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Desencontros que resultam apenas de uma má compreensão do português ou de uma questão geracional
Coimbra, 8 de Outubro de 2024
Deixem-me escrever uma crónica sobre alguns desencontros meus no quadro da realidade que estamos a viver, a partir da má utilização ou da não utilização, penso eu, do verbo DEVER. Esses desencontros tornam-se entendíveis ou como resultado apenas das minhas limitações na língua de Camões ou de uma diferença de comportamentos geracionais que não permite entender o meu mau português.
Primeiro desencontro a partir do verbo DEVER.
Há já alguns dias Michael Pettis enviou-me um texto seu e o convite para assistir a um debate sobre o mesmo a decorrer nos Estados Unidos, o que agradeci reconhecidamente ao autor. Na hora em que se iniciava o debate, envia-me um segundo email informando-me de que o debate ia começar. Este segundo email foi por mim entendido como uma indicação de que deveria assistir ao debate, ou mais precisamente, no sentido de que deveria gostar de assistir ao debate. Aqui, neste contexto, temos a minha interpretação do que significa o verbo dever.
Como seria de esperar, fiquei sensibilizado com o envio do texto e com a reconfirmação da hora do debate. Assisti parcialmente ao debate e, como seria de espertar., não entendi praticamente nada do que foi dito e desisti. Agradeci segunda vez ao autor dizendo-lhe isso mesmo: o meu inglês em texto lido é aceitável, em texto ouvido ou falado é sofrível.
Para entender este cuidado de Michael Pettis pela minha pessoa devo referir que em tempos discuti com ele muitas passagens do seu importante livro The Great Rebalancing e discuti igualmente muitos dos seus artigos que vieram depois a dar origem à edição do livro Trade Wars Are Class Wars, tendo eu colocado num ou noutro desses artigos uma nota de pé de página escrita por mim e autorizada por ele, nos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas. Terão sido estes múltiplos contactos que o terão levado depois a oferecer-me o livro com dedicatória e com a sugestão de ler a página dos agradecimentos. Li e o meu nome era aí referido entre vários conceituados especialistas em macroeconomia não mainstream.
Entre o primeiro email e o segundo de Michael Pettis, traduzi o seu texto que seria objeto de debate no dia 3 de outubro, revi-o eu, pessoalmente, tendo pedido ajuda ao Almeida Serra em dois parágrafos, que me diz não haver nada de especial a corrigir, tendo-me ele sublinhado que era necessário perceber bem o que se estava a traduzir. Eram dois parágrafos difíceis, e aqui exigia-se olhos de falcão e bons conhecimentos em economia e estas são algumas das qualidades que caracterizam Almeida Serra. Disse-lhe que esse não era o meu problema, o meu problema era saber se estava a respeitar o texto original, dado que não estava a traduzi-lo bem à letra.
Distribuí o texto pela minha lista corrente de emails e um desses leitores do texto, a Margarida Antunes, pouco tempo depois, até porque conhece relativamente bem o autor em questão e tem também ela olhos de falcão, entra no interior e na alma do próprio texto [1] e reage questionando-me sobre a utilização da palavra DEVE num dos parágrafos. Face à pergunta, bom, consultei o original e a palavra era must e assim mantive a tradução. Telefono-lhe: diz-me que consultou o original também e que na opinião dela deveria estar TEM DE. Defendi-me dizendo-lhe, e isso para mim era mesmo assim, que se tratava aqui de sinónimos, o que é verdade, mas ela reage dizendo que TEM DE é mais forte que deve, pois TEM DE obriga a ser mesmo assim enquanto o termo DEVE pode levar o leitor a pensar que não é obrigação de ser assim, mas sim que pode ser ou não ser assim.
No fundo o que estava em questão era a palavra DEVE.
O parágrafo em questão ligando o ponto de vista dela e o meu, ambos estavam em princípio corretos, ficou o seguinte:
Qualquer política económica, monetária ou orçamental que afete o equilíbrio entre a poupança interna de um país e o seu investimento interno deve necessariamente afetar a balança comercial desse país e, através da sua balança comercial, deve necessariamente afetar o equilíbrio entre a poupança interna e o investimento interno dos seus parceiros comerciais.
E o original é:
Any economic, monetary, or fiscal policy that affects the balance between a country’s domestic savings and its domestic investment must necessarily affect that country’s trade balance, and through its trade balance, it must necessarily affect the balance between the domestic savings and domestic investment of its trade partners.
