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AMÉRICA LATINA – COLÔMBIA – COVID-19 – II – NA AMÉRICA LATINA, A PANDEMIA AMEAÇA A IGUALDADE COMO NUNCA ACONTECEU ATÉ AGORA, por JULIE TURKEWITZ e SOFIA VILLAMIL

 

In Latin America, the pandemic threatens equality like never defore, por Julie Turkewitz e Sofía Villamil

The New York Times, 13 de Julho de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Em Medellín, que se considera o Silicon Valley lá   da região, têm-se registado perdas de emprego e fome generalizadas / Fotografias de Federico Rios

 

Durante as duas últimas décadas, a desigualdade na América Latina tinha caído ao ponto mais baixo dos seus registos  históricos. A pandemia ameaça inverter essa situação. Viajámos 1.000 milhas através da Colômbia para documentar este momento crítico.

 

BOGOTÁ, Colômbia – Sandra Abello cresceu pobre, deixou a escola aos 11 anos e passou a sua adolescência a esfregar o chão como empregada doméstica. Mas  este ano, algo de incrível lhe aconteceu.

A Sra. Abello, agora com 39 anos, tinha finalmente uma casa num bairro decente. Uma das suas filhas, Karol, estava prestes a terminar o ensino secundário. Outra, Nicol, estava a fazer 15 anos, e estavam a planear uma festa com um grande vestido e muitos convidados. Estavam a poupar para uma máquina de lavar roupa. A Sra. Abello estava orgulhosa de tudo o que tinha conseguido.

Depois, veio  o golpe pandémico, e a Sra. Abello perdeu o seu trabalho de limpeza. Em Maio, ela tinha sido despejada, tendo sido forçada a mudar os seus filhos para um barracão de lata num assentamento ilegal no alto da cidade. À noite, um frio agreste empurra-a para dentro. Uma vida inteira de esforço tinha-se  evaporado em questão de semanas.

A filha mais velha da Sra. Abello, Karol, uma aspirante a enfermeira, chamou-lhe “a grande regressão”.

Não há muito tempo atrás, a Colômbia – e a América Latina em geral – estavam no meio de uma transformação histórica: O flagelo da desigualdade estava a reduzir-se como nunca antes. Nos últimos 20 anos, milhões de famílias tinham saltado  para fora da pobreza numa das regiões de maior  desigualdade do mundo. O fosso entre ricos e pobres na América Latina caiu ao seu ponto mais baixo de sempre.

Agora, a pandemia ameaça inverter esses ganhos como nunca se verificou na história recente, dizem os economistas,  o que poderia modificar  a política e sociedades inteiras para os próximos anos.

Policia a expulsar residentes de um acampamento ilegal em Bogotá.

 

Jean Carlos Mosquera e Diana Vargas perderam os seus empregos quando a Colômbia entrou em quarentena. A Sra. Vargas, uma porteira da pré-escola, disse que o seu objetivo tinha sido “dar aos meus filhos uma vida melhor, a vida melhor que nunca tivemos”.

Nós – dois repórteres e um fotógrafo do The New York Times – queríamos compreender o que isto significava para o futuro da região, e em particular para as famílias que tinham sido tão centrais naquela marcha em direção à igualdade económica.

Assim, começámos a conduzir, carregando o carro com máscaras e viajando mais de 1.000 milhas desde a capital da Colômbia até à fronteira nordeste e de volta, entrevistando dezenas de pessoas sobre a forma como a pandemia estava a mudar o curso das suas vidas.

À medida que avançávamos, deixando os arranha-céus rodeados de montanhas de Bogotá pelas regiões tropicais, tornou-se claro que os motores da mobilidade ascendente estavam a falhar, engasgados por uma paragem económica que começou em Março e caiu mais duramente sobre os trabalhadores pobres e sobre os vulneráveis da classe média.

 

As pequenas empresas tinham fechado definitivamente. As universidades estavam a sofrer de uma hemorragia de  estudantes. As escolas que tinham transformado os filhos dos trabalhadores da construção civil em engenheiros estavam quase em colapso, incapazes de pagar aos professores. Os agricultores estavam a queimar as suas colheitas, arruinadas por mercados perturbados.

Os adolescentes tinham recorrido à venda de drogas para alimentar os seus irmãos. Jovens mulheres e raparigas tinham sido empurradas para a prostituição para pagar as contas. As mães e os pais começaram a racionar medicamentos para os seus filhos, sem saber quando teriam dinheiro para mais. Pessoas ricas recuaram para casas no campo, enquanto outras famílias vendiam os seus telemóveis para comprar o jantar.

