Meus caros companheiros desta Viagem dos Argonautas ou para aqueles que navegam pelas mesmas águas.
O ponto alto da crise europeia foi deslocado. Dia 5 de Junho não há pagamento da Grécia ao FMI e não há incumprimento da Grécia. Transferiu-se o problema mais uma vez, intensificando-se porém a incerteza, com todos os prejuízos que isto acarreta.
A questão é económica dizem-nos os neoliberais mas, ao sê-lo, é então eminentemente política e não passível de ser encarada apenas como uma questão técnica. Tsipras afirmou-o na peça que publicámos e a Europa reconheceu-o na noite de segunda-feira quando se reuniram até à uma da manhã com Merkel, em Berlim, os pressupostos senhores da Europa, François Hollande, Jean-Claude Juncker, Mario Draghi, Christine Lagarde. Estes, garantidamente irão sobretudo procurar uma solução técnica e não política, o que nestes moldes não existe porque não se pode exigir a alguém que pague de imediato o que não está em condições de poder pagar. Entretanto, verga-se toda a Europa ao dogma que está subjacente a esta exigência, a de que a austeridade gera crescimento, uma vez que as dívidas só são pagáveis com crescimento. Fora disso, só o raciocínio mágico religioso da idade das Trevas tão bem descrito pelos gregos através da figura do pharmakos com múltiplas referências para lá do século V antes de Cristo, pode ser considerado equivalente a esta teoria absurda de que a austeridade é expansionista e em nome da qual tudo o resto deve ser sacrificado. Um universo de dogmas contra um outro universo de rituais mágicos e sangrentos. Porém, nós agora estamos no século XXI.
Mas não será do domínio mágico-religioso pensar-se que em tempo de crise os mercados devem ser soberanos e os Estados soberanos devem-lhe estar subordinados? Mas não será do domínio mágico-religioso pensar-se que em tempo de crise a austeridade de todos gera o crescimento para cada um do conjunto? Mas não será do domínio mágico-religioso pensar-se que qualquer regulação é sempre pior que a desregulação que ela quer evitar, porque enviesa e emite maus sinais aos mercados? O poder aos mercados, é o mandamento único da nova religião, onde os seus templos são as bolsas. Uma anedota diz-me muito desse tipo de pensamento:
Quanto tempo levam cinco alentejanos a colocar uma lâmpada no tecto de uma sala? Uma eternidade, diz-nos a anedota. Um em cima da mesa que coloca a lâmpada e espera que quatro outros alentejanos façam rodar a mesa e assim a lâmpada se vá enroscando… E quanto tempo leva um economista a fazer a mesma tarefa? Nenhum diz-nos a anedota, porque este deixa a tarefa para os mercados.
Acabo de ler um livro supostamente maldito, Soumission, de Michel Houellebecq que nos fala exactamente da miopia política em França e num momento em que a oposição à ascensão do islamismo é apenas feita pela Frente Nacional, enquanto o PSF pela mão de Manuel Valls apanha o comboio do islamismo para não perder totalmente as migalhas que as correias do poder lhe podem dar, coligando-se com os islamitas. As eleições são ganhas pela FN, em segundo lugar ficam os islamitas e em terceiro lugar o PS. A coligação dos dois partidos, o Muçulmano e o PS têm mais votos que o primeiro partido votado, a FN, e é pois esta coligação que assume o poder, com os islamitas a assumirem o comando desse poder. Nas negociações para a coligação entre os islamitas e os socialistas, o controlo de um ministério do governo francês é chave para os muçulmanos: o da Educação. E aqui uma figura é trágica, Roger Rediger, um universitário de nível e Presidente das Universidades, que assume uma tarefa, estudada ao milímetro: a de destruir o ensino republicano, espinha dorsal da República Francesa, vergar, comprando-os, os professores universitários de alto gabarito. E consegue ambas as coisas.