O curioso deste detalhe é que a palavra must é frequentemente traduzida por ‘tem de’ mas não no caso aqui. O sentido que eu dava ao deve era exatamente o mesmo de tem de ou de deve necessariamente
Admiti que a Margarida Antunes teria razão, pois uma coisa era o que eu pensava, outra seria o que outros poderiam pensar e alterei o texto (colocando deve necessariamente), uma alteração que também me levou a alterar ligeiramente a tradução de balanced,
No caso presente tratou-se de um desencontro em torno do verbo DEVER mas que rapidamente se traduziu em encontro pois pensávamos o mesmo e tratou-se apenas de encontrar o termo que melhor explicitasse o pensamento do autor, Michael Pettis.
Segundo desencontro a partir do verbo DEVER.
Em 2022 morreu um antigo aluno meu, o Miguel Morgado. Sobre ele na altura escrevi sentidamente o seguinte:
Sobre Miguel Morgado
“Hoje, mais um dia que é para mim muito triste, a suceder-se ao dia em que morreu Jaime Ferreira. Morreu um antigo aluno meu, durante muitos anos meu amigo pessoal e que as vicissitudes da vida terão levado a algum distanciamento afetivo, mas não intelectual. Morreu Miguel Morgado, um dos alunos mais brilhantes que me passou pela frente durante quase 40 anos de ensino universitário. Disto uma certeza eu tenho: a Universidade perdeu um dos seus filhos mais notáveis e registá-lo não fica mal a ninguém.
Neste momento, prefiro lembrar não o técnico altamente especializado a que eu recorria muitas vezes e a altas horas da noite para me ajudar a entrar no calão opaco da alta finança e em que muitas vezes a sua resposta era: “um vocabulário que está fora do meu radar”. E pensava com os meus botões: se está fora do teu radar, bom, para mim estará a milhas de distância.
Neste momento, prefiro não lembrar o técnico altamente especializado a quem solicitava acesso a artigos da Blomberg ou da Reuters ou ainda do Financial Times, quando de acesso pago.
Neste momento, prefiro não lembrar o grande economista que foi e com quem discuti alguns dos textos que publiquei no blog A Viagem dos Argonautas.
Não, prefiro relembrar o jovem, na casa dos 21-22 anos, intelectualmente muito acutilante que entrou pelo meu gabinete adentro para tirar dúvidas sobre o primeiro modelo de base que constituía a espinha dorsal das políticas de austeridade do FMI: o primeiro modelo de Alexander.”
No ano seguinte, na UC, fez-se uma homenagem ao Miguel Morgado a que não assisti. Em 2024 há uma segunda homenagem na Universidade de Coimbra e mais precisamente realizada na FEUC.
Aqui já me parecem homenagens a mais e fazem-me lembrar o que acontece frequentemente em termos de homenagens sucessivas. Como exemplo, depois da morte do meu grande amigo Fausto Correia, passou-se a fazer um jantar de homenagem ano após ano. Deixei de ir pois isto para mim começava já a revestir uma espécie de romaria ao “santo ateu” Fausto Correia e isso não tem nada a ver comigo.
Aqui no caso de Miguel Morgado comecei a ter o mesmo sentimento com duas homenagens seguidas, ano após ano. Mas que tem isto a ver com o verbo dever. Tem, e tem muito e a dois níveis, ao nível pessoal e ao nível institucional.
Ao nível pessoal, o Miguel Morgado foi um dos mais brilhantes alunos que passou pela FEUC e, portanto, qualquer homenagem que lhe seja feita DEVE entrar em linha de conta com isto e DEVE também estar à altura disto. Abusar das homenagens é estar a desvalorizá-las e a desvalorizá-lo. O Miguel Morgado merece bem mais. Lamento dizê-lo, mas é o que penso, sobretudo pelo que ele academicamente foi e também pelo empenho na vida dos estudantes com quem conviveu nos seus últimos anos de vida.
Ao nível institucional, vejamos então o que foi esta homenagem, utilizando a informação disponibilizada pela FEUC:
Dizem-nos Curso Banco Europeu de Investimento- homenagem a Miguel Morgado. Vejamos então o programa do curso:
No dia 10 de outubro de 2024, pelas 14h30, no Auditório da Faculdade de Economia, realizar-se-á o Curso Europeu de Investimento (homenagem a Miguel Morgado, Antigo Estudante da FEUC).
