O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 12 – por Raúl Iturra

 

 

A autora não se limita a escrever estes estudos. No seu texto de 1988: Der gemiedene Schlüssel , traduzido para Castelhano como: A Chave perdida analisa a vida e obra de Picasso e do comediante Buster Keaton, entre outros. Seres humanos que sofreram traumas na sua infância, mas que tiveram o sentido de resiliência suficiente para converter os traumas em obras de arte, veja-se, a título de exemplo, o caso de Buster Keaton divertindo o auditório com essa cara triste, que ainda hoje se vê nos filmes, ele era capaz de fazer “palhaçadas” ou cenas burlescas. Alice Miller, para a capa do seu livro, procurou desenhos, encontrando no seu espólio uma gravura de uma pintura a óleo de Rembrandt, muito conveniente para os objectivos hipotéticos do texto que publicava.

 

Mas, mais do que ilustração de capa do livro, ela analisou as ideias transmitidas pelo desenho, como veremos mais à frente. Antes, penso que devemos perguntar: porquê Rembrandt? É evidente que a gravura do retrato a óleo era adequada para o que ela queria provar, o abuso infantil. A obra de arte esconde a mentira do abuso na infância e dá o prazer infantil, daqueles que não o tiveram, a outros. No entanto, em minha opinião, e tendo em conta o que Alice Miller me ensina através dos seus textos e das cartas que trocamos pela Internet, o próprio artista era um problema infantil. Teve uma infância desgraçada, atribulada e pobre. A inexistência de comida para todos os membros da família, eram nove ou dez irmãos, filhos de pais sem entradas certas, como refiro na nota de rodapé , levou-o a abandonar a casa dos pais.

 

O interessante da história está nas primeiras linhas, essa sintética forma de falar de um artista, as abordagens remetem-nos meramente para o sucesso na vida e nunca para os seus antecedentes: sem pais nem família! Para contextualizar o que a analista pensou, refiro as ideias redigidas pela editora: “Alice Miller percorre um longo caminho via o conhecimento das áreas negligenciadas da alma humana. No seu A Chave Perdida, talvez mais do que em qualquer das suas outras obras, Miller tenta desentranhar as cortinas de fumo usadas por nós para silenciar as nossas verdades mais dolorosas, denominadas sempre trauma” , mas que eu insisto em chamar uma verdade na história das nossas vidas que fere as nossas emoções. Há uma diferença entre as duas palavras.

 

Para isso usa, a título de exemplo, algumas chaves básicas das nossas angústias recorrendo à análise da vida de personalidades como Nietzsche, Picasso ou Buster Keaton, essas portas das suas próprias moradas interiores, fechadas desde as suas infâncias. Donde, na sua tentativa de recuperar as chaves perdidas, seja possível permitir entender o estado de ânimo revelador de sentimentos obsessivos e vivências do mundo totalmente diferentes . O meu comentário é que Alice Miller foi capaz de explicar o terror da criança, matéria também abordada por mim, nas pesquisas efectuadas ao longo dos quase quarenta anos da minha vida, em vários sítios do mundo. Aliás, o texto que comento está baseado na análise de uma pintura a óleo de Rembrandt

 

NOTAS:

 

