A GALIZA COMO TAREFA – viagens – Ernesto V. Souza

Viagens são inspiradoras. O papel impresso do ticket do comboio serve bem para deixar correr, a ritmo, a pena. Quantos poemas, quantas notas rascunhadas em viagens absurdos. Monótono ou contra-relógio, o ritmo do comboio, a salto pausado, ou à carreira, passam à escrita; como também as leituras, os passageiros, os contextos, a luz solar, espelhando as paisagens em matizes emocionais de cereais e montes verdes e variações de dias, horas, estações do ano, expectativas e angustias, ou noites que não passam.

A tensão dos dias prévios, a das poucas horas antes, a preparação de tantas cousas ou a improvisação. Apanhar o comboio, o metro, o avião. E de novo o comboio e o táxi. São horas.

A sensação é de estar sempre em movimento, às carreiras ou parado a observar a massificação. Sem importar o dia e quase a hora, marés de gente para toda a parte, de todas as partidas do mundo, com as suas equipagens de sonhos, circunstância e hábitos de classe diversos. Pensamentos e petiscos ligeiros, um café, uma cerveja entre transbordo e esperas. Algum livro de bolso, sólido e ligeiro, para me acompanhar.

No meio os desagradáveis controles de passaportes, etiquetas e equipagem;  identificações de rosto e documentos. Verificação de identidade (como se soubéssemos – essa piada melhor guardá-la – qual é a nossa identidade?).

Não gosto de viagens imprevistas, gosto de estar em sítios diferentes, por tempo; e gosto de levar tudo bem planificado. Gosto das rotinas, mas já postos a caminho desfruto enxergando arredor, comparando matizes e analisando, no possível, e para tranquilidade, os percorridos.

Sinto-me um bocadinho Bilbo Baggins, Phileas Fogg ou Mr. Picwick, ao mesmo tempo ativos, enérgicos, passivos, aburdos e ridículos. Out of place, as circunstâncias, os compromissos, um pouco o imprevisto que se resolve em sequências de viagens repetidas, condicionam períodos das últimas duas décadas da minha vida.

Viajar, por prazer não vai comigo, simplesmente vai acontecendo quando menos espero. Imaginava-me, de novo, vivendo sempre em quatro ruas, no centro da Crunha, sem passarmos a Ponte da Passagem senão para ir ver alguns amigos pela Galiza adiante. Mas a vida foi-me largando longe da casa e, por umas e outras, as peripécias do viajante habitual vão se reiterando.

Dos meus tempos de scout, conservo a teima pela boa arrumação da equipagem, e a preferência pelas bolsas, malas, mochilas, sacolas, cômodas, ligeiras, eficazes. Acho que seria capaz em minutos de fazer uma equipagem, para longe ou perto, para dias ou anos, uma de urgência e até uma de exílio, com saída imediata e permanente sem rumo certo. Passaporte, títulos e documentos, mudas, um par de calças, sapatos cômodos, escova de dentes. Faca, talheres, úteis de asseio ficam para ir a pé, a qualquer parte.

Pelo momento, de quando em quando, cara Inglaterra passar uns dias e volta. Cansam estas rotinas de viagem, mas oxigena bastante sair da Espanha.

One comment

  1. Abanhos

    O de oxigenar….é imprescindível

    Gostar

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