O livro é pois uma crónica sobre a subida ao poder em França de um Partido islâmico com o apoio das gentes do PS, contra a Frente Nacional e é também uma crónica sob a falta de espinha dorsal no corpo universitário como um todo. Uma personagem central neste livro, Robert Rediger, é exactamente um universitário de prestígio que assume como principal função a de converter os universitários de alto nível, no quadro de um sistema fundado na desigualdade social, aos valores do Islão. É preciso abafar as vozes de prestígio que possam dizer Não. Como instrumento de base o dinheiro disponível para os calar e como objectivo intermediário a incultura que estes ficariam encarregados de reproduzir, depois de desmantelado o sistema de ensino republicano até aí em vigor. Mas a conversão tem de ser publicamente assumida e nada melhor do que uma das instituições de ensino de maior prestígio de que dispõe a França para ser o palco dessa conversão pública à qual se submetem um a um a maioria dos universitários: a Sorbonne. Deste ponto de vista, trata-se de um texto sublime quanto à decadência do Ocidente, porque é notável a descrição feita pelo autor quanto aos argumentos utilizados e quanto ao número de professores presentes, uma “obra” realizada por Robert Rediger, que vai de “mentor” das Universidades, a Presidente da Sorbonne, a Ministro do Ensino Superior e depois a Ministro dos Negócios Estrangeiros, lugar fundamental no contexto político da situação descrita no livro. Se alterarmos os dados desta alegoria, e se colocarmos em vez de Alá a Confiança Suprema nos mercados, em vez das mesquitas as bolsas, utilizando o mesmo instrumento, a doutrinação pelo ensino, num lado o Alcorão, no outro o neoliberalismo puro e duro, mantemos a estrutura do livro e explicamos uma outra submissão, a submissão actual de todo um continente a uma ideologia, a um pensamento mágico e religioso, a de que a saída da crise está nas políticas de austeridade. E a minha pergunta é então: haverá diferença entre todo o trabalho político de Rediger, também um defensor da desigualdade social como elemento da dinâmica social, no seu trabalho de conversão e na submissão das elites e o texto dos 4 Presidentes Europeus da União Europeia, que expressa a análise que eles fazem sobre a crise, com o título Preparing for Next Steps on Better Economic Governance in the Euro Area-Analytical Note, assinado por Jean-Claude Juncker, Donald Tusk, Jeroen Dijsselbloem e Mario Draghi? Ou ainda aqui mais perto, haverá diferença entre esse trabalho de conversão e de submissão das elites e o de Mário Centeno com o programa Uma década para Portugal ou os textos de Francisco Assis a elogiar Macron e Matteo Renzi? Textos do sistema, a defenderem o sistema, todos eles a serem obra de verdadeiros Leopardos e fundamentais na reprodução social da estrutura de classes vigente, ao assumirem a função de mudar os textos para que os textos possam continuar a representar exactamente a mesma coisa. Não podemos mudar a Europa, aliemo-nos então a ela, dirão todos estes senhores. Dúvidas? Olhe-se então para os 7 anos de crise e para as nossas universidades de Bolonha, olhe-se para a incapacidade das mesmas em discutir a crise e a agonia da Europa. E não nos esquecemos que quem mais destruiu a estrutura do ensino nas Universidades em Portugal foi exactamente o partido Socialista com Mariano Gago. Veja-se que Nuno Crato não tem já que mudar nada, só tem que fazer uma coisa mais: com o argumento de que não há dinheiro, apertar o garrote ainda mais às Universidades. E tem-no feito. Mas a este falta-lhe a classe, a inteligência da personagem Robert Rediger, criada pelo autor de Soumission, até porque em Nuno Crato tudo é primário, primário de mais, para não dizermos que tudo nele é carroceiro.