Publicado pela Editora Suhrkamp Verlag, Franfurkt am Main, traduzido para inglês, em 1989, como: The untouched key, Virago Press, Londres e para castelhano, em 1991, por Tusquets, Barcelona, com o título: La llave perdida. Este livro faz parte de uma análise psico-biográfica da vida de Nietzsche, Picasso, Kollwitz e Buster Keaton. No seu livro mais recente, publicado, em alemão, em 2004 e, em inglês, em 2005: The Body Never Lies. The Lingering Effects of Cruel Parenting, edição de WW Norton and Company Incorporated, Londres, inclui análises semelhantes sobre as vidas de Dostoyevsky, Chekhov, Schiller, Rimbaud, Mishima, Proust, e James Joyce. A própria autora comenta o livro, em: http://alice-miller.com/articles_en.php?lang=en&nid=57&grp=11, editado em castelhano como: El cuerpo nunca miente, Tusquets, Barcelona, onde continua a análise do sofrimento infantil. O comentário diz: “Honra teu pai e a tua mãe, para teres uma longa vida na terra que o Senhor teu Deus te dará” (Êxodo, 20,12), Catecismo da Igreja Católica, 1991, versão portuguesa, página 471, artigo 4 do Capítulo Segundo, em suporte de papel, também disponível: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/m/m-4.html. Quem quiser obedecer, apesar de ter sido desprezado ou maltratado pelos seus pais, só o poderá fazer, se souber reprimir as suas verdadeiras emoções. No entanto, o corpo rebela-se numerosas vezes com doenças graves, motivadas pela repressão dos sentimentos feridos e pela falta de reconhecimento dos traumas infantis não superados. Nesta nova obra, Miller explica-nos, por meio de vários exemplos, as mensagens enviadas pelas doenças somáticas para as nossas emoções psíquicas. Ao narrar e analisar a história de vida de Nietzsche, Alice Miller define-o como uma pessoa que nunca teve a sorte de partilhar a vida com uma família que o quisesse amar. A sua criação filosófica é a metáfora de um impulso inconsciente de bater na sua infiel família que o tinha oprimido emotivamente por meio de uma tradição teológica. Pensa que a análise filosófica efectuada por Nietzsche é fraca, porque autor é incapaz de estabelecer contacto emotivo consigo próprio, esse pequeno abusado que morava dentro dele. O problema de Nietzsche foi o de ser severamente punido por um pai que enlouquecera quando ele era ainda criança. Miller não apoia a teoria genética (genetic) da loucura. Interpreta a depressão psicótica de Nietszche como resultado da forma prussiana de criar a infância. Miller, Alice, 1991, em suporte de papel: La llave perdida, editado por Tusquets, Barcelona, 176 páginas. Comentário já referido e traduzido, mas quem deseje ler novamente o texto, pode fazê-lo em http://www.agapea.com/libros/La-llave-perdida-isbn-8472233901-i.htm. Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 15 de julho de 1606 (tradicionalmente) mas provavelmente em 1607 em Leiden, Países Baixos. Fontes conflituantes afirmam que a sua família era formada por 7, 9, ou 10 filhos. O seu pai era moleiro, e a sua mãe, filha de um padeiro. Quando criança teve aulas de latim e foi matriculado na Universidade de Leiden, embora desde cedo demonstrasse inclinação para a pintura. Pouco depois, tornou-se aprendiz do pintor histórico de Leiden, Jacob van Swanenburgh. Após, um breve, mas importante aprendizado com o famoso pintor Pieter Lastman em Amsterdan, Rembrandt abriu um estúdio em Leiden, dividindo-o com o seu colega Jan Lievens. Em 1627, Rembrandt passou a aceitar alunos, entre os quais, Gerrit Dou. Informação retirada de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rembrandt. Do Grego trauma, ferimento s. m, Med., traumatismo; contusão; lesão local devido a um agente exterior accionado por uma força; Psic., choque emocional violento que modifica a personalidade de um sujeito, sensibilizando-a em relação a emoções da mesma natureza e podendo desencadear problemas psíquicos. É a interpretação da ciência da Psicologia que mais me interessa, ao referir a modificação de personalidade que Alice Miller, Daniel Sampaio e outros como eu, estudamos para entender a mente produtiva do adulto, essa hermenêutica, que, em minha opinião, não surge apenas dos estudos. Qual é o motivo ou a inclinação que orienta um adulto para um determinado tipo de análise da vida social? Como, no meu caso, o interesse pelo luteranismo de Marx, materialista histórico na sua análise, ou o ateísmo de Durkheim e Mauss, que, no entanto, escreveram sobre religião, ritos, sacrifícios e sentimentos de fé, como o próprio Marx dos anos 48 do Século XIX. Resultado, talvez, dessa ideia que eu denomino mente cultural, orientada pela religião como lógica da cultura, definida por mim em textos antes citados, especialmente no de 24 páginas: “ A religião é a lógica da cultura”, publicado no livro, coordenado por Donizete Rodrigues, 2004, Afrontamento, intitulado: Em Nome de Deus. A religião na sociedade contemporânea, 183 páginas. A palavra Verdade, também tem outro sentido: pode ser uma realidade que acontece apenas para nós, causada pelo nosso contexto histórico material, ou pela sociedade toda que observa mudanças na sua mente cultural, mas não consegue entender, definida assim: “do Lat. Veritate s. f., qualidade do que é verdadeiro; qualidade pela qual as coisas se apresentam tal como são; realidade; coisa certa e verdadeira; boa-fé; sinceridade; princípio exacto; representação fiel; carácter próprio; conformidade do que se diz com o que é. loc. adv., em -: vd. na verdade; na –: efectivamente; seguramente; realmente; o m. q. em verdade; Filos., – formal: verdade que não implica contradição, que consiste num acordo de pensamento consigo próprio; verdade que assegura a lógica formal; – material: verdade que se traduz na aliança do pensamento ou da afirmação com um dado factual, o qual pode ser imaterial (psíquico, etc.) ou material”. Para esta parte do texto, a definição filosófica da palavra verdade, de entre outras acepções, a que me parece mais adequada para entender o saber da criança, é o conceito

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