O curso está estruturado em dois módulos, um para apresentação das atividades do Banco Europeu de Investimento e outro para apresentação do Fundo Europeu de Investimento.
Destinatários: Estudantes da UC interessados em trabalhar no Banco Europeu de Investimento e/ou que pretendam obter informação sobre o Fundo Europeu de Investimento.
Será emitido certificado de participação.
Fim de citação do texto publicado pela FEUC.
Deve haver aqui, de novo, o verbo DEVER, referido ou a um engano, DEVE-SE estar perante uma fraude pois não vislumbro nenhuma matéria a ser lecionada para que se fale em curso e com direito a certificado de participação, ou DEVE haver escondido algures um curso que ninguém quer dizer onde nem que matérias nele se lecionam, talvez por medo da concorrência.
Duas apresentações, uma sobre o que é um banco, o BEI, outro sobre a atividade de um fundo de investimento, o FEI, e não consigo perceber em nome de quê é que se DEVE chamar a estas duas apresentações um CURSO e vejam os tempos de ocupação de cada interveniente.
Fazer isto em homenagem ao Miguel Morgado, isso não, porque isto é um verdadeiro insulto face a um homem que viveu sempre na inquietude da profundidade alcançada, tanto ao nível teórico, esse nível conheço-o eu bem, quer ao nível prático e aqui não é por acaso que, sem cartão de ministro, chega a Diretor de Risco do BEI, possivelmente o cargo tecnicamente mais difícil do Banco. Direi mais: é igualmente um insulto para todos aqueles que contribuíram para a sua enormíssima formação técnica e cultural, entre os quais um professor amigo seu, que partiu definitivamente logo a seguir a ele. É o que sinto face a alguém que foi um dos mais brilhantes alunos que conheci ao longo de quase quarenta anos de ensino na Universidade e penso que, como professor da velha FEUC, isto não honra os capitães da Nova FEUC. Pode servir os interesses de uma ou outra instituição, de uma ou outra pessoa, não sei quem, mas sei que servirem-se da imagem do Miguel Morgado para isto é humilhante para a velha FEUC a que tive a honra de pertencer durante décadas.
Terceiro desencontro a partir do verbo DEVER.
Depois de distribuir pela minha habitual lista de emails o texto de Michael Pettis acompanhado de uma nota pessoal minha, escrita em muita dificuldade visual devido a um exame médico prolongado e difícil de suportar que tinha feito à vista, os meus 81 anos começam a pesar, lembrei-me de um antigo aluno meu, hoje catedrático em Economia e decidi enviar-lho com o seguinte texto:
“Mandei este texto na minha lista de emails mais habituais. Acho que o deves ler, é a minha opinião.”
Ao contrário de mim relativamente a Michael Pettis, com Pettis a ser o professor e eu o colega aprendiz das matérias em que ele é professor, não obtive qualquer reação. É certo que hesitei na utilização do verbo DEVER e na terceira pessoa do singular.
Aqui a palavra DEVE não tem o sentido exigido por Margarida Antunes, no texto de Michael Pettis. O sentido de tem de para a palavra DEVE, não é agora esse, aqui o sentido de ordem e de imperativo está deslocado do contexto, o termo DEVE tem aqui o sentido afetuoso, de quem pensa que o outro irá ficar satisfeito em lê-lo e o outro é um antigo aluno meu que, ainda por cima, é um catedrático em economia e o texto é um texto acabado de publicar e de grande qualidade! Basta colocar penso que deves ter interesse em lê-lo para se perceber isso.
Não houve qualquer resposta, não houve qualquer reação e só há uma de duas explicações possíveis para esta situação anómala em termos civilizacionais: 1) o texto foi para spam, não foi recebido pelo destinatário; 2) eu não soube utilizar a palavra DEVE, porque como é evidente que ninguém que não se tenha doutorado e no seu perfeito juízo pode tomar uma posição imperativa de leitura a alguém que está bem acima dele, e muito acima. Mas, com os diabos, bastava colocar penso que deves ter interesse em lê-lo para se perceber que não há aqui nenhum sentido de imperativo. No entanto, penso que deve haver aqui atenuantes, e muitas, pela má utilização da palavra deves, pois se o envio significava algum afeto, e significava de facto isso mesmo, a expressão penso que deves ter interesse deveria ser lida como subjacente ao texto efetivamente escrito.