No quadro da actual crise, a consequência deste trabalho dos Leopardos maquilhando a realidade levará a que a crise se vai tornando subterraneamente cada vez mais violenta e a poder levar a um reavivar dos nacionalismos e da fragmentação das nações e da própria União Europeia. A Escócia não saiu. Veremos se as coisas continuam assim. A Catalunha ainda não saiu mas só se pode dizer isso. O mesmo se pode dizer na Bélgica, o mesmo se pode dizer na Itália e quanto aos países de leste o reavivar dos populismos não é nada de bom sinal. No coração da Europa, o Podemos em Espanha, o Syriza na Grécia, a pressão para a criação do movimento os Possíveis em Itália, como o equivalente a um Podemos espanhol, a ser constituído de partida por gente saída do partido de Matteo Renzi, o enorme crescimento do Sinn Fein na Irlanda, tudo isto a mostrar que a revolta dos sem nadae sem direito a nada é possível. Mas esta revolta dos sem nadae sem direito a nada tem como contra-ponto uma montanha de dívida não pagável à Alemanha, no contexto em que está a ser exigida. A questão que se levanta é então: as botas alemães marcharão sobre a Europa? E se o fizerem, fá-lo-ão como?
Entretanto, deram-se as eleições em Espanha, na Polónia e na Itália. Das duas primeiras já falámos. Iremos pois falar das que ocorreram em Itália, com dois textos, um da revista Metamag e um segundo publicado pela revista Causeur.
A partir destes leituras estaremos em condições de analisar três grandes textos sobre a crise política em França e não só, também sobre a traição dos partidos aos seus ideais e à sua submissão a Frau Merkel, porque no fundo, foi na base dessa traição que se construiu esta Europa e com esta estrutura. Nada que não tenhamos visto aqui, em Portugal, com José Sócrates sobretudo e depois, com as múltiplas hesitações de António José Seguro e mais recentemente ainda, com os variados silêncios de António Costa à volta de questões delicadas como a questão da dívida ou de como é que se consegue gerar crescimento sob o garrote dos Tratados europeus (não é garantidamente sob o plano Juncker que este crescimento se consegue, como Costa candidamente deu a entender nos debates contra Seguro, no Verão passado) ou ainda com a apresentação do programa Uma Década para Portugal, No entanto, o que vimos aqui é uma pálida visão do que terá acontecido em França com François Hollande. De repente, neste país, o silêncio parece ser a palavra de ordem para quem é crítico porque existe um só ideal europeu a defender, o da Europa proposto pelas Instituições Europeias e assente nas suas regras de funcionamento, ou então a perseguição política e económica, se são personagens públicas. E Pierre Moscovici, que abandonou a França para ser Comissário Europeu e arriscando com isso a que o seu país ficasse ingovernável uma vez que o PSF podia perder a maioria absoluta, anda agora a pisar a Grécia, o que ilustra bem esse ideal pelo qual os nossos dirigentes se batem.
Na minha modesta opinião, os textos que agora queremos apresentar são textos de muita qualidade e que vão bem para além da situação actual, não deixando, porém, de terem como base a crise actual. O texto de Jérôme Leroy fala-nos que é impossível, hoje, a solidariedade republicana, caracterizada sempre pelo voto útil no PSF ou no PCF quando na segunda volta de qualquer eleição estava um candidato da esquerda contra um candidato da direita, dada a configuração do actual PSF com uma prática política do que não se pode entender por socialismo. Régis de Castelnau alinha no mesmo diapasão, indo porém mais longe, mostrando as sucessivas traições do PSF ao longo da sua história, “mostrando” que não é apenas agora que se não deve votar PS, o que defende Leroy, mas sim que nunca se deve votar PS, porque este transporta no seu ADN o vírus da traição aos seus próprios ideais. A análise dos dois autores é implacável e cheia de verdades historicamente confirmadas. A análise é uma coisa, a conclusão, porém, é outra e se concordámos com a primeira, discordámos completamente da segunda, a conclusão, e já o dissemos. Mas voltaremos a esta questão, até porque em Portugal os Leopardos espreitam e com muita atenção. A estes dois textos segue-se um texto de Benoît Rayski, de forte crítica feita aqueles dois autores e a partir de uma pergunta: se não se pode votar PS será que se pode votar PC? E confrontam-se neste texto as histórias dos dois partidos. E que histórias! Mas a conclusão neste último texto é de que a história do PCF não é melhor e, portanto, seguindo a opinião dois primeiros autores também não se deve votar PCF. Então se à esquerda não se pode votar, onde é que se pode votar? Voto nulo, como sugere o texto de Benoît Rayski? Não creio que alguma vez isso seja uma saída.