CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXV – ÍNDIOS E 200 MILHÕES DE PESSOAS POBRES EM RISCO NA AMÉRICA LATINA, por CLAUDIA FONTI

Indios e 200 milioni di poveri a rischio in America latina, por Claudia Fanti

Il Manifesto, 21 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Emergência no horizonte. Da Guatemala ao Brasil, do Peru ao Chile e à Bolívia. E depois o Haiti… Sistemas de saúde esgotados, já saturados pela epidemia de dengue, face ao teste  Covid-19

 

                              Um policia e um vendedor ambulante numa rua de Lima © Ap

Com um número de casos de contágio Covid-19 ainda bastante baixo (cerca de 2.400, com 23 mortes no total), mas a crescer  rapidamente (mais 1678% numa semana), a América Latina corre o risco de uma catástrofe. Já comprovada, do ponto de vista sanitário, por uma das mais graves epidemias de dengue dos últimos anos, com mais de 3 milhões de casos e mais de 1.500 mortes (no ano corrente já há mais de 600.000 infetados e 156 vítimas), a região caminha lentamente para a paralisia económica, embora a quarentena obrigatória nacional ainda não tenha sido decretada em todo o lado, pelo menos com a mesma intensidade.

As consequências do isolamento  de milhões de trabalhadores informais – mais de 50% da população ativa, aumentando para cerca de 80% em países como Honduras, Guatemala, Nicarágua e Bolívia – são, no entanto, muito graves. Porque, se não forem tomadas medidas de apoio significativas, muito mais fortes do que as que foram postas em prática até agora pelos governos, os cerca de 200 milhões de habitantes que vivem abaixo do limiar da pobreza e que certamente não têm acesso ao trabalho inteligente ou não podem fazer compras na Internet, continuarão a preferir expor-se ao risco de contágio do que ficar em casa e passar fome.

E embora seja verdade que os governos podem sempre usar a força para manter as pessoas nas  suas casas, a presença da polícia e do exército nas ruas, numa região onde os protestos sociais já  têm vindo a ocorrer  há muito tempo, corre o risco de exacerbar ainda mais as tensões. Tanto mais que, para alguns governos, a crise atual já está a fornecer  um pretexto excecional para recuperar o controle social.

                                                 Numa mercearia em  Santiago do Chile  (Ap)

Não é coincidência que o plebiscito sobre a nova Constituição já tenha sido adiado no Chile, que já não será  realizado em 26 de abril, mas em 25 de outubro, enquanto a eleição dos deputados  foi adiada para 4 de abril de 2021. E o mesmo destino aguarda, com toda a probabilidade, as eleições gerais cruciais na Bolívia, marcadas para 3 de Maio, em benefício, naturalmente, do governo golpista de Jeanine Añez, de cujo carácter alegadamente “estritamente transitório” já não restam quaisquer vestígios.

Os territórios indígenas são também motivo de grande preocupação, com a sua falta crónica de infraestruturas sanitárias, elevados níveis de subnutrição e acesso limitado a água potável.

Embora já seja um problema para muitas famílias indígenas rurais na Guatemala, Peru, México e outros países assegurar uma dieta decente, é até impraticável para eles abastecerem-se de  máscaras e desinfetantes, ou mesmo, em muitos casos, lavarem as mãos com água e sabão. Também não é um bom sinal que no Peru se tenha levado dias para traduzir para os idiomas originais as instruções para a prevenção do contágio.

Aliás, também muito crítica é a  situação dos povos indígenas do Brasil, onde o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) até recomendou aos seus missionários que evitassem visitas às aldeias e cancelassem qualquer reunião, justamente para não expor a possíveis contágios  comunidades extremamente vulneráveis, ainda mais com os cortes drásticos à Secretaria Especial de Saúde Indígena decididos pelo governo. Mas, enquanto isso, já há notícias de um caso suspeito de pataxó indígena na aldeia de Coroa Vermelha, no sul da Bahia.

 

                                       Caixas de rum no aeroporto de Port au Prince (Ap)

ENTRE AS SITUAÇÕES potencialmente mais explosivas há também a do Haiti, onde no dia 19 de março foram registados os dois primeiros casos de positividade no Covid-19. No  meio de uma crise política, num total vazio institucional, sem recursos e com um sistema de saúde praticamente inexistente, a população haitiana está de facto abandonada a si mesma. Tanto que ontem muitas crianças apareceram na escola, apesar da suspensão das aulas decidida no dia anterior pelo governo de Jovenel Moïse, porque os seus pais não tinham sido informados.

O Haiti também não pode contar com a ajuda da China, que é essencial para outros países da região, já que o governo optou por manter relações diplomáticas com Taiwan, em detrimento das com Pequim.

 

Fonte: Claudia Fanti, Il Manifesto, Indios e 200 milioni di poveri a rischio in America latina, . Texto disponível em: https://ilmanifesto.it/indios-e-200-milioni-di-poveri-a-rischio-in-america-latina

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