No dia 1 de Outubro escrevi ao ministro da Educação uma carta aberta sugerindo várias coisas, entre as quais:
que houvesse uma reunião com o pessoal auxiliar e, sabendo-se que o não pode fazer, que alguém o faça por si, uma vez que parte deste pessoal poderá estar mesmo à beira de uma situação de burnout. Imagine-se situações destas por várias escolas. Há falta de pessoal auxiliar, a descentralização de funções feita por António Costa foi uma verdadeira farsa, e todos aqueles que aceitaram esta transferência sem meios são maestros de uma pauta musical que ignoram e tocada por músicos, os alunos, que eles desconhecem completamente. Daí a importância de se questionar a Presidência da Câmara com a situação de carência de pessoal auxiliar.
Uma semana depois, os trabalhadores não docentes das Escolas estavam na rua, demonstrando a validade do que eu afirmava no texto referido. Mas aqui, ao contrário dos casos anteriores, o meu desencontro deve-se à falta do verbo DEVE, pois, a situação que se passa nas escolas é de tal modo grave que eu não DEVERIA utilizar o verbo sugerir, mas sim o verbo DEVER e tanto no sentido moral como no sentido imperativo. Estão a dar cabo da capacidade de aprendizagem de gerações, estão a transformar o ensino numa “fábrica de cretinos digitais” e impunemente!
Ao longo desta semana leio no Jornal de Notícias declarações do Ministro da Educação, das quais sublinho apenas três pontos que comento de forma breve um por um:
- O governante afirmou que já está contratado um estudo, a elaborar pela Universidade Nova de Lisboa (UNL), “para avaliar todo o sistema de ação social, porque é uma manta de retalhos”.
O executivo quer “avaliar integralmente todo o sistema de ação social” para ter, no próximo ano letivo, “um novo sistema de ação social que garanta efetivamente a igualdade de oportunidades e que ninguém é excluído do Ensino Superior por razoes económicas”.
“É frustrar as expectativas dos estudantes, famílias e é uma perda para o país quando alguém que podia continuar a melhorar as suas qualificações fica excluído do acesso ao Ensino Superior”, considerou.
Não entendo, porque é que é necessário contratar a Universidade Nova para um estudo sobre a Ação Social a realizar e com urgência. Não tem a Administração Pública pessoal competente para isso? Ou será que precisa de uma filiação ideológica para aquilo que o governo pretende? Não acredito que a Administração Portuguesa não tenha quadros qualificados para o efeito e se os não tem é então muito grave pois pela Administração Portuguesa e neste sector já passou muita gente de grande qualidade. Não serão é neoliberais de meia tigela como se pretende hoje que todos sejam.
- O titular da Educação anunciou que “muito em breve” o Conselho de Ministros irá aprovar “o Conselho Nacional de Inovação Pedagógica para o Ensino Superior” que vai “olhar para estas dimensões da inovação pedagógica”.
Espero de novo que não seja para recorrer a uma outra instituição como a Universidade Nova. Dignifique a função pública, valorize-a, perceba que muito do disfuncionamento da Administração Pública não se deve ao seu pessoal de serviço, mas sim à qualidade dos sucessivos governos que a têm tão mal tratado, a começar pelos muitos cursos de formação que são mais cursos para os formadores ganharem dinheiro do que para se elevar a qualidade dos profissionais da função pública.
Mas uma coisa é certa: espero que isso não seja poeira para os olhos pois o que o ensino precisa, todo ele, do primário aos mestrados universitários, passando pelo ensino técnico-profissional, é de uma profunda reforma, uma reforma de alto a baixo em que os diferentes níveis de ensino sejam articulados, de definição de objetivos por nível de ensino e da obtenção dos meios necessários para esses objetivos por cada nível de ensino, e é aqui que a Inovação Pedagógica ganha todo o sentido. Fora disso, será dinheiro gasto para efeitos mínimos, ou seja, será poeira para os olhos.
