A notícia chegou. A tristeza instalou-se. Revi-te em vários momentos da nossa vida, em várias épocas. Fui buscar livros teus, folheei-os, reli poemas. Fui ao blog repescar artigos teus. Esbocei na mente uma linha de raciocínio do que queria escrever. Mas afinal já tanto tinha dito, escrito e partilhado, a propósito do lançamento de dois dos teus livros, na Feira do Livro, a 13 de julho de 2019. A última vez que te vi, a única vez em que fomos fotografados juntos. Disse então:
Ah, grande Carlos, meu amigo! Que belo fim de tarde, a de ontem. Sei que não gostas disto, mas vai ter mesmo que ser. E todos os amigos presentes subscreverão. E os ausentes. E os que te conhecem. E os que conhecem a tua obra.
A ideia era apresentar dois dos teus livros, mas acabou por se falar de tudo… Na Mesa dois dos teus editores – António Batista Lopes, da Âncora, e Fernando Mão de Ferro, da Colibri. Do blog “A Viagem dos Argonautas”, Manuel Simões, João Machado e Fernando Pereira Marques.
Na assistência, outros amigos e companheiros da “Viagem”: Carlos Leça da Veiga, Rui Oliveira, Pedro Godinho, Pezarat Correia, Manuela Denegrine, Luís Rocha, Dorindo Carvalho.
De todos eles, e de todos nós, toda a gratidão pelo que nos tens dado: com os teus escritos (poesia, romance ou contos), com a tua atividade editorial sempre a pensar na qualidade dos livros e na cultura do país. E pela tua atitude cívica, na luta pela democracia, ousando enfrentar o antigo regime e sofrendo na pele as suas consequências (que podemos vislumbrar em “Talvez um Grito”). Como editor, foi realçada a ousadia das publicações das canções de Zeca Afonso, os Poemas sobre Hiroxima e Vietname. E o belo “Poema Abril”.
Chamemos um pouco de um dos livros em análise, “O atlas iluminado”: “ Este é o romance do velho debuxante que, cansado de descrever mapas para navegantes, decidiu desenhar um para si. É a narração, feita por ele mesmo, da viagem que empreendeu em busca da utopia”.
Carlos, desenhastes mapas, outros deles se serviram e outros neles se poderão orientar. Quer fosse ou não essa a intenção, a verdade é que ficaram as suas pegadas.
No livro “A Vida é um Desporto Violento: subsídios para uma autobiografia verdadeiramente falsa”, onde fica sempre a dúvida do que é ou não biográfico, no fim falas “a sério” e da rua onde nasceste. E onde muito perto, também, nasceram dois homens que marcaram a História: Fernando de Bulhões, mais conhecido por “Santo António” e Pedro Julião, mais conhecido por Papa João XXI. “Adoro a minha cidade, mas como Charles Fourrier disse, só pode amar a Humanidade quem a ama através de uma determinada pessoa. O meu amor à cidade parte do amor à minha rua – à minha aldeia.”