Artur, os Assis, os Calvário, o Cristiano, a minha maravilhosa professora de Inglês, D. Dina e sua irmã Zita, a D. Mimi, a D. Sara, o Félix, o Fernando, os Pichel, o Rapazote, os Raposo, o Thierry, os Vareta,  o Tozé Brito, o Zé Manuel (pianista), e o pobre do “Langarrica” a quem muitos tentavam fazer a vida negra. E tanta outra gente cujos nomes parecem vir ter comigo, mas se escondem num qualquer canto da minha memória.

Bairro-da-Vilarinha-1000x

Sobre o “Escritor Langarrica” (alcunha pejorativa que alguns lhe davam), que só vi de longe algumas vezes, contava-se que era ateu e se gabava disso. Dizia-se também que muitos dos catraios do bairro lhe batiam à porta, a horas inconvenientes, através de um fio de pesca preso ao batente da porta, ficando escondidos do outro lado da rua, e que ele ficava furioso quando vinha à porta e não via ninguém. E que um dia, “apanhou a jeito” uma mãe de um qualquer miúdo (à porta das casas do bairro, e a ladear o portão de ferro da entrada, existiam colunas de cimento, sendo que uma delas servia para a caixa do correio) que passava no passeio da rua, e lhe disse:
– Minha senhorrrra (o homem arrastava os erres), sei que é a mãe de um desses malandrrros. Eu, sou ateu, mas jurrrro-lhe perrrante este meco que se algum desses filhos …. (silenciou o epiteto) me voltarrr a incomodarrr, eu f…-o. Aqui disse o palavrão por inteiro.
Claro que a partir desse dia, aumentaram as diabruras, chegando algumas a quase poderem ser consideradas autênticos atentados à sanidade mental do senhorrr.
Muitos dos meus amigos andavam, como eu, na Escola da Ponte, de que já falei na crónica anterior, e as vivências misturavam-se com as que lá contei. O Café da Fonte da Moura, era um dos locais privilegiados para nos encontrarmos e de lá, partirmos para aventuras.
Não posso deixar de referir lugares onde parava, e pessoas com quem tive imensas afinidades, e que infelizmente já não existem.
A padaria que havia no cimo da Rua de Tânger, e de cujo nome a memória apagou, de onde vinham, no Inverno, e diariamente, brasas para aquecer a nossa sala de jantar.
A mercearia dos “Três Irmãos”, no fundo da Rua.
A mercearia do “Senhor Janeira”, talvez a mais pequena mas por certo a mais dedicada.
A mercearia “Prolar”, onde o simpatiquíssimo Senhor Brandão, o mais velho e que depois foi para a Rua de Santa Catarina, geria a loja e me oferecia, de quando em quando, um rebuçado (victórias), e que quando eu tinha sorte, me saía um cromo carimbado.
A “Farmácia Fonte da Moura”, da Dra Maria Alice, de quem tenho muitas saudades e era a mãe de um dos meus maiores amigos (que assim se mantém até hoje, sendo dessa forma o mais antigo dos que tenho) e um excelente fotógrafo.
A “Pedra Verde”, a loja do Senhor Raposo, pai desse mesmo amigo, onde aprendi muito sobre fotografia, onde corri com carrinhos eléctricos, onde conversei milhares de horas.
O bar “Oh, Valha-me Deus”, onde gastei muitas horas em alegres conversas à volta de uma cerveja, ou duas, ou…

Outros grupos e outros locais da cidade, fazem parte das minhas memórias de criança e de adolescente. Noutra altura me referirei a eles.

 

E AS NOTÍCIAS, COMO JÁ VEM SENDO HÁBITO

5 Comments

  1. A minha casa é em frente às da família Aires Pereira (hoje em debandada…) e no mapa da cidade que mostra vê-se a minha piscina.
    O Pichel morava na minha traseira e o cão dele dava-me cabo do tino.
    O Café da Fonte da Moura é onda agora está uma dependência do Barclay’s ?

    Um abraço.

Leave a Reply