CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 11. O MERCADO DE TRABALHO AMERICANO A DEGRADAR-SE: OS PREJUIZOS DA GRANDE CRISE FINANCEIRA TEM AINDA UMA LONGA VIDA PELA FRENTE- 3ª PARTE – por BILL MITCHELL

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O mercado de trabalho americano a degradar-se: os prejuízos da grande crise financeira tem ainda uma longa vida pela frente – 3ª Parte

Bill Mitchell

Bill Mitchell, US labour market deteriorating – the losses from GFC will be long-lived

Billy Blog, 14 de Fevereiro de 2017

(CONTINUAÇÃO)

Estimativa das perdas a partir da grande crise financeira de 2008

O que me levou a ler na semana passada um interessante trabalho de investigação bem interessante  – pode-se estimar o custo de uma recessão? – escrito por  alguns economistas da organização Wells Fargo nos EUA.

Essencialmente, eles assumiam as estimativas americanas de PIB potencial fornecido pelo CBO em 2007 (de modo a manter-se imaculado por aquilo que a seguir se verá) e compararam-nas com as estimativas mais recentes do CBO de produto potencial e com a evolução real do PIB em termos reais, para chegar a duas conclusões:

  1. conhecer a diferença entre o PIB atual e o potencial (utilizando as estimativas potenciais mais recentes como valor de referência.

  2. saber até que ponto caiu o produto potencial como resultado dos danos à formação de capital privado pela grande recessão financeira – ou seja, pela perda de investimento havida.

O gráfico seguinte é a reprodução da Figura 1 deste documento de FARGO e mostra as três linhas acima mencionadas (PIB real, PIB potencial estimado por CBO em 2007 e o estimativa CBO do PIB potencial de 2016.

Os autores sublinham:

  1. “a série do PIB real é inferior à do PIB potencial calculado em 2016 e a diferença é muito maior quando se compara o PIB efetivo com o PIB potencial calculado a partir de 2007. Isso indica que a economia americana tem sido incapaz de recuperar e de voltar ao seu nível potencial.”

  2. “a projeção feita a partir do PIB potencial de 2016 está bem abaixo da que nos é dada a partir do PIB potencial de 2007 (PIB potencial estimado e publicado em 2007) e isto significa que a Grande Recessão tem levado à diminuição do PIB potencial.

Como já muitas vezes observámos, os custos de recessão são de dois níveis, os custos imediatos e os custos a longo prazo. Os impactos imediatos são os rendimentos perdidos com o aumento do desemprego tanto quanto a diferença entre o PIB potencial e o efetivo ou atual se alarga.

Assim, as horas de trabalho efetuadas normalmente diminuem, as taxas de participação caem e a produtividade diminui.

Os custos de longo prazo são, por seu lado,  o resultado da redução dos níveis de crescimento económico cuja trajectória mostra uma redução do ritmo de crescimento realizado devido à interrupção do aumento de capacidade produtiva o que, por seu lado, é devido à contração dos níveis de investimento e à destruição dos saberes profissionais, agora as chamadas competências, competências que na força de trabalho se dissipam e desaparecem mesmo pela inatividade forçada.

A imposição de austeridade orçamental durante uma recessão amplia os custos de curto e de longo prazo.

É por isto que é uma perfeita loucura invocar cortes discricionários nos défices orçamentais em nome de alguma noção equivocada da equidade intergeracional (querer reduzir o peso da dívida para as crianças de hoje é uma ideia claramente absurda).

Assim, a austeridade orçamental garante que os nossos netos irão ter menores condições para terem um futuro relativamente melhor do que poderiam ter em caso contrário.

Os meus primeiros trabalhos em meados dos anos 1980 foram uma crítica aos argumentos do pensamento neoliberal dominante sobre a  “taxa natural de desemprego “, que estava centrada no desenvolvimento do conceito de histerese.

Esta ideia de taxa natural de desemprego é semelhante à ideia de que nós somos o que temos sido.

Esta ideia do que significa verdadeiramente a taxa natural de desemprego é muito importante em economia porque com esta percepção se entende, se rejeita e se subverte a noção dominante de que o longo prazo é completamente independente do curto prazo.

Para o leigo, isso pode ser representado pela ideia de que procurar obter uma baixa taxa de inflação sem se ter em conta o desemprego que assim é criado, é a mesma coisa que estar a considerar que este desemprego criado pela politica anti-inflacionista não é um problema, porque no ‘longo prazo’ o desemprego estará sempre situado à “taxa natural”. É claro, esta ideia é um perfeito disparate.

A situação de longo prazo nunca é, portanto independente da situação da procura agregada de curto prazo. Não há nenhum estado invariável de longo prazo que seja pura e simplesmente determinado pela oferta. A história é uma série de períodos de curto-prazo interligados (co-dependentes).