“O meu sonho nunca foi recuar”, disse David Aguirre, 32 anos, que tinha deixado de ser  um guarda-costas de baixo nível para se tornar no chefe da sua própria quinta a cultivar morangos.

Ele tinha gasto as suas poupanças  de toda uma vida no seu negócio, abrindo apenas alguns meses antes do ataque da pandemia. Agora não estava claro se a quinta iria sobreviver. Quando nos conhecemos, ele tinha acabado de despedir os seus quatro trabalhadores e destruiu  um quarto da sua colheita – incapaz de encontrar um comprador e de pagar aos seus empregados para a colherem. As bagas estavam secas e rachadas à nossa volta, envenenadas com Roundup, e ele preocupava-se em voltar ao perigoso trabalho de proteger os ricos.

A colheita de morangos de David Aguirre a secar, queimada, em El Rosal.
Bogotá

Mesmo no primeiro dia da nossa viagem, pudemos ver a distância entre ricos e pobres a alargar-se.

Conduzimos para as colinas acima da capital, para um acampamento de barracões construídos apressadamente, que há muito constituía um último recurso para famílias desesperadas.

Quando o confinamento  começou, a povoação aumentou  rapidamente com pessoas como a Sra. Abello que se tinham mudado para lá  – empregados de padaria, porteiros de jardim-de-infância – mas perderam os seus empregos e apartamentos. A pandemia não tinha parado apenas a sua progressão. Transformou-os, de repente, em moradores de bairros de lata, ilegais.

Nesse dia, a polícia chegou com uma equipa de agentes encarregados das demolições, dizendo que a ocupação do espaço era ilegal e demasiado precária para se viver, mesmo que a demolição exacerbasse a dor da pandemia.

As paredes da barraca da Sra. Abello caíram com um ruído aterrador.

Pela segunda vez na breve vida da crise, ela e a sua família não tinham para onde ir.

Sandra Abello dentro do seu barracão quando trabalhadores sob ordem  policial o deitaram abaixo.

 

 

Medellín

Oito horas fora de Bogotá, a escola apareceu como um santuário numa colina, rodeada por uma zona de  relvado  e um portão.

A instituição, Mi Segundo Hogar, tinha desempenhado um papel de mudança de vida para famílias de meios modestos ao longo dos anos, oferecendo uma educação de baixo custo e de alta qualidade. Produzia hospedeiras e farmacêuticos em famílias onde os pais tinham andado descalços até à idade de irem à escola .

Agora, a escola estava vazia, com as aulas presenciais canceladas em toda a América Latina. Os pais desempregados tinham deixado de pagar propinas, por vezes pedindo desculpa profusamente através de mensagens de texto, e a escola dificilmente podia pagar aos instrutores.

No pátio, a diretora, Lina Castrillón, disse que Mi Segundo Hogar estava em risco de fechar. Tecnicamente, as aulas tinham mudado para online, mas apenas uma fração dos alunos conseguia  ligar-se directamente. Muitos não tinham computadores, ou tentavam ligar-se através do telemóvel, e os dados eram caros.

Não era apenas porque os seus alunos iam recuar na sua   aprendizagem, disse a Sra. Castrillón. Ela temia que esta interrupção vá  reformular fundamentalmente as suas vidas, levando a desistências e salários mais baixos, atrofiando toda uma geração. Em casa, desligados da escola, disse ela, “eles estão a perder a visão” de um futuro melhor.

O auditório de Mi Segundo Hogar. A escola, uma porta de entrada para uma vida melhor para muitas crianças pobres, enfrenta um possível encerramento.

Durante anos, a Colômbia foi um exemplo gritante do fosso de riqueza da região – e das lutas para o reduzir.

A longa guerra de gerações da nação com os rebeldes nasceu da raiva por causa da desigualdade. As divisões de classe são de tal forma terríveis  na sociedade que os mais pobres se referem aos mais ricos como “a sua misericórdia” em conversa casual, uma relíquia do colonialismo. As cidades estão divididas em “estratos”, que significam a própria classe social.

Os ricos vivem no  “estrato seis”. Os pobres vivem no “estrato um”. Os que vivem em povoados informais – que legalmente não existem – vivem no que as pessoas chamam coloquialmente de “estrato zero”.

Mas a vida tinha vindo a mudar, consideravelmente. A Colômbia, um dos países mais desiguais de uma região extremamente desigual, reduziu a sua taxa de pobreza quase para metade, para 27%, de 2002 a 2018. O país assinou um acordo de paz histórico com o principal grupo rebelde, prometendo ajudar milhares nas margens económica e social a juntarem-se ao sucesso da nação.

