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Homenagem ao Carlos Tenreiro, uma série de textos sobre questões de macroeconomia e de alta finança – 8. DERIVADOS – receita para o desastre e para o colapso sistémico. Por Egon von Greyerz

Carlos Tenreiro
Carlos Tenreiro, um estudante de excecional maturidade emocional, de rara cultura, de rara sensibilidade e de alta capacidade pedagógica para transmitir o que sabia e até muitas vezes a gerar nos estudantes uma apetência por aquilo que ele mesmo ainda não sabia, mas que faria parte da sua trajetória de conhecimentos a desenvolver.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8. DERIVADOS – receita para o desastre e para o colapso sistémico 

Por Egon von Greyerz  

 em em 15 de março de 2018

 

O jogo é, de acordo com a Wikipedia, a aposta de dinheiro (ou algo de valor) sobre um dado evento com um resultado incerto. Três elementos são necessários para o jogo. Ponderação, sorte e prémio.

Assim, cada um de nós faz uma aposta e, se tiver sorte, ganha um prémio, mas também pode perder tudo. O jogo existe há milhares de anos e talvez mais. O primeiro dado de 6 faces remonta a 3000 anos atrás. Eventualmente, o jogo tornou-se mais organizado à medida que se foram estabelecendo os casinos. O primeiro cassino conhecido foi fundado em Veneza no início dos anos 1600.

Casino significa uma pequena casa e a casa era o banqueiro. A sorte estava naturalmente sempre a favor da casa e isso não mudou desde há séculos. Nos últimos 100 anos, os banqueiros ou a Casa têm feito fortunas e, especialmente, nos últimos 25 anos, à medida que a manipulação de mercado foi tomando proporções enormes.

Nos últimos 100 anos, os governos e os banqueiros centrais transformaram os mercados de investimento num casino com alguns jogadores que são sempre os vencedores, e que são principalmente os próprios banqueiros.

Derivados – A casa ganha sempre

Os banqueiros centrais e comerciais criaram o modelo de casino mais perfeito, um modelo em que o banqueiro é sempre o vencedor. Em primeiro lugar, o banqueiro emite o dinheiro com a ajuda de uma infinita alavancagem. Em seguida, ele define as condições – taxas de juros, comissões, prazos. etc. Para melhorar ainda mais as suas possibilidades, o banqueiro também manipula os mercados para que eles estejam sempre a seu favor.

O mercado mais perfeito do ponto de vista dos banqueiros é o mercado de derivados. Este é o maior mercado financeiro do mundo. Consiste principalmente em instrumentos não regulamentados de balcão (OTC). Um derivado é um instrumento que deriva o seu valor a partir do valor de ativos subjacentes, como ações, índices de ações, títulos, câmbios, ouro, prata etc.

Os produtos derivados são o maior gerador de dinheiro do sistema financeiro e tornou muitos banqueiros muito ricos. O sistema está totalmente distorcido contra os compradores dos derivados. Os preços são definidos de modo que o emitente do derivado embolsa proveitos em praticamente todas as vezes. Os preços são sempre definidos para o banco ganhar 100% do prémio e nunca pagar nada. À medida que o vencimento de um derivado se aproxima, o banco fará o máximo para manipular o preço para tornar o derivado sem valor.

É importante compreender que o valor de um derivado é derivado dos ativos subjacentes, mas não há absolutamente nada que garanta um derivado, exceto a qualidade de crédito do emitente.

Ouro a $ 1,4 milhão de dólares por onça para cobrir falhas de derivados

O total de derivados pendentes estão em torno de US $ 1,5 milhão de milhões. O Banco de Pagamentos Internacionais (Bank for International Settlements-BIS) regista um valor de US $ 500 milhões de milhões. Mas esse número não é credível, uma vez que foi ajustado há alguns anos, após compensar uma parte importante da exposição bruta. A exposição bruta dos derivados é de 1070x o ouro do banco central. Portanto, se os bancos centrais precisassem cobrir uma implosão do mercado de derivados com ouro, o preço do ouro aumentaria mais de 1.000 vezes, para US $ 1,4 milhão de dólares. Isto pode não parecer um preço plausível, mas devemo-nos lembrar que o ouro atingiu 100 milhões de milhões de marcos durante a República de Weimar e agora está na Venezuela a 53 milhões de bolívares. (O preço do mercado negro é de 370 milhões de bolívares). À medida que os mercados de crédito globais implodem e a impressão de papel moeda começa a sério, um preço de ouro de US $ 1,4 milhão pode ser muito baixo.