- “Se eu não der aulas interessantes vai ser difícil motivar os estudantes e, por isso, mais facilmente eles ficam desincentivados, não conseguem a aprovação, depois entram num ciclo negativo de perda e muitas vezes problemas de saúde mental. E, por isso, nós temos que olhar para a inovação pedagógica, para o abandono e para o sucesso e para a saúde mental de uma forma integrada e não espartilhada, que é como ela tem sido tratada”, sustentou. Fim de citação
Aqui está, para lá da sua possível boa intenção, uma declaração triste, pobre, para não dizer intelectualmente paupérrima, quando está a associar à falta de saúde mental em muita da nossa juventude a aulas mais ou menos desinteressantes que os professores poderão ter estado a lecionar. A saúde mental, senhor ministro, precede a entrada na sala de aulas, advém de uma sociedade em grande disfuncionamento. Não se ponha o ónus de um problema nacional nas costas dos professores. Muitos deles fazem o possível e o impossível para dignificar o ensino. A questão dos telemóveis, dos filhos e, sobretudo, dos pais, mostra-o à evidência para quem não tem dúvidas. Pela forma como o disse, o problema da saúde mental da nossa juventude resulta de os jovens perceberem ou não as aulas a que os alunos assistem. No fundo precisariam de aulas mais fáceis. Patético como justificação para a existência do problema de saúde mental da nossa juventude.
Aqui deixem-me recorrer a um artigo de Matthew Yglesias intitulado Os estudantes devem estudar mais (original aqui). Deixem-me reproduzir alguns excertos e todos eles expressam uma posição em clara oposição à que é expressa pelo atual ministro e a partir da qual se infere uma perspetiva para a Educação Nacional também ela oposta:
“1. Dito isto, tendo em conta o papel do ensino superior na sociedade americana, o retrato que fazem das escolas onde muitos alunos não aprendem nada continua a ser importante. Philip Babcock e Mindy Marks mostraram que, ao longo das décadas, os estudantes têm passado cada vez menos tempo a estudar – “em 1961, os estudantes a tempo inteiro dedicavam 40 horas por semana às aulas e ao estudo, ao passo que em 2003 investiam cerca de 27 horas por semana”.
Há muita coisa que se pode tentar dizer sobre o porquê disso. Mas uma das principais razões para se dedicar aos livros é ter boas notas e, ao longo do tempo, tem sido cada vez mais fácil ter boas notas, o que significa que há cada vez menos razões para ser estudioso.”
- Os departamentos de Humanidades, pelo contrário, têm de justificar os seus orçamentos relativamente escassos em termos do interesse dos estudantes, o que significa que têm de tentar dar às pessoas o que elas querem, e o que elas querem são aulas fáceis. Não tem necessariamente de ser assim. As pessoas pagam para frequentar aulas de exercício em grupo em que o objetivo é que o professor questione os alunos e os leve a trabalhar mais intensamente do que normalmente fariam. Os alunos aprenderiam mais se se esforçassem mais, e esforçar-se-iam mais se as notas fossem mais duras, e “gostaria que o meu filho aprendesse muito na escola” e esta ideia não é uma ideia particularmente descabida.
Apenas não é a direção que os alunos e os seus pais seguiram nos últimos 50 anos.”
- A ideia de que o declínio do espírito de estudo dos estudantes universitários americanos tem como base uma fonte de problemas económicos profundos foi, penso eu, esmagadoramente desmentida pelos acontecimentos. Mas continuo a pensar que é uma espécie de chave-mestra para perceber muitas das controvérsias no campus.
- As instituições funcionam melhor quando têm missões claras. Uma missão ajuda a traçar a linha entre o que é importante para a instituição enquanto instituição e o que interessa a uma pessoa que trabalha na instituição [seja-se professor ou estudante].
Uma missão é também uma boa forma de gerir a diversidade. Pessoas com origens e valores muito diferentes podem encontrar formas de pôr de lado as suas diferenças e cooperar para um objetivo comum, se tiverem um objetivo comum.
Parece que, se houvesse um objetivo claro para os cursos de licenciatura de uma universidade, este objetivo teria muito a ver com a educação dos próprios estudantes.
- Mas os estabelecimentos de ensino superior parecem cada vez menos interessados em manter os estudantes num nível de trabalho elevado. O mercado decidiu que os clientes estão mais interessados nos efeitos de grupo e no divertimento, e as escolas são recompensadas mais por serem boas na seleção do que por serem boas em educar. Isto deixa os estudantes com muito tempo livre que estes gastam de várias formas – eu criei um blogue, o Milan está a fazer e Opinion Editor of the Yale Daily News, a Maya escreveu uma série de colunas fantásticas para Crimson, outros envolvem-se em ativismo ruidoso e, provavelmente, a atividade mais comum é a festa – e o trabalho principal do corpo docente [não é ensinar] é a investigação”.