Estimulando o crescimento do produto agora, os governos também ajudam a aliviar os constrangimentos de longo prazo sobre o crescimento – o investimento é incentivado e os trabalhadores tornam-se mais móveis.

O problema é um problema composto, porque a oferta (potencial) da economia é influenciada pela trajetória assumida pela procura e quanto mais longa é uma recessão (ou seja, expressa aqui pela diferença entre o PIB potencial e o efetivo) mais os mecanismos de histerese da economia serão negativos.

Ao estimular o crescimento do produto agora, os governos, portanto, ajudam a aliviar as restrições de longo prazo sobre o crescimento – o investimento é incentivado e os trabalhadores tornam-se mais móveis.

A partir de um qualquer momento, a capacidade produtiva da economia começa a baixar  face à lentidão da evolução da procura e a diferença dos PIBs acaba por desaparecer mas a valores muito mais baixos da actividade económica.

O diagrama a seguir é uma representação estilizada de como os dois lados da economia, o lado da procura e o da oferta, ambos os lados, interagem acompanhando a recessão o que nos ajuda a compreender as perdas de longo prazo que surgem se a recessão não é eliminada.

Ao contrário da abordagem de macroeconomia neoliberal que assume que o ‘longo prazo’ é determinada pelo lado da oferta, (pelas tecnologias e pelo crescimento da população) e que este é invariante face às condições da procura na economia em qualquer ponto no tempo, o diagrama mostra, que o lado da oferta da economia responde às condições específicas verificadas no lado da procura.

Em termos do diagrama seguinte, a trajetória do PIB potencial é representada pela linha verde, a cheio. Observar o segmento verde a ponteado, é o mesmo que observar a nossa linha a vermelho no gráfico acima.

O PIB potencial é o nível efetivo de produção que se obtém quando toda a capacidade colectiva disponível (incluindo Trabalho e equipamentos), está a ser totalmente utilizada.

O diagrama assume, para simplificar, que o PIB potencial real assume alguma taxa de crescimento constante quanto à capacidade produtiva impulsionada por uma trajetória de investimento suave até ao ponto em que esta começa a ficar mais plana.

Se assumirmos que na situação de pico a economia está a trabalhar em plena capacidade – isto é, que não há nenhuma diferença entre o PIB potencial e o efetivo – então podemos contar uma história do que acontece a seguir com a queda da procura agregada. A linha azul, a cheio, representa a trajetória do PIB efetivo.

Pode-se pois ver que a diferença entre os dois PIBs ao longo do tempo alarga-se rapidamente e isto à medida que a linha do PIB efetivo se afasta da linha do PIB potencial. A área A mede a diferença entre os valores dos dois PIBs para os primeiros X-trimestres conforme assinalado.

Como a economia começa a crescer novamente, o que acontece quando a procura agregada começa a recuperar (talvez tendo por detrás um estímulo orçamental, talvez com uma melhoria do consumo ou das exportações líquidas) após o ponto mais baixo em A, a diferença entre os dois PIBs começa a reduzir-se.

No entanto, a persistência da diferença entre os PIBs ao longo deste período começa a enfraquecer os planos de investimento, as empresas tornam-se pessimistas sobre o estado futuro da procura agregada.

Num qualquer momento, o investimento começa a declinar e duas coisas são observadas: (a) a recuperação do produto real não acelera devido aos contrangimentos na  procura privada; e (b) o lado da oferta da economia (potencial) começa no período atual a reagir (ou seja, é influenciado) pela trajetória que a procura agregada assume ao longo do tempo.

Lembremo-nos que o investimento tem características duais. O investimento é uma parte da procura agregada interna, a outra é o consumo, (ou seja, em economia fechada a despesa agregada é dada por estas duas comnpontes da despesa), mas o investimento por definição aumenta a capacidade produtiva nos períodos futuros. Dito de uma outra forma, o investimento influencia a procura agregada (agora) e aumenta a oferta agregada no futuro – e esta interdependência é fundamental para a compreensão de histerese.

Como a recessão dura, o capital social de uma nação ou permanece estático ou em casos extremos (tais como na Grécia) diminui.

O pessimismo por parte das empresas leva a que os empresários comecem a reduzir o potencial de produção real da economia (indicado pela divergência entre a linha verde a cheio a ponteado).

A área B denota uma diferença entre os dois PIBs, o potencial e o efetivo, a reduzir-se, decorrente de dois efeitos, pelo efeito da procura e pelo da oferta. Em algum ponto, o produto efetivo actual alcança o PIB potencial de produção – o que significa que a diferença entre os dois desaparece – mas a taxa de crescimento global é muito menor do que teria sido o caso, se a economia continuasse na sua anterior trajetória em termos de PIB potencial.

