
Meus caros amigos e amigas
Quando um filósofo, Aristóteles, e um poeta, Homero, se encontram com um pintor, Rembrandt, quando este com eles fixa na tela o significado desse encontro e da relação entre eles, o mesmo é dizer, quando a filosofia e a poesia se entrecruzam com a pintura ao mais alto nível, daí só pode sair arte e da mais pura. Por outro lado quanto a esta última, quando esta é vista e transmitida por alguém de grande cultura e rara sensibilidade, só pode sair um texto de magia. Este é, pois, um texto de magia intelectual e por isso o tomo como um texto de Natal e Ano Novo, que é um tempo de magias, de magias desejadas, de magias imaginadas .
Levei tempo a traduzi-lo, a revê-lo mas como não sou perito na língua de Shakespeare tive medo de como tradutor estar a ser um traidor quanto à beleza que deste texto emana e, por isso mesmo, pedi a alguém que me revisse a minha tradução. Eis, pois, o texto final que aqui vos deixo.
Estamos já em época de Natal, época de dedicatórias especiais e, neste caso, aproveito para considerar a publicação deste texto como uma espécie de presente de Natal e de expressão do desejo de um Ano Novo próspero. Faço pois votos de que este seja um Natal de concórdia à escala das nações e à escala mais pequena, a de todas as nossas casas , que seja um Natal e Ano Novo de menos precariedade e de melhores perspetivas de vida. A estes votos, e a escala individual, acrescento um outro, de acordo com o texto que aqui vos mando, e este é o desejo de que todos nós encontremos sempre e em todas as ocasiões difíceis, e não apenas raramente, o caminho para escapar ao dilema abaixo apresentado :
“Parece ser a tragédia da condição humana, que a busca da justiça e do poder destrua o prazer de se ser humano.
Eu mesmo raramente encontrei uma forma de escapar ao dilema, mas encontrei um caminho.
Um caminho que está escondido à vista de todos.”
E Bom Natal e Feliz Ano Novo
Coimbra, 18 de dezembro de 2019
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Um bom amigo meu respondeu-me assim ao ler o texto que vos deixo:
Meu Caro Júlio
Acabo de ler o belíssimo texto de Friedman que nos ofereceste. Só hoje tive vagar para o ler meditando, como merecia. Num ponto discordo do autor, no que toca à poesia, que supõe ser a anarquia e a sensualidade do espírito. Não há verdadeira filosofia sem a poesia. Aristóteles sabia-o. O que um filósofo melhor sabe é onde termina o saber…Aristóteles é o inventor do conceito disso, a contingência. Aí se situa a poesia…que abre caminho ao filósofo e ao cientista. Curiosamente, Friedman termina na poesia (talvez sem dar-se conta) na procura do caminho invisível. (Caim matou Abel, porque apenas se arrogou em governante, sem poesia nem filosofia…).
Um grande abraço. Obrigado. BOM NATAL e que o NOVO ANO decorra com boa filosofia e melhor poesia, para melhor governança.
JM
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A ver o quadro de Rembrandt “Aristóteles a contemplar o busto de Homero”.
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No fim-de-semana passado estive em Nova Iorque, com um raro momento de beleza e ternura.
Eu escolhi visitar uma velha paixão minha, uma ligação que me ensinou muito sobre a minha vida e sobre o que isso me custaria.
Essa velha paixão era uma pintura de Rembrandt, a peça central de uma exposição de mestres holandeses no Metropolitan Museum of Art.
Este quadro é chamado por vários nomes, mas para mim, o seu nome será sempre “Aristóteles a contemplar o busto de Homero”.
É uma pintura sobre filosofia, política e beleza, e sobre o desejo daquilo que ninguém nunca pode ter: todas as três coisas.
Aristóteles está no centro, dominando a pintura.
Veste-se sumptuosamente com roupas de um luxo extraordinário, com um chapéu ambíguo, pouco visível, no topo da cabeça.
Mas o verdadeiro centro da pintura é uma magnífica corrente de ouro que envolve o seu corpo.
É sensual na sua beleza, mas a beleza não pode esconder a sua força.
Aquilo que o rodeia ele controla, e isso rodeia Aristóteles.
A razão pela qual ele está a usar a corrente é, à primeira vista, um mistério; ele é, afinal, um filósofo, um erudito que estudou sob a orientação de Platão.