E como último excerto deste artigo – que penso dever ser uma referência para todas as Faculdades de Economia e Gestão do nosso país, entre as quais a Faculdade onde lecionei durante décadas, foi nela que se formou o atual ministro – vejamos uma das mensagens que se retira do texto de Yglesias:
- Mas, para além disso, penso que seria saudável para a sociedade como um todo se os jovens que vão para empregos de gestão e de direção fossem submetidos a um esforço intelectual um pouco mais intenso. É óbvio que não é uma crise o facto de não se poder contar com toda a gente para saber o que era a Liga de Delos [2]. Mas há algo de intrinsecamente edificante em trabalhar intensamente e dominar adequadamente um conjunto de conhecimentos. Isto é o tipo de trabalho que se confiava ao ensino superior e, sem ele, estamos todos um pouco à deriva.
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Com este texto já pronto, deixem-me aqui relatar uma conversa ocorrida em 8 de outubro numa instituição de alta tecnologia, a Diaton — Centro de Tomografia Computorizada, S. A. Hoje, 8 de outubro, fui fazer um exame médico na Diaton, em Coimbra, um exame com duração de quatro horas, feito em três fases. Três longos intervalos pelo meio, o que deu para algumas curiosas conversas com gente que estava ali a fazer o mesmo tipo de exames em duas salas de espera. Sintetizo uma dessas conversas: uma senhora acompanha o marido que tem graves problemas de saúde. É boa faladora. Tem setenta anos e uma razoável curvatura de ombros, sinal de quem muito trabalhou e ainda trabalha no campo. É de uma aldeia perto de Lavos. Na conversa descreve o seu mundo simples, a sua horta, as suas cabras de mão, os seus cabritos que não vende, são para consumo próprio, as suas galinhas, os seus patos. Enquanto decorre a conversa, ouve-se a chuva e chove fortemente. Com um ar de encantada diz-nos que está a pensar na sua horta. Diz-nos que no verão a sua maior ocupação é a rega da horta, enquanto no inverno isso é um descanso e, sabem, não há nada que chegue à rega feita com a água do céu! Deus haja, acrescenta. Estamos em 2024 e naquela voz simples de uma mulher que ama a vida, o marido, a família, parecia que eu estava a ouvir a voz da minha mãe, camponesa como ela, mas há 50 anos! Será que o mundo terá parado para lá das terras de Lavos. Será que a Democracia na região de Lavos se caracteriza pelo imobilismo? Com exceção do Serviço Nacional de Saúde que, segundo ela, é em Lavos de grande qualidade. Entretanto, refere-se a Coimbra como uma cidade muito bonita. Uma outra mulher, residente em Coimbra um pouco sofrida de problemas de saúde, será a segunda ou terceira cintigrafia que está a fazer, reage, dizendo: “discordo de si. O que é que tem Coimbra de bonito”, pergunta. A camponesa, que não esperava aquela reação, diz mais ou menos o seguinte: olhe, Coimbra é a cidade dos doutores, olhe para os estudantes com as suas fardas tão bonitas. A resposta foi imediata: doutores? Está enganada, esses andam a estudar para burros! E agressivamente questiona, falando para a sala: quando temos problemas de saúde graves procuramos um médico novo ou a um velho? A mulher de Lavos confirma a tese e com um exemplo, falando do velho Linhares Furtado que lhe salvou o marido. E pergunta se ainda está vivo! Curiosamente, ninguém contestou as afirmações da conimbricense, nem eu que preferi ficar calado a ouvir o desenrolar da conversa. Por este desenrolar da conversa, fiquei a perceber que estavam ali dois mundos, o da mulher de Lavos suspenso no tempo, a ser facilmente atraída pelo Chega ou pela AD e a da mulher de Coimbra, possivelmente alguém que deixou de votar por desacreditar nos políticos que temos tido, daí a agressividade por mim sentida do seu discurso. A atitude da mulher de Coimbra fez-me lembrar o texto de Matthew Yglésias e da imagem que ele transmite sobre as Universidades americanas que, afinal, não é muito diferente da que começa a ter o cidadão comum em Portugal sobre as universidades portuguesas. E é este facto que justifica a presente nota.