A profunda recessão não só provocou grandes perdas de rendimento nacional, enquanto havia uma diferença entre o PIB potencial e o PIB efetivo de cada momento mas fez também com que o crescimento do rendimento nacional possível nesta economia tenha sido muito menor e o país, em termos materiais, passasse a ficar consequentemente mais pobre.

Mais ainda, a barreira de inflação (isto é, o ponto a que a procura agregada em termos nominais é maior do que a capacidade real da economia em a satisfazer) ocorre a níveis de produção real ainda mais baixos.

Os custos estimados da recessão e da austeridade fiscal são muito maiores do que o pensamento neoliberal alguma vez o irá admitir.

A questão central no gráfico abaixo é pois que a oferta (potencial) da economia é influenciada pela trajetória da procura.

Aqueles que defendem a austeridade e os maciços cortes nos custos a curto prazo que a acompanham não conseguem reconhecer estes custos intertemporais.

O trabalho de investigação acima citado fornece estimativas objetivas destes impactos.

Os seus autores  também estudam as perdas de participação (observadas no meu comentário acima), a diminuição do consumo pessoal, a perda de produtividade e o alargar da diferença entre investimento potencial e o investimento efetivo.

Tomando todas as perdas de produção em conjunto, os autores citados afirmam:

  1. “o valor estimado em termos de perdas médias de PIB em relação ao ano de 2007 é de 9,9 por cento” – assim comparando com o PIB potencial que o CBO estimou como PIB potencial para 2007, ou seja antes de terem ocorrido as perdas de PIB potencial induzidas pela grande crise financeira que rebentou em 2008.

  2. Assim, a grande crise financeira ” reduziu, em média, anualmente o nível do PIB de 9,9 por cento durante o período de 2008-2015″.

  3. Quando se compara a trajetória de crescimento efetivo com o PIB potencial revisto (2016 CBO série potencial) isso permitiu-lhes estimar que a “perda média anual do PIB … é de 3,8 por cento.

  4. “Durante o mesmo período a perda média anual no emprego tem sido de 7,8 por cento.”

  5. Os “danos da grande recessão são de longa duração enquanto o nível (tendência) da serie do PIB potencial (para todas as variáveis) se movimenta à baixa. Estes resultados são consistentes com o ambiente económico global desde a grande crise financeira. Ou seja, uma recuperação dolorosamente lenta no conjunto da economia (PIB), o que tem sido acompanhado com um crescimento mais lento no rendimento pessoal, no emprego, nos salários e no investimento fixo das empresas. Além disso, a política monetária debate-se ainda por voltar à situação normal. “

Se eu fosse estimar as perdas de produção com base no crescimento da produtividade ajustada e a minha análise acima feita em termos de défice de empregos, iríamos registar perdas ligeiramente mais elevadas porque as medidas do PIB potencial CBO subestimam o produto potencial (devido à sua utilização da taxa NAIRU na determinação do PIB potencial).

Mas eles poderiam estar num estádio de baseball – em massa!

Conclusão

A evidência é bastante consistente em toda uma gama de medidas – o desemprego em massa nos EUA é o resultado de uma falha sistémica, na economia, porque esta não é capaz de gerar empregos suficientes, e esta falha surgiu a partir do momento em que a procura agregada caiu fortemente no início de 2008.

Desde então, como a economia tem lentamente começado a crescer novamente, o lado da procura do mercado de trabalho tem melhorado de forma constante e a taxa de desemprego tem diminuído.

O ritmo de melhoria parece estar a diminuir e como mostram os dados dos agregados familiares deste mês o volume do emprego total, na verdade, tem diminuído.

O mercado de trabalho tem um excesso considerável de mão-de-obra por utilizar, como é indicado pelas medidas mais amplas de BLS quanto à subutilização do trabalho, (a utilização da taxa de desemprego U6 em vez da taxa U3) e adicionalmente sublinhe-se que os empregos que estão a ser criados são claramente enviesados a favor de empregos de baixos salários.

A análise mostra que o impacto da grande recessão financeira sobre a economia americana está ainda para durar.

E cortando no défice orçamental para melhorar as coisas para as gerações futuras é, de fato, estar a conseguir exatamente o contrário – a arruinar o seu futuro.

Não é uma grande perspetiva.

Bill  Mitchell, US labour market deteriorating – the losses from GFC will be long-lived. Texto disponível em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=35353

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Para ler o original clicar em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=35353

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Para ler a 2ª Parte deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clicar em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/04/10/crise-da-democracia-crise-da-politica-crise-da-economia-o-olhar-de-alguns-analistas-nao-neoliberais-11-o-mercado-de-trabalho-americano-a-degradar-se-os-prejuizos-da-grande-crise-finance-2/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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