Tais homens não têm os meios nem o desejo de tais ornamentos.
Então, se o leitor olhar cuidadosamente para a pintura, verá então um pequeno medalhão preso à corrente, e no medalhão está uma imagem de Alexandre o Grande, o homem que conquistou o mundo conhecido até aos pés dos Himalaias e que se colocou ele próprio na eternidade, com cidades com o seu nome espalhadas pelos seus impérios.
Ele usou essas cidades como a base para a fundação do seu império, ligando-as em comércio e em armas.
E no seu curto período de vida, o grego dos contrafortes dos Balcãs redesenhou o mundo.
O mistério começa a resolver-se com esse medalhão, pois Aristóteles era o professor de Alexandre e os professores carregam pelo menos com uma parte ou, às vezes, com tudo aquilo em que os seus alunos se tornam.
Aristóteles estava claramente orgulhoso do seu aluno; caso contrário, porque é que estaria ele vestido de seda e ouro e levaria a imagem do seu aluno tão perto do seu coração?
A sua atitude é de orgulho no quadro de Rembrandt; um homem que ensinou Alexandre como ser grande deve ser grande também.
O ensino de Aristóteles não era da arte da guerra, mas sim da filosofia.
A filosofia ensina sobre as obrigações morais que os homens têm.
Ensina-lhes sobre a justiça, e ensina-lhes quando a justiça requer bondade e quando requer crueldade.
A filosofia ensina sobre a cidade, a polis – ou as nossas nações modernas – e ensina como elas são construídas, como devem ser governadas e como devem evitar a derrota e a escravidão.
Por fim, a filosofia ensina sobre um lugar, sobre a justiça e a injustiça, e ensina ao guerreiro que deve escolher o lugar, e escolher o que é justo.
Para mim, Aristóteles assume-se como um soldado bem condecorado.
A sua mão sobre a anca, a sua postura direita, ele aparece para nós como Alexandre poderia aparecer, como um guerreiro que arriscou muito, desde a sua vida à sua alma, e que emerge com ambas intactas.
Quando Napoleão visitou o grande escritor alemão Goethe, diz-se que Bonaparte exclamou: “O senhor é um homem”.
Napoleão esperava encontrar mais um fraco erudito, um que suponho terá infestado a corte dos Bourbon, proferindo banalidades.
Que um grande escritor, e também um verdadeiro filósofo, mostrasse ser tanto um pensador como um homem de pleno direito tenha deixado completamente espantado Napoleão, talvez o maior guerreiro desde Alexandre, é situação que não me surpreende.
Há uma relação na minha cabeça entre o erudito e a fraqueza, uma vontade de imaginar a justiça, mas não de lutar e de morrer por ela.
Mas Rembrandt entendeu Aristóteles, o filósofo.
A corrente é a corrente da profissão.
É a corrente que um conselheiro importante para um governante pode carregar.
E no final, a filosofia torna-se um conselheiro para o governante.
Um homem que se dedica a questões da justiça e da guerra e a compreender verdadeiramente a sua necessidade e o paradoxo que existe nelas, está inevitavelmente a aconselhar o governante, quer o governante o entenda ou não.
Ele molda o tempo em que vive, travando uma guerra contra o superficial e o egoísmo, e é geralmente perdedor.
Aristóteles foi ganhador.
Ele tinha aperfeiçoado um instrumento de justiça e de guerra, ao contrário de muitos outros filósofos que o mundo já viu, e Alexandre compreendeu-o – segundo Rembrandt, pelo menos – que tinha sido por ele aperfeiçoado.
O leitor pode ver o orgulho com que ele usa a cadeia de ouro. Mas o leitor também pode ver a tristeza.
À direita de Aristóteles, envolto na obscuridade, técnica que Rembrandt dominava, está o busto de Homero, o poeta cego da era heróica da Grécia, sem malícia por parte de ninguém, desviado para a escuridão.
A mão de Aristóteles repousa sobre a cabeça de Homero, suave e quase ternamente. Os seus olhos não estão virados para a frente, como os de um soldado, nem de modo suspeito a olhar em todas as direções, como o faria um político.
A mão de Aristóteles repousa no busto como a de um amante, mas os olhos não estão concentrados. Eles veem Homero, mas veem algo mais, algo que não está lá, mas que desperta a atenção de Aristóteles.
