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A Galiza como Tarefa – soidades – Ernesto V. Souza

O passageiro, como tantas vezes que viaja, lê num livro. Antes lia mais, também mais viajava. Ler, nas estações na espera da viagem, nos transbordos entre trajetos ou sentado como hoje no comboio à luz do dia frio e azulado pela Castela adiante a caminho de uma reunião absurda de trabalho, conecta-o com o tempo e o espaço, com a história e consigo mesmo: com outras horas perdidas e frustradas, com sonhos, periplos, esperanças, caminhos velhos e passagens soltas que de tantas ocupam valeiros, no tempo ou na narrativa da própria vida.

Ao sol seco do inverno aparece, a intervalos da névoa, a paisagem da manhã castelhana. Venta de Banhos. Com o comboio detido por algum problema absurdo que o “revisor” não considera oportuno informar na sua irritação agitada, o viageiro lê tranquilo. Ao mesmo tempo contempla a decadência da outrora importantíssima encruzilhada ferroviária e pensa nas suas viagens pelas cada vez mais fantasmais Medina del Campo, Arévalo, Bejar, Ávila.

A impressão é forte, como o próprio texto. O viajante não termina de gostar do modo seco, firme, rude e um tanto soberbo dos ensaístas castelhanos, nem quando humorizam se pretendendo ligeiros, nem quando aprofundam a sério com ar grave nos problemas e eternidades da Espanha; gosta mais dos galaicos, até quando escrevem em castelhano, com eles se entende melhor e o pensamento transita por espaços equilibrados e perplexos – já o leitor decida – de complexidades e hipóteses subgerentes, ou de anedotas a fio bem mais atraentes.

O livro que lê o passageiro intitula-se “La España vacía : Viaje por um país que nunca fue”, obra celebrada do jornalista e romancista Sergio del Molino, na que num estilo cuidado e sóbrio, dá conta da realidade mítica da Espanha interior em forma deformada de paisagem contemplada e deem-lhe licença de “road movie”, metáfora dramática da despovoada articulação do interior da Espanha castelhana, a das pervagações de D. Quixote, do Madrid do neorrealista filme “Surcos” e a do conflito histórico de incompreensão entre campo e cidade.

Descobre o escritor a realidade e tropos que o viageiro bem conhece: a Espanha das vastas despovoações, dos vilarejos de casas arruinadas que poderiam se desintegrar no estio em pó se houvesse vento, a de grandes torres igrejas que se enxergam na distância e mais assombram na proximidade das vilas às que dão sombra, tão escassas de gentes como de fontes no verão.

Contrasta, o autor, por ilustrar, que essa Espanha interior tem a densidade (fora as cidades) da Finlândia, sem tecido de núcleos vilegos, sem verdadeira rede de comunicações nem caminhos. Uma Espanha árabe e romana já despovoada, com cidades que não gostam do campo. O interior, gizado definitivamente por um franquismo “desarrolhista” que louvando o campo desenvolveu até extremos o modelo urbanizador do liberalismo, e que tão bem preparou o “Estado das Autonomias”.  Essa Espanha contemporânea que se moderniza e ordena ao ritmo do crescimento de poucas, muito poucas cidades (ligadas por auto-vias e Aves centrados em Madrid) que existem ausentes entre pequenos desertos crescentes de indígenas rústicos e isolados.

Todas as capitais europeias são o sol dos seu estados: Paris, como modelo, Londres, a Metrópole ou a grande Lisboa com o seu hinterland. Mas nenhum estado da Europa apresenta essa paisagem dramática, dependente e despiedada da Espanha interior. O autor lamenta. O leitor pergunta-se, neste comboio parado, pela acelerada decadência das linhas ferroviárias.

Em boa lógica o livro desenha, tangencialmente o projeto moderno da construção de Espanha como efeito da articulação da construção do mundo urbano moderno. De um grande Madrid que sateliza capitais de províncias que por sua vez funcionam como buracos negros na atração da riqueza, da população e da vida mesma.

Obviamente o ensaio funciona à vez como uma narrativa de viagem e também de crónica perplexa de um país em crise na voz de um intelectual, nacionalista, da geração do leitor, também passageiro e habitual contemplativo da realidade.

O livro-crónica é por sua vez uma viagem na que não se contempla a pátria do viageiro. A pátria do viageiro, nunca encaixa nem se encaixa numa narrativa que pretenda explicar Espanha, desde nenhuma análise ou perspetiva.

A Galiza moderna despovoa-se também, obrigada nesse quadro e lógica de articular Espanha a base de nodos e sub nodos radiais com um único centro em Madrid. É a lógica e é o conflito no que se situa a Galiza desde o fim das Guerras napoleónicas.

A Galiza já tinha um modelo estruturado de habitação, antes de Castela começar o seu caminho e muito antes de se projetar o Madrid liberal moderno como centro. Um tecido denso de núcleos de população continuado, semelhante aos europeus, articulado e definido em paróquias, com cabeças de comarca, com férias e caminhos.

A construção dessa Espanha centralista, capitalista, urbana soube já desde início do século XIX que o seu principal inimigo era a estrutura populacional e territorial da Galiza. O viageiro sorri, e sobrepõe na imaginação o mapa de Fontán, enquanto elucida já ausente do texto, que uma narrativa parelha para a sua pátria, daria uma leitura antitética.

Mas o leitor já viaja, por fim, na manhã castelhana fria rumo a Palência.

 

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