Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Hermen Hesse
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
5 min de leitura
Texto 14. Recensão do livro The Reading Mind
O livro de Willingham é um pequeno livro divertido que às vezes se perde em coisas efémeras.
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Não faltam coisas a temer, mas o desastre que mais me inquieta é o avanço da iliteracia em massa e de uma estupidez rigidamente controlada. A ascensão dos LLMs não necessariamente pioraram isso, mas ilustra o que talvez nos aguarde: pessoas que acham que pensar é cansativo, ou seja, muita gente a permitir que os LLMs assumam esse fardo por elas.
Não me refiro a pessoas que simplesmente não sabem ler, mas a pessoas que não conseguem (e são cada vez mais as que não conseguem) sustentar a leitura de um livro inteiro. A transição para a iliteracia funcional começou décadas atrás e, apesar dos gritos de que “sempre foi assim, os professores sempre se queixaram”, hoje a situação é pior do que a maioria imagina. No ano passado, uma estudante de história dizia-me que “não é muito de leituras” e que só tinha lido dois livros na vida. Ela não era burra; foram as pessoas que a deveriam ter educado que falharam nisso.
Este é o nosso mundo: nós esvaziámo-lo do tédio necessário à reflexão, à alienação indispensável para que cada um se sinta entregue a outra perspetiva e, agora, ao que tudo indica, decidimos desfazer um século de progresso e tornarmo-nos todos semiletrados. Quando dizem que os jovens escolheram isso, que se trata de uma preferência pelo “visual”, cabe a cada um de nós começar a gritar. Além disso, as pessoas que insistem em que ouvir é ler, ou que o importante é termos “acesso” aos “dados” num texto, isso faz parte de um programa de estupidificação em termos culturais, que nos está a transformar em embotados porcinos incapazes de nos empenharmos com qualquer coisa que não nos dê prazer imediato. “Deixem as pessoas gozar as coisas”
Este livro foi claramente escrito para ser um e-book: a formatação é desajeitada, os resumos e gráficos são quase condescendentes e os capítulos parecem ter sido projetados para serem lidos via rolagem de ecrãs (scrolling). Relacionado com isso: o livro levanta poucas questões sobre os media em si (por exemplo, a diferença entre um livro de papel e um eletrónico, ou entre uma revista e um livro) e este é, a meu ver, o maior défice de The Reading Mind. O facto de um leitor digital permitir que todos os livros tenham letras grandes é um benefício indiscutível, e descobrir como utilizar essa tecnologia da melhor forma parece ser importante.
Sim, a relação entre símbolos e fonemas (o primeiro terço do livro) é muito interessante. Especialmente para falantes de inglês, cuja escrita é tão distante dos sons que emitimos, que isso afeta seriamente a aprendizagem do idioma (ao chegar ao final da primeira classe, um falante de inglês lê cerca de metade das palavras monossílabas que uma criança na Alemanha ou na Espanha lê). No entanto, o efeito dos e-books é algo mais premente. Até agora, os estudos parecem mostrar que a memorização é melhor com livros de papel. Isso pode estar relacionado com elementos que podemos replicar. Por exemplo, ler um e-book “folheando” as páginas parece proporcionar uma memorização melhor do que a rolagem. Contudo, até vermos o que acontece com crianças criadas maioritariamente com e-books, não saberemos se este é um efeito estável ou apenas uma questão de falta de costume com a tecnologia.
Os audiolivros são muito mais problemáticos, assim como os idiotas ideológicos que insistem em chamar “leitura” ao ato de ouvir livros. Provavelmente não há nada de errado em ouvir a maioria dos livros e, para alguns (como a Odisseia), é até preferível. Mas o facto de as pessoas insistirem em chamar ‘leitura’ ao ato de ouvir o relato de um livro — quando já temos uma palavra perfeitamente adequada para isso — sugere que elas estão ansiosas e sabem que algo se perde quando ouvimos livros tecnicamente difíceis. A minha esposa observa que a maioria das pessoas ouve enquanto está a fazer outra coisa, e só isso já é algo sobre que vale a pena refletir [1].
