Adeus Europa! – por Benoît Rayski

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Com este texto iniciamos a nossa semana de solidariedade para com o povo grego. Um texto sobre um livro, um texto que pode ser lido afinal como uma análise da Europa de ontem que se quer repetir hoje, que pode portanto ser lido como um texto sobre a Europa actual.

Durante uma semana falaremos sobretudo da Grécia e da crise na Europa e teremos como companhia autores como Joseph Stiglitz, Martin Wolf,   o grupo Solidarité France Grèce pour la Santé, Karl Whelan, John Weeks, Biagio Bossone, Marco Cattaneo, George Friedman e outros, ou ainda blogs como Zero Hedge, Crises.fr, la crise des annees 2010, etc.

Júlio Marques Mota

Coimbra, 19 de Maio de 2015

 

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Adeus Europa!

O ensaio de Daniella Pinkstein ressoa como um tango triste

Benoît Rayski, Revista Causeur

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Nos anos 30 do século passado, um tango fez furor em Budapeste: “Domingo Sombrio”. Os “soluços” longos e lancinantes dos violinos húngaros acrescentaram toque de profunda dor à tristeza da melodia. Depois, “Domingo Sombrio” deixou Budapeste para conquistar toda a Europa. E a lenda diz que depois de ouvir muitas vezes este tango, há muita gente que se suicida .

A história de Daniella Pinkstein passa-se em Budapeste, hoje. Cada um das suas páginas está embebida de uma humidade quente sufocante nestes tempos pesados e dolorosos. Nela, é “Domingo Sombrio” todos os dias da semana… Este ensaio pode-se  ler de forma autónoma. Sem ter estado a ler mais nada. Mas se tiver sido alimentado por Kafka, Roth, Zweig, perceber-se-á melhor porque é que Daniella Pinkstein verte lágrimas sobre a sua Europa danificada, desfigurada.

É assombrada por aquilo de que nos fala Kundera ““o desaparecimento da base cultural centro-europeu terá sido seguramente um dos mais importantes acontecimentos do século para toda a civilização ocidental” e esta outra frase tirada do livro A Insustentável ligeireza de ser : “como é possível que uma tal tragédia tenha permanecido tão desapercebida e sem nome ”. Uma outra citação ainda mais triste, a de Jankélévitch que fala da França: “a França miraculosamente salva não renegou o regime que tinha feito do seu consentimento à sua derrota, da alegria da sua derrota, da organização e a exploração política da derrota, do ardor em utilizar esta derrota para liquidar a República, a sua razão de ser e o seu principal título de glória. A nossa primavera ainda não chegou …

Este livro onde há tanto amor, tanta raiva e tanta ternura é apenas – e é já muito – a fotografia instantânea de um mundo que não sabe que desapareceu e que, cego e surdo, acredita que ainda está vivo. A Europa morreu uma primeira vez durante a sangrenta chacina de 14-18. Os grandes escritores vienenses compreenderam então, sem dúvida porque eram judeus, que este luto anunciava outros bem mais aterradores.

A Europa morreu uma segunda vez quando Adolf Hitler quis fazer uma Europa do Atlântico a Auschwitz. A Europa morreu com os seus Judeus, o único povo verdadeiramente europeu. Tanto é verdadeiro que desprovido de pátria, tinha o seu destino vinculado ao fim das pátrias que lhe eram hostis. Em o que Procuram eles no Céu, todos estes cegos? , os Judeus estão presentes. Os vivos e os mortos. Estes últimos, infelizmente, são bem mais numerosos… Daniella Pinkstein confessa uma ambição prometeica: dar corpo àqueles, àquelas cujas vozes múltiplas foram alternadamente desesperadas, comovedoras, divertidas, absorvidas mas sem nunca serem ouvidas, entendidas.

Benoît Rayski, Revista Causeur, Adieu l’Europe! L’essai de Daniella Pinkstein sonne comme un tango triste. Texto disponível em : http://www.causeur.fr/daniella-pinkstein-europe-33295.html

Anexo do Tradutor

Daniella Pinkstein, Que cherchent-ils au Ciel, tous ces aveugles ?, Editions M.E.O, Bruxelles.

Na apresentação do livro, o editor belga escreve

“A história, pensava eu,   são apenas palavras, uma narração que passa de uma pessoa a outra, sem consistência nem sentido, qualquer que este seja, Este número de mortes, e pensava eu, ainda, a vida encontrará sempre para se transpor depois para músicas folclóricas que permanecem no tempo. Não imaginava que os tanques, os campos, as separações de fronteiras, as granadas, as casas fechadas, o esquecimento, a recusa, a ilusão de ainda acreditar , os trabalhos domésticos penosos, a tele, as rajadas de vento exaltadas nos corredores frios dos nossos edifícios, podiam por sua vez incarnar a minha perna, as minhas mãos, o rosto da minha mãe, o sorriso da açougueira, a história, esta quer dizer o quê ?”

O que é que nos resta de um destino quando este se recusa a aceitar o teatro ilusório do mundo? Somos, cada um de nós, uma pequena parte de humanidade, uma parte deste jogo terrestre que nos escapa e que corre adiante de nós. Nenhuma saída possível. Porque nunca o colectivo foi assim tão brutal. O livro “«Que cherchent-ils au Ciel, tous ces aveugles ?»   Que procuram ao Céu, todos os cegos? ”, estas mulheres sem ilusões, estes homens errantes, estas almas que a providência precipitou em contra-senso. Às vezes confidentes, outras vezes narradores, prosseguem este espectro vagabundo, o de uma Europa fantasmagórica, de uma Europa desaparecida, esmagada entre o socialismo real do Leste e a vacuidade do mundo a Ocidente, uma Europa tão procurada e que agora é tão desesperante. E a cada passo, a cada dia, estes homens e estas mulheres resistem a esta brutal e terrível época que é a nossa, afastando o seu próprio destino, como o de todo um continente, da fatalidade para a qual se caminha”.

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