NOVA CRÓNICA DE FARO, Nº 3. Por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE IV

Da Faro com amor, de Estoi com horror – uma crónica em duas partes

1. De Faro com amor

(CONCLUSÃO)

Uma conversa a decorrer serenamente entre dois sujeitos que nunca se viram, nem mais magros nem mais gordos, numa tarde Verão, em Faro, numa cidade que tal como o país está em profunda crise. Uma conversa que se mantinha serena. Alguém passou e perguntou ao meu companheiro de ocasião, como é que ele estava. Estou mal, ninguém nasce para viver sozinho, respondeu. Ouviu-se, tem que ter paciência. E a pessoa em questão seguiu o seu caminho.

Olhei para o meu companheiro de conversa séria. Pede mais uma cerveja e diz-me- posso bebê-la na sua companhia? Com certeza, respondi. Mas fiquei incomodado pela tensão no pedido feito. Disse-lhe: bebe mais uma cerveja porque se sente incomodado. Depois de a beber, sentir-se-à ainda mais incomodado, pois terá menos controlo sobre si-próprio. E assim se poderá ir sucessivamente até que deixa de haver ponto de retorno. E é assim que muita gente desce um perigoso plano inclinado, por causa de uma solução que não encontra, e à medida que o descem, mais as pessoas se afastam da solução de que precisam encontrar.

Posso fazer-lhe uma confidência? Pode, respondi. Sabe, cansei-me de viver sozinho, depois de ter estado casado muitos anos. Apaixonei-me por uma mulher e essa paixão consome-me pela sua não correspondência. É isso, é isto, que me faz sentir mal comigo mesmo, desencontro após desencontro. Procuro saber a profissão dessa mulher, objecto da sua paixão, divorciada também ela. Directora financeira de uma empresa. Conta-me depois vários incidentes, várias propostas de encontros que resultaram sempre em desencontros. Diz-me que até o irmão dela, engenheiro, lhe diz que ela não é merecedora dele. Digo que discordo em absoluto dessa posição. Não é uma questão de merecer ou não merecer, de um valer mais ou valer menos, é uma questão de trajectos e sentimentos diferentes, nada mais.  Falámos muito sobre o tema, cujos detalhes, por serem mais pessoais que outra coisa,  aqui não nos interessam. E rematei com uma história da mãe de dois amigos meus. Em 1977, viúva, achava que tinha muito para dar e para receber, para amar e ser amada. Achava e procurou. Foi de Lisboa parar à Beira, Moçambique, para casar. Descobriu que se tinha metido num covil de racismo puro e duro. Assumiu-se, veio-se embora. Que dignidade! Mas procurou sempre, e sempre frontalmente, sem preconceitos, sempre com o máximo de confiança nos outros. Meu caro, mude de  comboio, mude de linha, mude de gente com quem se quer encontrar.  Mas procure sempre, não fique parado a consumir-se. Parado, não se vai a lado nenhum. Não é verdade, respondeu-me. Parado, é ir a algum lado, é que nos ensina Lewis Carrol, é o que nos ensina Alice no país das maravilhas. Pois é, respondi-lhe, ficar parado é ir para pior. Pura e simplesmente isso.  Mude, mude  como o país deve mudar, esse, também precisa de mudar de governo e de política. Procure a vida, procure o afecto onde o pode encontrar, não desista de procurar, caia por causa de uma mulher,  levante-se, procure outra, ajude os outros ou as outras a  levantarem-se também. E siga sempre em frente, acompanhado ou sozinho à procura de companhia. A vida é também isto.  Tal como o país deve também procurar o seu outro  futuro que não seja esse de estar agarrado a uma relação cujo futuro já morreu. Um homem e uma mulher  e o amor, em Faro. O amor que pode fazer viver, que pode fazer renascer, que pode levar a morrer, que pode levar a reconstruir, igualmente. A tensão na vida de que falava Heraclito.  E para acabar a conversa, disse-lhe desculpe mas agora preciso de estudar.

Levanta-se, pega num papel, escreve o seu nome e número de telefone. Diz-me, se algum dia passar por (…)  telefone-me então que tenho a minha casa à sua disposição, para si e para a sua família. Digo-lhe, obrigado[1].

Depois, percorre à  pressa a praça à procura talvez de ir para nenhures.  Percorre-a, passada firma e cadência certa, com o olhar fixo  ao longe, como quem está  à espera de ver o último soldado da parada em desalinho, o espaço que o leva a sair do meu horizonte visual. Uma alta patente  na reserva, talvez, penso eu.

Pego no meu livro, La tyrannie de l’évaluation, de Angélique del Rey, abro na página onde tinha estado antes desta conversa e leio: “Todos os cidadãos são admissíveis nos lugares e empregos, sem outra distinção que não sejam a dos talentos e das virtudes.” Estes talentos e estas virtudes não são de forma nenhuma inatos, mas são adquiridos. Trata-se, no quadro do espírito revolucionário  de colocar em funcionamento um sistema de ensino  permitindo as escolhas dos mais capazes  e a sua preparação para as dignidades , lugares  e empregos públicos” .

Falamos de ensino num país, Portugal,  em que estão a destruir o nosso sistema educativo. Falámos aqui do princípio do capitalismo moderno, de cariz  democrático, falamos aqui também do fim desse ciclo que se está agora a verificar. Falamos da Revolução Francesa, ou da necessidade dela? Falamos da violência que foi a passagem do feudalismo pra o capitalismo, de então? Ou falamos agora da violência à nossa espera, com o fim deste ciclo e o nascimento violento do próximo? Não sei bem, mas a lembrar o historiador Rui Tavares, necessariamente. Haverá muita gente a responder com o pescoço na guilhotina da História, seguramente.

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[1] Mais tarde telefonei-lhe a aconselhar-lhe que lesse a minha crónica  em A Viagem dos Argonautas. Depois rasguei o endereço. Era um encontro na História e da minha história. Nada mais.

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A parte III desta crónica foi publicada ontem, em A Viagem dos Argonautas. Ver:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/13/nova-cronica-de-faro-no-3-por-julio-marques-mota-3/

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