DEUTSCHE BANK – 650X alavancado em derivados

Se olharmos para a exposição em derivados de alguns dos principais bancos, também aqui se mostra uma imagem muito desastrosa:

Com património de 0,15% a 0,5% da exposição total, é improvável que estes bancos sobrevivam à próxima crise.

A exposição mostrada estará provavelmente bem abaixo da exposição real, pois é baseada no cálculo do BIS. O número real é provavelmente duas vezes maior. Ainda assim, mostra o enormíssimo risco a que esses bancos estão expostos. Eles argumentarão, é claro, que essa é a exposição bruta e que a posição líquida é uma fração do valor bruto. Esse argumento é válido num mercado ordenado quando a contraparte paga. Em 2007-9, vimos o que pode acontecer quando a contraparte falha como aconteceu com o Lehman Brothers. O sistema financeiro global foi salvo no último minuto. Mas com a dívida global a duplicar desde então e a multiplicar o risco, da próxima vez que tivermos uma crise global, é muito provável que a contraparte falhe.

DERIVADOS – DEMASIADO GRANDES PARA SALVAR

O risco no mercado de derivados não é reconhecido pelos bancos, sejam bancos centrais ou sejam bancos comerciais.

Na crise financeira de 2007-9, foram os derivados sobre hipotecas que levaram o mundo à beira do abismo. Na próxima vez, também será o mercado de derivativos que derrubará o sistema financeiro. Mas, dessa vez, é improvável que o sistema possa ser salvo. As taxas de juros já estão baixas e a impressão de papel-moeda não terá efeito real.

Como mostra o cubo acima, há muito pouco ouro no mundo para salvar o sistema quando a moeda fiduciária se torna inútil. Ou, para olhar o ouro de uma maneira diferente, o ouro e a prata precisarão de se apreciarem pelo menos mil vezes o seu valor atual e, provavelmente, muito mais, para refletir as perdas no sistema e a degradação do valor do dinheiro.

OURO E PRATA – VALOR INCRÍVEL

O ouro a US $ 1.320 e a prata a US $ 16,50 representam um valor incrível num sistema financeiro que é improvável que sobreviva na sua forma atual em caso de nova crise. Os metais preciosos são a única classe de ativos que manterá o seu poder de compra na próxima crise financeira. Mas é mais provável que o ouro e a prata irão muito além do que apenas manter o valor. As matérias primas estão a terminar um grande ciclo e terão resultados superiores a todas as classes de ativos nos próximos anos. O ouro e prata serão os vencedores entre todas as matérias primas e atingirão níveis que são difíceis de imaginar hoje.

O que é garantido é que o papel-moeda se tornará inútil na próxima crise e que a maioria das classes de ativos em bolha diminuirão de 75 a 95% em termos reais. O ouro é o dinheiro da natureza e, como tal, será o único dinheiro que sobreviverá à crise vindoura, como tem sido sempre assim desde há mais de 5.000 anos.

 

Texto original em  https://goldswitzerland.com/derivatives-a-recipe-for-disaster-systemic-collapse/

Republicado por Gonzalo Raffo Infonews DERIVATIVES — A RECIPE FOR DISASTER & SISTEMIC COLLAPSE / MATTERNHORN ASSET MANAGEMENT

 

O autor: Egon von Greyerz, fundador e sócio gerente de Matterhorn Asset Management (MAM), empresa de investimento fundada em 1999. Dentro da MAM formou, depois de 2007 o departamento de metais, a GoldSwitzerland. Desde os anos 1990s Egon von Greyerz tem estado ativamente envolvido nas atividades de investimento financeiro, nomeadamente fusões e aquisições e consultadoria de aplicação em ativos para fundos familiares privados. MAM é agora a empresa líder mundial de ouro e prata fora do sistema bancário, com quatro cofres-fortes, o maior dos quais nos Alpes suíços, e desenvolve a sua atividade em mais de 52 países.

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