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Uma vez que o ministro se situa desde há alguns anos em plena autoestrada neoliberal, com algumas marcas da sua origem de classe a serem utilizadas para contornar ou mesmo disfarçar a aridez desta autoestrada, relembro aqui excertos de um texto de Daniel Buck (original aqui), um partidário de Ron Desantis, governador da Califórnia e que foi apelidado pelo Washington Post de o Trump com cabeça. Daniel Buck é, pois, um homem da direita dura da Califórnia que, depois de fazer uma análise crítica implacável sobre os radicalismos de alguma esquerda americana, o que ele lamentavelmente generaliza a todos os estrados de governação democrata, nos diz:
“Uma análise institucional da educação americana levanta a questão: o que devemos fazer com as nossas escolas públicas? E eu provavelmente vou irritar algumas almas conservadoras quando eu sugerir que é bastante razoável considerar o nosso sistema de educação pública uma grande instituição americana. O Congresso ou as nossas universidades, podem estar corrompidas, mas será que não vale a pena salvá-las? O herdeiro de uma outrora grandiosa propriedade em ruínas poderia arrasá-la, dispor-se da sua arte e escavar o jardim ou revitalizar a sua grandeza. Somos mordomos ou demolicionistas?
(…)
Edmund Burke adverte que “é com infinita cautela que qualquer homem se deve aventurar a derrubar qualquer edifício que tenha respondido num qualquer grau tolerável por séculos aos propósitos comuns da sociedade.” Os conservadores devem ser cautelosos com os seus apelos para desmantelar a educação pública, para que não descubram que eles próprios se tornaram os jacobinos.
(…)
Talvez mais do que qualquer outra área política, a educação determinará o futuro da América — em direção à sua revitalização ou à sua destruição. Reformá-la exigirá uma visão abrangente e positiva e várias gerações de ganhos acumulados (o sublinhado é nosso-JM) ”. Fim de citação
O problema da saúde mental a que alude o ministro é, pois, uma tarefa de grande fôlego, a exigir equipas de trabalho multidisciplinares, de gente realmente interessada em enfrentar os problemas do país, tal o conjunto de interligações com disfuncionamentos noutros setores da sociedade. Aqui, é sobretudo preciso alma, alma coletiva, e esta não pode ser encontrada em qualquer relatório que se possa encomendar a uma instituição privada para encontrar a solução para o problema levantado. Em paralelo, é necessário pensar o sistema escolar como um todo, um problema para gerações, caminhando passo a passo, de degrau de ensino em degrau de ensino.
O que não se pode querer é mais facilidades de ensino para deixar os alunos contentes como se fossem crianças. Dou um exemplo banal que se verificou comigo. Na década dos anos 90, ensinava o gráfico da Fronteira de Possibilidades de Produção de forma mais sofisticada que a explicada por Samuelson no seu livro Economics, este livro está vocacionado para alunos do 1º e 2º anos, e fazia-o normalmente na disciplina de Economia Internacional, disciplina lecionada no segundo semestre do 3º ano. Em 2010-2012, quando me reformei, já nem a explicação da fronteira à Samuelson era possível, a menos que gastasse o dobro do tempo e, mesmo assim…
O que posso dizer, face ao que tenho visto fazer pelos reformistas do PS, PSD e do CDS em termos de ensino, é que claramente tenho saudades de homens como Amaro da Costa, Veiga Simão enquanto ministro da Educação, Fraústo da Silva, Sebastião e Silva entre outros que, com muitas dificuldades, ajudaram a fazer um ensino de qualidade no nosso país, ao contrário dos neoliberais de hoje, de esquerda ou de direita, que só pensam em fazer do ensino uma poderosa máquina de produção de “cretinos digitais”, a partir de ideias como competitividade e atratividade das escolas.
[1] Posso não saber utilizar o termo DEVE mas uma coisa eu sei: sei que entrar na alma dos textos de Michael Pettis não é coisa simples, não é coisa fácil. Ainda hoje, 9 de outubro, escrevia Adam Tooze, um dos mais relevantes intelectuais da atualidade o seguinte:
“No artigo desta semana do FT, escrevi sobre a tensão existente no atual paradigma da política económica. Diagnostiquei uma incoerência entre a macroeconomia e a política industrial. Foi seguramente um artigo sobre tensão.