O fosso entre ricos e pobres era ainda teimosamente grande em comparação com grande parte do mundo. Nos anos 90, os 10% mais ricos da América Latina e das Caraíbas ganharam cerca de 50 vezes mais do que os 10% mais pobres, segundo Matías Busso, um economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Quando chegou a pandemia, os mais ricos ganhavam, em média, 22 vezes mais do que ganhavam os mais pobres. Assim, embora a desigualdade se tenha agarrado à região, tinha caído para um nível recorde, disse ele.

Agora, a pandemia poderá  levar  a que a  pobreza e a desigualdade regresse e aos valores da  viragem do século XXI na Colômbia, segundo uma análise feita por professores da Universidad de los Andes. “Um revés de duas décadas”, foi assim que lhes chamaram.

Os economistas estão a prever regressões semelhantes na região, com o Banco Mundial a advertir que mais de 50 milhões de pessoas na América Latina e nas Caraíbas poderão cair na pobreza só este ano.

Os economistas estão a prever regressões semelhantes na região, com o Banco Mundial a advertir que mais de 50 milhões de pessoas na América Latina e Caraíbas poderão cair na pobreza só este ano.

“A crise atual é provavelmente a maior ameaça à desigualdade que temos vivido “, disse o Sr. Busso.

Em Medellín, vimos centenas de mães solteiras fazerem fila fora de um banco alimentar que se expandiu significativamente quando a crise pandémica começou. Uma mulher, María Camila Salazar, 22 anos, disse que a sua mãe, María Eugenia Carvalho, 53 anos, se tinha tornado tão perigosamente subnutrida que os seus ombros finos agora se desprendiam da sua estrutura.

“Nós vamos para a cama sem comer, sem dar nada aos nossos filhos”, disse ela.

María Eugenia Carvalho, ao centro, em casa, em Medellín. A Sra. Carvalho recolhe lixo para reciclagem como forma de vida, mas os seus compradores fecharam no meio da  pandemia.

 

Antes da pandemia, Carolina Urda, 31 anos, que dirige o banco alimentar, tinha  vindo a  trabalhar para expandir um negócio de costura e lavagem de roupas destinado a mudar a vida de  mulheres em empregos instáveis – amas, apanhadores de lixo para reciclagem  – para algo mais seguro.

As mulheres agora não tinham nenhum emprego, e a Sra. Urda passava horas todas as semanas a procurar comida para alimentar as suas famílias.

“Mas não queremos mais comida”, disse ela, sacudindo dois punhos em frustração. “Queremos mulheres de negócios autónomas, autossuficientes e com poder.”

Roraima Daversa, à esquerda, e o seu filho Amado, com uma máscara, caminharam cerca de 250 milhas de Bogotá a Bucaramanga, tentando regressar a casa na Venezuela.

 

Bucaramanga

Talvez a imagem mais gritante do recuo da América Latina tenha sido a autoestrada.

Tínhamos esperado encontrar rotas vazias. Em vez disso, milha após milha, encontrámos procissões de migrantes venezuelanos a puxar malas em direção a casa.

Eles tinham chegado à Colômbia apenas alguns anos ou mesmo meses antes, parte de um êxodo de migrantes que escapavam ao colapso político e económico da Venezuela. Muitos esperavam aprender uma profissão ou terminar um curso na Colômbia, ou simplesmente ganhar dinheiro suficiente para ajudar as suas famílias a regressar a casa.

Agora, devido à pandemia, as pessoas que conhecemos tinham perdido qualquer pequena base de apoio  da sua vida  na Colômbia – um emprego, um apartamento – e estavam a migrar em sentido contrário, regressando a uma nação onde tinham quase a certeza de que o desastre os aguardava. A maioria disse que tinha família na Venezuela que os podia ajudar, enquanto que na Colômbia já não tinham nada.

“A esperança acabou”, disse um homem, Rafael Decena, 50 anos.

Annahe Alvarez, à direita, e a sua filha Anneris Rey dormiram durante uma semana num terminal de trânsito em Medellín, na esperança de apanharem um autocarro de regresso à Venezuela.
Famílias venezuelanas à espera de um autocarro para a fronteira. Tinham caminhado durante semanas, muitas vezes com crianças às costas.

 

Desde o início da pandemia, mais de 80.000 venezuelanos já voltaram ao  seu país, de acordo com as autoridades colombianas.

Em Bucaramanga, uma cidade de dimensão  média na Colômbia, centenas de famílias de migrantes acamparam à porta de um parque para descansar. Uma noite, chegou um desfile de autocarros, uma frota enviada pelo governo colombiano para levar as pessoas nas últimas 120 milhas até à fronteira.

Roraima Daversa, 26 anos, e o seu filho Amado, 9, subiram a bordo, com os pés inchados e cheios de bolhas .