Ele tem uma mão na corrente, outra em Homero, e os seus olhos contêm uma profunda tristeza.
Esqueça que a corrente é de ouro, esqueça que é uma recompensa pela sua grandeza.
É ainda uma corrente que o liga a Alexandre, um laço forjado porque era um filósofo que ensinou um conquistador a conquistar.
Isso é um triunfo – o mais alto triunfo que a filosofia pode alcançar – mas será suficiente para satisfazer a alma da filosofia?
Homero era poeta, e os poetas ouvem e cantam canções.
Ele sabia que a ouvir as músicas das sirenes valia a pena morrer por elas.
Ele escreveu sobre a batalha por Troia como se morrer fosse um pequeno preço a pagar por ter estado lá.
A canção do poeta é a canção de beleza e do desespero e o poeta não faz nenhuma tentativa para justificar qualquer uma das coisas.
Isso faz da poesia o inimigo da filosofia.
A filosofia deve explicar tudo.
A sua necessidade, a sua compulsão, é não deixar nada como o filósofo a encontrou, mas examiná-la, espremendo-a o mais possível e analisando-a por todos os ângulos até que possua a sua alma.
A poesia celebra a simples realidade de ser.
Não pesa o bem e o mal, mas dá graças aos deuses por ambos existirem.
O filósofo orgulha-se do que sabe e orgulha-se da marca que deixou na história.
O poeta é um sensualista.
Ele quer ensinar o sentimento revelando-o em linguagem voltada para a música.
Com isso, o poeta ensina o que é a verdadeira alegria e o que é a verdadeira tristeza.
O filósofo vive pelo rigor, suprimindo sentimentos em nome da verdade e da necessidade.
O poeta vive sensualmente, na mente, na alma e no corpo, e contenta-se em celebrar o que existe, seja vitória ou derrota.
De certa forma, o poeta é um anarquista, sujeito às suas tropas apenas quando escolhe, apaixonado pelo que vê e de quem o escuta.
O amante pode ser torcido e depravado, mas isso simplesmente torna o seu amante mais importante na canção.
Aristóteles fica preso entre o poder do Estado, o rigor da filosofia e a volúpia do poeta.
Aristóteles escolheu ser o adversário do poeta, e alcançou tudo o que qualquer homem razoável poderia sonhar.
Mas o preço que ele pagou por ambos foi a gestão rigorosa de todos os seus sentimentos, uma análise constante de porque é que o mundo é como é e porque é que os governantes governam como governam.
Homero nunca se importou com qualquer uma destas duas coisas.
Ele aceitou o mundo como ele era, e queria captar a traição, a bravura, a banalidade e o encantamento.
Ele nunca explicou porque é que a música das sereias era tão sedutora.
Ele simplesmente contentou-se em falar de mulheres que geram impulsos que levariam os homens a caminhar conscientemente para a sua própria morte.
Aristóteles teria dissecado tudo isso.
Homero poderia muito bem ter morrido simplesmente morrendo a ouvir essa canção.
A tensão está entre sentir a vida, compreender a vida e dominar a vida.
Aristóteles finalmente escolheu as duas últimas.
Homero escolheu a primeira.
Rembrandt retrata Aristóteles, talvez no momento em que ele percebeu o que ganhou e o que perdeu, ansiando pela vida do poeta.
Há um sentimento em todos nós que somos humanos, quando a tensão entre estar em algum lugar e apreciá-lo pelo que ele é, compete com a mente vagando para outras coisas.
Homero era a sereia, pedindo-nos que parássemos de pensar e nos entregássemos ao seu canto.
E Aristóteles era o filósofo e conselheiro do grande que percebeu que nunca o tinha feito e que agora era tarde demais para fazer mais do que imaginar essa pureza.
Rembrandt deve ter entendido essa agonia, ou ele não poderia ter pintado o quadro.
A filosofia, a arte política e a poesia estão longe de ser os únicos momentos, mas são momentos extremos
O quadro é um monumento às nossas vidas, ao preço que pagamos pelo Éden, onde aprendemos o bem e o mal, e com o qual Caim poderia aprender a matar Abel.
Parece ser a tragédia da condição humana, que a busca da justiça e do poder destrua o prazer de se ser humano
Eu mesmo raramente encontrei uma forma de escapar ao dilema, mas encontrei um caminho.
Um caminho que está escondido à vista de todos.