É um lugar-comum o facto de, nos últimos anos, o paradigma da globalização se ter desmoronado. Já não existe a presunção de uma integração global cada vez mais estreita. A política comercial está sobreaquecida. A política industrial nacional está na moda. Mas as provas de grandes mudanças no fluxo do comércio são escassas. O que substituiu o velho paradigma foi menos uma nova agenda coerente do que uma dissonância cognitiva generalizada.
No que diz respeito à macroeconomia, “plus ça change”. Os EUA têm estado a registar défices duplos – tanto no orçamento do Estado como na balança comercial. A procura dos consumidores é forte. Os mercados financeiros estão em alta. Em contrapartida, a UE e a China, com uma procura interna insuficiente, registam grandes excedentes de exportação. Estes desequilíbrios moldaram o padrão da globalização durante décadas. Há muito que os especialistas apelam ao reequilíbrio, mas são ignorados. Ainda hoje são ignorados, mas agora as tensões familiares da globalização são reinterpretadas através da lente escura da rivalidade industrial e da geopolítica.
O persistente défice comercial dos Estados Unidos há muito que levanta questões sobre a forma como será pago. Até agora, graças ao privilégio exorbitante do dólar americano e aos bons ofícios de Wall Street, o défice tem sido financiado sem problemas. A pressão da concorrência global recai fortemente sobre os sectores de bens transacionáveis dos Estados Unidos, nomeadamente a indústria transformadora. Isso não é um problema. É uma caraterística do que foi outrora um consenso de elite a favor do acesso ao mercado e da liberalização do comércio, sustentado pelos benefícios amplamente sentidos das importações baratas.
Esse consenso foi quebrado em 2016, quando Donald Trump ganhou os estados do cinturão da ferrugem (os estados da velha industrialização). Desde então, o protecionismo populista, as promessas de reindustrialização e o apontar de dedo à China têm enquadrado a política dos EUA. A preocupação com a rivalidade entre as grandes potências vem aumentar o fogo. Quer se trate de fentanil, de veículos elétricos com software de espionagem ou de mísseis ultrassónicos que rebentam com porta-aviões, a China é um bode expiatório de espetro completo. De pouco serve dizer o óbvio: que uma fábrica de chips topo de gama aqui ou ali não vai redefinir materialmente o contrato social americano, e que qualquer pessoa séria sobre a melhoria da sorte da classe trabalhadora americana começaria pelo básico, como habitação, saúde e cuidados infantis.
A expressão “de pouco serve” pretendia sugerir a força discursiva do discurso da nova política industrial. Os meros dados e o senso comum não vão fazer o trabalho aqui, porque o senso comum mudou. O que podemos fazer neste tipo de situação é peneirar a confusão discursiva e é isso que o resto deste nosso artigo, de forma muito abreviada, faz:
Se o seu objetivo é restaurar a posição competitiva da indústria americana, uma grande desvalorização do dólar faria mais do que uma pitada de subsídios industriais.
A palavra “polvilhar” é crucial aqui. Obviamente, se tivéssemos dinheiro real para gastar em subsídios industriais, estes poderiam fazer tanto quanto uma desvalorização. E o verdadeiro problema com a conversa da desvalorização é que não é óbvio como a conceber de uma forma robusta e a longo prazo que seria necessária para mudar a estrutura económica dos EUA. E porquê? Porque a balança de pagamentos é uma coisa bem complexa.
Mas como se pode conceber uma (uma desvalorização sustentada e grande) face à procura global de ativos financeiros dos EUA é uma incógnita. Está a ser discutida a possibilidade de aplicar uma tarifa sobre as entradas de capital estrangeiro, ou seja, um imposto sobre o dólar como moeda de reserva (uma ideia de Michael Pettis). Mas para que uma política tão radical veja a luz do dia seria necessário que os interesses dos produtores destronassem Wall Street – nada menos do que uma revolução. Entretanto, a consolidação orçamental, a solução para o problema do “défice duplo” adotada pela administração Clinton nos anos 90, está excluída por um impasse no Congresso” Fim, de citação
E isto pode ser visto, é assim que a leio, como uma síntese muito bem feita do pensamento de Michael Pettis
[2] Nota do tradutor. O artigo toma como ponto de partida o filme de Alexander Payne, “The Holdovers” e a sua personagem central é o professor Hunham, um professor muito exigente da área das Humanidades. Um filme que vale a pena ver.