Tinham passado noite após noite a dormir na berma da estrada. Quando a Sra. Daversa se sentou, as lágrimas começaram a rolar-lhe pela cara abaixo. Ela sentiu alívio. Ela e Amado já não tinham de andar. “Todos os dias perguntava: ‘Quanto mais tempo?”.

Mas também havia tristeza.

A Sra. Daversa, que tinha estudado gestão ambiental na Venezuela, esperava poupar dinheiro em Bogotá e regressar ao seu país para abrir um negócio. Agora, ela estava de regresso, pior do que quando partiu.

Em Cúcuta, o confinamento  económico empurrou mulheres e raparigas para parques locais onde os homens lhes pagam por sexo.

Cúcuta

Em Cúcuta, uma cidade pressionada contra a fronteira venezuelana, uma jovem de 17 anos de idade, de t-shirt cor de arando e calções de ganga, puxando uma bolsa com um laço brilhante, balançando nervosamente um calcanhar. Alguns homens aproximaram-se. Uma fita de carros passou apitando.

Quando o confinamento  começou, o seu pai perdeu o emprego na construção e o frigorífico esvaziou-se. Empurrada para o desespero, tomou a terrível decisão de se dirigir a um parque local, onde os homens começaram a pagar-lhe por sexo, 6 dólares por encontro. Ela nem sequer era a mais nova que lá estava para o fazer.

Alguém tinha de levar dinheiro para casa, disse ela, “e  virou-se para mim”.

Antes da crise, ela tinha vendido pequenos artigos – cigarros, doces – na rua. Mas sempre sonhara em voltar à escola, em tornar-se uma criminóloga como aquelas mulheres poderosas da televisão. Ter sexo com estranhos é “horrível”, disse ela, e quando tem de o fazer, imagina-se numa sala de aula, com os seus amigos, para se distrair.

Durante as últimas duas décadas, a frequência escolar e o crescente acesso ao controlo da natalidade desempenharam um papel crucial na redução do fosso de riqueza do país, permitindo que milhões de mulheres estudassem e trabalhassem, quando tantas das suas mães tinham sido obrigadas a ficar em casa.

Mas quando a pandemia atingiu a Colômbia, o número de mulheres forçadas à prostituição aumentou em Cúcuta, disse Alejandra Vera, a diretora de um grupo de defesa local. O mesmo aconteceu com o número de gravidezes indesejadas, uma vez que as restrições de viagem e a perda de emprego dificultaram a obtenção de preservativos e outros tipos de contracepção.

Uma manhã, a criança de 17 anos, cujo nome está a ser retido por ser menor, acordou antes do amanhecer face aos apelos do seu filho, de seis meses de idade, que queria passear pelo chão e brincar.

A criança de 17 anos e o seu filho, antes de partir para o parque.
A jovem mulher que se dirige para o trabalho.

Ela fez café e deixou o seu filho com o pai numa casa ao fundo da rua. A sua mãe, 54 anos, viu-a a sair do pátio deles. Ela sabia o que a sua filha estava a fazer. É difícil para ela falar sobre isso.

“Eu não critico nem condeno”, disse a mãe.

“Agora não há trabalho”, acrescentou ela, quebrando-se. “Isto não é viver “.

 

Bogotá

De volta a Bogotá, a Sra. Abello, a mãe que tinha sido despejada duas vezes no meio da pandemia, tinha-se mudado para casa de uma amiga, ambas as famílias amontoadas juntas.

Karol, a aspirante a enfermeira, estava a dar o seu melhor para acompanhar as aulas, mas não conseguia entrar no site da escola sem a Internet, por isso uma amiga estava a descarregar os trabalhos e a enviar-lhe mensagens de texto. Depois completou-as à mão, tirou fotografias e enviou-lhe mensagens de texto de volta. Mas foi difícil, e ela estava preocupada por estar a ficar para trás.

Nicol, a filha mais nova, fez 15 anos. Tiveram uma pequena celebração, apenas a família, e ela usava o velho vestido de Karol, preto, com tule.

À medida que a quarentena se afrouxava, a Sra. Abello voltou finalmente ao seu trabalho de limpeza de uma padaria. Mas os seus antigos patrões nunca lhe pediram para voltar, e ela ganha agora cerca de metade do que ganhava antes. Não está  claro quando poderiam mudar-se para a sua própria casa.

“Isto tem sido difícil para a minha mãe”, disse Karol. “Assim que isto acabar, espero que ela receba novo trabalho e que possamos retomar  às nossas velhas vidas”.

“Bem”, disse ela, “se Deus quiser”.

 

Jenny Carolina González contributed reporting from Bogotá.

 

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