A GALIZA COMO TAREFA – desfeita – Ernesto V. Souza

Em 1983, Camilo Gonsar, publicou um livro experimental, como todos os dele, que a meio caminho entre a narração e o testemunho informativo, contava a pesquisa que realizava um jornalista para determinar uns feitos, um assassinato acontecido na Sárria de 1936. desfeita

Agora, um tanto esvaída a narração linear e as pesquisas, na minha memória, predomina o impacto que, na altura da aparição do romance, me causaram as descrições daqueles bares, ruas, urbanismo degradados e aquelas personagens com uma memória social e língua destruída, ou a meio destruir.

O ambiente, os cenários, a sensação do desajuste do ideal vilego, da cultura perdida, da castrapização mais dolorosa, da inevitabilidade da desfeita crescente; lembro que me deixaram um enjoo difícil de esquecer. A noção de transição cara uma modernidade imperfeita, com um ponto não post-apocalíptico, senão no meio do apocalipse demorado, a cámara lenta acontecendo, com um estilo muito americano, ante os nossos olhos.

Essa sensação, era a realidade: os bares tantas vezes vistos depois na Galiza vilega ou de bairro. Espelhos absurdos, azulejo barato, muito plástico ou PVC, estética dos anos 80, comesta pelo tempo, no meio de destruições brutais da paisagem e desfeitas urbanísticas. E depois, nos 90 e 2000, a pior.

Companheiras dessas destruições e substituições do património, da paisagem, do urbanismo especulativo, foram as da cultura e as da língua galega. No nome do progresso e do capital. Porém deveríamos nos perguntar para que? Qual é o resultado décadas depois de tanta desfeita? melhorou o que? a economia? a qualidade de vida das vilas, nas comarcas, nas regiões?

O facto é que o capitalismo, mudou, mutou como um vírus de alta virulência. A globalização e a aparição de gigantes nas dinámicas de mercado electrónico, estão a aumentar –  irreversivelmente – a divergência entre lugares, regiões. Não há alternâncias clássicas, na procura de locais mais baratos, de ordenados mais baixos, de maiores espaços. Com a globalização reduziu-se na prática a possibilidade de progredir fora dos grandes espaços e das grandes corporações. O capital, como a população, concentra-se como nunca nos mesmos espaços, regiões, lugares. Os lugares abastados agora estão se afastando mais e mais dos mais pobres.

Há uma concentração em polos, que absorvem população, capital, rendas, e concentram o benefício económico, social, sanitário e cultural, atraindo mais habitantes, capital, rendas, negócios e fraturando as cidades, as regiões, os países, numa concentração da desigualdade social, cultural, educativa, sanitária muito marcante.

As chances sociais, educativas, sanitárias vêm de mais em mais definidas pela localização preferente. E a sua vez a mudança define-se pela complexidade e pelas exigências para deslocar-se a espaços, lugares com mais oportunidades, que se fecham à defensiva.

A Galiza vilega, nomeadamente a costeira, cidades como Ferrol e bairros de Vigo, ajustam-se hoje às dinámicas e paisagens do capitalismo e era da globalização. São as vítimas, a escala pequena e galega, desses mesmos processos de acumulação de capital, população e interesses noutras partes, da ausência de planificação dos conjuntos própria das estratégias, dos ciclos últimos do capitalismo.

Mas a Galiza, marcantemente definida pela economia desarrollista do franquismo e convertida em paraíso ancestral folclórico e numa economia extrativa de matérias primas, energia e alimentação; nem conseguiu se libertar de uma classe dirigente formada nesse quadro, nem soube encarar esta entrada na globalização, arriscando se converter, no meio da gestão absurda em nome da austeridade, numa periferia ruinosa abandonada.

Sem uma política industrial, territorial, educativa, sanitária, de comunicações sem investimento e projetos de desenvolvimento que fixem a população local, com condições, aos territórios, é difícil que se podam frear estas dinámicas de empobrecimento, abandono, concentração desequilibrada e desigualdade.

Nesta distopia emergente em forma de desfeita capitalista, a destruição da língua, da cultura, da própria Galiza corre paralela.

 

 

 

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