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CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 11. O MERCADO DE TRABALHO AMERICANO A DEGRADAR-SE: OS PREJUIZOS DA GRANDE CRISE FINANCEIRA TEM AINDA UMA LONGA VIDA PELA FRENTE- 2ª PARTE – por BILL MITCHELL

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O mercado de trabalho americano a degradar-se: os prejuizos da grande crise financeira tem ainda uma longa vida pela frente- 2ª Parte

Bill Mitchell

Bill Mitchell, US labour market deteriorating – the losses from GFC will be long-lived

Billy Blog, 14 de Fevereiro de 2017

(continuação)

O défice de empregos nos Estados Unidos

Como se referiu no início do texto, a taxa de participação atual (62,9 por cento) representa um longo trajeto abaixo do valor de pico mais recente, verificado em Dezembro de 2006 de 66,4 por cento.

Quando os tempos são maus, muitos trabalhadores optam por deixarem de andar a procurar quando sentem que não encontram bastante trabalho à sua volta. Como consequência, os institutos nacionais de estatísticas classificam estes trabalhadores como não fazendo parte da população ativa (falham o teste de andarem à procura de trabalho), e a exclusão destes trabalhadores da população ativa tem o efeito de atenuar a subida das estimativas oficiais do desemprego e das taxas de desemprego.

Estes trabalhadores desencorajados são considerados estarem no desemprego escondido e tal como os trabalhadores oficialmente desempregados estão disponíveis para trabalhar imediatamente e aceitariam um trabalho caso este lhes seja oferecido.

Mas as taxas de participação são influenciadas igualmente por mudanças na composição demográfica (mudança nas proporções) dos diferentes grupos etários na população na idade ativa. Na maioria de nações, a população está a mudar na sua composição com peso relativo crescente dos trabalhadores mais idosos e são estes que têm as mais baixas taxas de participação.

Assim alguma da diminuição na taxa de participação total poderia simplesmente significar ser um problema de evolução na média – aumento do peso dos trabalhadores que em média têm uma taxa de participação mais baixa.

Eu fiz uma análise atualizada para Dezembro de 2015 e calculei o declínio na taxa de participação devido à mudança na composição etária da população em idade activa a favor dos trabalhadores mais velhos, com menores taxas de participação a representarem cerca de 58 por cento do declínio real.

Então, mesmo se assumimos eliminar o efeito demográfico estimado (a tendência), ficamos ainda assim com uma resposta cíclica enorme.

O que  significa isso quanto ao desemprego subjacente?

A força de trabalho muda quando aumenta a idade da população empregada que lhe é subjacente e com as mudanças na taxa de participação.

Se nós fazemos o ajustamento tendo em conta o envelhecimento da taxa de participação em declínio e calculamos o que a força de trabalho teria sido dado o crescimento subjacente da população em idade de trabalhar se as taxas de participação não tivessem declinado desde dezembro de 2006, então, podemos estimar a variação da taxa de desemprego oculto devido ao estado letárgico em que tem estado o mercado de trabalho dos EUA.

Ajustando pelo efeito demográfico teríamos assim uma estimativa da taxa de participação em Janeiro de 2017 de 64,5, se não tivesse havido efeitos cíclicos (1,6 pontos percentuais acima dos atuais 62,9 por cento).

Assim, a baixa de 1,6 pontos percentuais na taxa de participação devido à desaceleração (líquida do efeito de envelhecimento) ascende a 3,698 milhões de trabalhadores que deixaram a força de trabalho como resultado da sensibilidade cíclica da força de trabalho.

É difícil pretender que estas reduções reflectem as mudanças estruturais (por exemplo, uma mudança na preferência em relação à idade da reforma, um súbito aumento no desejo de se empenhar a utilizar o seu tempo em educação a tempo integral).

Em Janeiro de 2007 (com a taxa de participação de pico que tinha transitado de Dezembro de 2006), a taxa de desemprego dos Estados Unidos era de 4,6 por cento (o que é ligeiramente superior aos 4,4 por cento do ponto mais baixo registado um mês antes, em Janeiro de 2006). Isto não desencadeou o seu crescimento rápido até o início de 2008 e, em seguida, o salto foi repentino.

