FALEMOS DO LIVRO – 1 – por Carlos Loures

 Há umas semanas atrás, a Clara Castilho, a propósito do lançamento de uma colecção de livros electrónicos por um jornal diário, perguntava se seria o adeus ao velho livro de papel. Já tencionava debater esse tema é vou fazê-lo em vários posts que tentarei que culminem com um debate entre o povo dos livros – livreiros, editores, autores. Comecemos por falar da crise do sector.

A crise do livro

A crise do livro é uma doença endémica. Quando, há muitos anos, cheguei ao meio editorial a crise do sector era já um dado adquirido. As causas apontadas para a crise são numerosas. Umas crónicas, outras que vão surgindo. Há umas décadas, a persistência de uma larga percentagem de analfabetismo entre a população, o baixo poder de compra e a censura, eram três argumentos recorrentes (todos eles reais). A televisão não se usava ainda como desculpa, pois a oferta desse meio era escassa. As novas tecnologias ainda andavam às voltas com os electrodomésticos. Computadores, só nas empresas – grandes como armários. A ameaça do livro electrónico, pura e simplesmente, não existia. Mas o livro estava em crise.

 Actualmente, o analfabetismo é residual, o poder de compra não é famoso e  sendo verdade que há uma grave crise económica, os concertos de música rock esgotam a lotação de recintos gigantescos e os bilhetes vendem-se com meses de antecedência e com gente a dormir junto das bilheteiras. Isto para falar só num dos concorrentes da leitura. Há outros. Um livro, mesmo que não seja dos mais baratos, custa muito menos do que a ida a um concerto. Apesar da crise, trata-se mais de uma questão de opções e de prioridades culturais do que de um constrangimento económico.

 Resumindo – não há censura, mas há televisão com múltiplos canais, computadores e Internet – as pessoas não ficam com tempo para ler, pois não podem perder os seus programas, os sites ou blogues favoritos. Não há censura, mas há uma políitica cultural que induz comportamentos avessos ao consumo de livros. Ou seja, não há uma política cultural.

Quando se anuncia a morte do livro impresso, derrotado pelo livro electrónico esquecemos que dentro do circuito editorial tradicional estão muitas das razões que conduzem à crise. Por exemplo, a falta de especialização das editoras médias e pequenas, a tentação generalista, a ausência de concentração em linhas editoriais específicas – direito, medicina, culinária, pedagogia, economia, ficção… – a busca de nichos de mercado, que seria a grande solução para as pequenas e micro editoras. Muitos pequenos editores,  publicado vinte ou trinta títulos por ano, persistem em abarcar todo o imenso leque do conhecimento. Divertem-se, mas arruínam-se.. Vi algumas pequenas e médias fortunas desaparecerem, devoradas em negócios editoriais. O pequeno editor não é um predador pronto a saltar sobre a obra do pobre e desprotegido autor. O pequeno editor, no circuito comercial da edição, é um herói. Um herói que, na maior parte dos casos, acaba derrotado. Escritores conhecidos começaram a publicar na chamadas editoras de vão de escada, passando-se, logo que a notoriedade chegou, para grandes grupos editoriais.

 Nesta questão da crise do livro a verdade objectiva tem contornos estranhos: há, de facto, uma crise. Sempre houve. Porém, nunca se vendeu tanto livro como actualmente. Não me perguntem se a qualidade média das edições subiu ou baixou. Estou só a falar de quantidade.

 Crise do livro? – Sem dúvida! Resultante de muitas crises: da crise estrutural do sector, sobretudo de uma deficiente articulação entre os diferentes agentes que intervêm – autores, editores, distribuidores, livreiros. Resultante, sobretudo, da ausência de uma políitica cultural que impede que haja leitores e que se crie uma massa crítica que suporte o funcionamento normal da indústria e comércio do livro.

 Voltarei a este tema.

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