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JÁ NÃO SE PODE VOTAR MAIS PS… E NO PC, PODE-SE? – por BENOÎT RAYSKI

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 Já não se pode votar mais PS … E no PC, pode-se?

Resposta  a Jérôme Leroy e Régis de Castelnau

Benoît Rayski, On ne peut plus voter PS… Et PC, on peut? – Réponse à Jérôme Leroy et Régis de Castelnau

Revista Causeur.fr, 31 de Maio de 2015

Régis de Castelnau fica insatisfeito com a posição assumida por Jérôme Leroy e cordialmente responde-lhe. Critica-o por este  ter levado muito tempo a compreender que já não é possível  dar o seu voto ao partido socialista, enquanto que para Castelnau  desde há muito tempo que é uma vergonha  comprometer-se com um partido do qual as duas mamas são a capitulação e a traição. Jérôme Leroy é  um pouco  hesitante, mais moderado ou, se preferir-mos, é menos contundente.

Os seus dois  artigos são muito elegantemente escritos e respiram  – uma virtude rara  nos dias de hoje– uma verdadeira sinceridade. Um debate que só eles  podem entre si  decidir: as grandes  questões  têm necessidade de solidão e de intimidade para ser pensadas e repensadas. Régis de Castelnau, em  apoio do seu ponto de vista que é o de desprezo para com  os socialistas (sociais-traidores um dia, sociais-traidores  sempre…), convoca estes últimos perante o tribunal da História. E daí, o seu requisitório soa como  uma imprecação: o abandono da Espanha republicana em 1936, os plenos poderes a Vichy,  a guerra  na Indochina, a guerra da Argélia… Mesmo se  os termos são excessivos, como convém a  um procurador,  nada disto é falso.

Mas história por  história, há uma  outra que caminha  paralelamente à do PS francês. A história do PC francês. E esta autoriza a que se faça a pergunta: pode-se ainda votar pelo PC? São centenas de milhares os que a esta pergunta poderiam responder. Mortos e vivos. Centenas de milhares que foram caçados, excluídos pelo PC ou, mais ainda, que partiram, em silêncio e com a dor no coração, órfãos e moralmente alquebrados. Mas quem iria interrogar os cemitérios?

Os primeiros partiram em 1939 aquando da assinatura do pacto Hitler-Staline (particularmente infame porque em forma de  presente o chanceler do Terceiro Reich recebeu dezenas de comunistas alemães exilados na URSS). O mais conhecido  de todos  eles chamava-se Paul Nizan. O PC empenhou-se em escondê-lo   sob toneladas de silêncio e de calúnias. Foi necessário esperar pelos anos 1960 e a reedição do seu livro  Aden Arabie, admiravelmente prefaciado por Sartre (sim, o Sartre que tinha  dito que para ele “ todo o anti-comunista  era um cão”), para que Paul Nizan reaparecesse.

Outros, menos conhecidos, foram em 1944  apagados da história da Resistência. Os membros de OS,  (Organisation spéciale)  a primeira  organização militar clandestina do PC. Decretou-se por razões de base política que nunca tinha  existido. Pierre Daix, que  morreu recentemente, escreveu um  livro muito  bom sobre estes rejeitados.

Mas, ano após ano, as vagas sucederam-se, sempre mais fortes. Os hitlero-titistas de 1948, quando Tito rompeu  com Staline. Depois, em 1953, quando os tanques soviéticos esmagaram a revolta dos trabalhadores de Berlim-Leste, os comunistas encheram-se de desgosto  e saíram, por sua vez.  Depois, 1953, foi  um ano terrível. As forcas de Praga para os líderes do PC checoslovaco  acusados “de sionismo”. E a conspiração “das blusas brancas” de Moscovo com os seus médicos judaicos[1]. Uma versão estalinista dos protocolos dos Sábios de  Sião. Quantos é que foram então expulsos  ou se sentiram obrigados a  partir porque não compreendiam o silêncio do PC, sempre  fielmente subordinado à União soviética? Para o Partido, era “right or wrong, my country”

Os tanques soviéticos, ainda eles, fizeram em  Budapeste em 1956, e para além disso de forma sangrenta, o que  tinham já feito em Berlim em 1953. Eles retomaram o serviço em 1968 e esmagaram a Primavera de Praga. A esperança, se ainda havia alguma, foi morta para sempre. E foram milhares, enjoados, a deixar o Partido. Depois, um fantasma ensombra os corredores do prédio da  Praça  Coronel-Fabien. O fantasma de um homem com um belo  sorriso  triste: Alexander Dubček.

Convir-se-á com Jérôme  Leroy e Régis de Castelnau que a história dos socialistas franceses, não é flor que se cheire. Mas a dos comunistas  também não é melhor. Acontece que os socialistas têm repetidamente exercido o poder, o que os levou a pecar. Os comunistas não. Excepto quando estiveram  associados por curtos períodos de tempo em 1944 e em 1981. Por conseguinte, não tiveram que pôr as mãos na massa. A olhar para o interessante percurso do PC,  ainda bem   para toda a gente que foi assim.  Então por quem votar?  Jérôme Leroy  pensa em Juppé. Regis  Castelnau, ele, apela  “a um voto revolucionário” e pragmático em prol de Sarkozy.

E eu? Pois bem, no que respeita aos presidentes, será  Félix Faure aquele  que prefiro. Teve uma morte invejável no Eliseu. Uma relação de sexo oral praticada pela bela especialista Madame Steinheil foi a razão  do seu coração se ter ido. Mais seriamente, desde que atingi a idade de poder votar, inscrevi sempre sobre o meu boletim de voto o nome de Pierre Mendès-France. Isto não serve para nada, dado que o meu voto é ferido de nulidade. Mas dá-me muito  prazer.

Benoît Rayski, Revista Causeur, On ne peut plus voter PS… Et PC, on peut? Réponse à Jérôme Leroy et Régis de Castelnau. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/parti-communiste-francais-ps-33069.html

*Photo : Wikipedia.org

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[1] Nota do tradutor. Da Wikipédia: trata-se de um processo que rebentou em 1952 em Moscovo. Um grupo de  nove médicos, entre os quais 6 judeus, tendo tratado membros do Partido comunista soviético   teriam envenenado  Andreï Jdanov (morto em  1948) e Alexandre Chtcherbakov (morto em  1945). Segundo as mesmas fontes,  estes médicos   no momento da sua prisão estariam a preparar o assassinato de importantes personalidades soviéticas, tais como Ivan Koniev, Alexandre Vassilievski ou Leonid Govorov. (…)

Entre os médicos inculpados  estavam o médico pessoal de Estaline, Vinogradov, e o general e médico-chefe da Armada Soviética, Miron Vovsi, ambos médicos muito reputados. Tratou-se de numerosos médicos judeus, médicos e farmacêuticos, acusados de terem participado de perto ou de longe e que foram presos. No início eram apenas 17 mas rapidamente o número atingiu várias centenas.

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