Nós podemos ter um debate em separado sobre se a taxa de 4,4 por cento constitui ou não a situação de pleno emprego nos EUA. A minha posição é de que se o governo oferecesse uma incondicional garantia de emprego com um salário mínimo aceitável, haveria uma redução brusca da taxa de desemprego nacional que iria levá-la para valores bem abaixo de 4,4 por cento sem quaisquer impactos inflacionários significativos (através de efeitos de procura agregada).

Assim, duvido que 4,4 por cento seja a taxa de desemprego mínimo irredutível que pode ser mantida nos Estados Unidos.

Mas vamos utiliza-la como uma referência de modo a não nos desviarmos da definição de pleno emprego. Neste sentido, as minhas estimativas devem ser consideradas o melhor cenário dado que eu realmente penso que as perdas cíclicas são muito maiores do que as que aqui apresento.

Para aqueles que consideram esta afirmação como uma mistificação – ela significa apenas que eu penso que a a economia americana não estava em pleno emprego em dezembro de 2006 e que haveria assim, e de forma já duradoura algum desemprego cíclico naquela altura.

Utilizando a força de trabalho potencial estimada (com o controlo da taxa de participação em declínio), podemos calcular uma “necessária” série sobre o emprego que é definida como o nível de emprego que asseguraria ao nível dos 4,4 por cento a força de trabalho que se simularia ficar desempregada.

Esta série temporal diz-nos quanto têm de aumentar os postos de trabalho mensalmente (em milhares) para coincidir com o crescimento subjacente da população em idade de trabalho com as taxas de participação constantes no seu valor de pico de 2007 alcançado em Janeiro – ou seja, para manter os 4,4 por cento de referência como taxa de desemprego,

Pessoalmente calculei o emprego “necessário” na série de emprego com base na força de trabalho potencial ajustada pela idade (linha a verde escuro no gráfico abaixo).

A linha a azul dá-nos o emprego atual medido pelo BLS enquanto a linha vermelha a ponteado representa o nível de emprego que prevaleceu em Novembro de 2007 (o valor de pico antes da crise).

Isso permite-nos calcular a distância que quanto se está atualmente nos Estados Unidos abaixo da taxa de desemprego de 4,4 por cento para se poder manter constante a taxa de participação.

Há dois efeitos:

Para colocar esta questão numa perspetiva mais larga, o gráfico abaixo mostra a medida do desemprego americana designada como sendo a U6 BLS, que é definida da seguinte forma:

O total de desempregados, mais todos os marginalmente ligados, ou seja os que não procuram trabalho há mais de 4 semanas, mais os que estão empregados a tempo parcial por razões econômicas, em percentagem de toda a força de trabalho civil a que se adicionam todos os trabalhadores marginalmente ligados, ou seja os desencorajados.

Esta é a mais ampla medida da subutilização do trabalho publivada pelo Bureau Labour of Statistics.

Em Dezembro de 2006, antes dos efeitos da desaceleração terem começado a ter impacto sobre o mercado de trabalho, esta medida foi estimada em 7,9 por cento. E agora esta medida dá-nos o valor de 9,4 por cento (Janeiro 2017) acima portanto de 9,2 por cento verificados em Dezembro.

Isto é bem acima dos altos valores anteriormente registados, o que sugere (em conjunto com os outros sinais acima referidos) que o mercado de trabalho tem ainda um longo caminho a percorrer para poder ser considerado como ‘recuperado’.

Isto também significa que, enquanto o desemprego diminuiu modestamente ao longo do ano passado, o subemprego e o desemprego oculto subiram.

Estimativa das perdas a partir da grande crise financeira de 2008

(continua)

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Para ler o original clicar em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=35353

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Para ler a 1ª Parte deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clicar em:

CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 11. O MERCADO DE TRABALHO AMERICANO A DEGRADAR-SE: OS PREJUIZOS DA GRANDE CRISE FINANCEIRA TEM AINDA UMA LONGA VIDA PELA FRENTE- 1ª PARTE – por BILL MITCHELL

 

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