Ler é difícil, mesmo para aqueles que (como eu) passaram a vida inteira a fazer isso. É mais fácil para os jovens: eu ressinto-me profundamente da facilidade com que o meu filho de 8 anos se senta para devorar um romance de uma só vez. As minhas costas doem, o meu cérebro dói e eu já estou sobrecarregado pelo trabalho, pelo clima, pelos relacionamentos, etc. Faço parte de uma população que anda tão exausta que tudo o que conseguimos fazer é olhar, em formato maratona, uma série ou deixar o nosso cérebro repousar diante de um fluxo de conteúdos escolhidos pelos nossos telemóveis.
É por isso que as lamúrias e as críticas de pessoas que me dizem que ler é um privilégio, que eu não sou capaz de compreender até que ponto lhes é difícil ter tempo para ler. Chocam-se com a minha indiferença total ao dizerem que eu não entendo como é difícil encontrar tempo e energia ou que ler não lhes parece ser algo natural. Essas críticas e lamúrias encontram em mim um muro de indiferença, pois o que me dizem entra-me por um ouvido e sai-me pelo outro. Porque — e isso é importante — ninguém foi biologicamente projetado para ler.
A leitura tem menos de 6.000 anos; isso é pouquíssimo tempo para que qualquer processo de pensamento específico para a leitura tenha evoluído, e não há muitas evidências de que isso tenha ocorrido. Os processos mentais que contribuem para a leitura evoluíram para outro propósito, e nós cooptamo-los para o ato de ler.
É difícil realçar suficientemente isto: ler não é como correr, nadar ou cantar. É algo novo, é difícil, e é realmente a nossa única possibilidade de uma independência intelectual — ou de qualquer forma de liberdade intelectual — que dure mais do que o tempo de uma só vida. Sim, génios autónomos individuais surgirão, mas isso não é mérito nosso: as exceções e o excepcional ocorrem em qualquer sociedade. Qualquer idiota consegue desenvolver uma sociedade com elites inteligentes ou poderosas. O projeto difícil é uma cultura como um meio de formação, de educação, onde a liberdade e o pensamento sejam posses comuns, não bibelôs brilhantes usados pelos ricos. E isso significa ligarmo-nos uns aos outros, mas também aos mortos, aos que morreram há muito tempo, às pessoas cujas vidas são extremamente estranhas às nossas.
Parte do valor do passado tem em parte a ver com a sua completa e profunda inutilidade para o nosso presente: ele fornece uma margem da qual podemos observar, confusamente, o mundo atual, e isso é suficiente [para lhe dar valor]. Esse hiato entre o passado e o presente é uma fonte de poder, uma fonte que é enfraquecida cada vez que se lê coisas estúpidas do género, ‘o que Tucídides nos pode ensinar hoje’ ou ‘como Marco Aurélio nos ajuda a tornarmo-nos melhores investidores.”
Antigamente, a maioria das pessoas precisava de ser razoavelmente forte; depois, a mecanização em massa tornou isso irrelevante. Agora, a força é a recompensa daqueles que forçados a trabalhar sem fim (que acabam destruídos pelos seus empregos), ou dos ricos com as suas frequências dos bons ginásios com os seus treinadores pessoais ou de alguns preocupados apenas com o corpo. Até há pouco tempo atrás, cada um de nós precisava de ser razoavelmente inteligente e autónomo na sua capacidade de pensar, mas em breve, talvez seja muito diferente do que tem sido, e a inteligência se torne um domínio exclusivo dos ricos, com as suas bibliotecas e mentores, e também de alguns amantes da reflexão.
Sim, estou preocupado. Sim, isso faz-me estremecer. E sim, isto é um desabafo. Portanto, vou terminar esta minha apresentação com uma observação que o livro faz sobre a leitura e as tecnologias supostamente concorrentes que achei extremamente valiosa:
“A consequência da experiência de longo prazo com as tecnologias digitais não é uma incapacidade de manter a atenção. É a impaciência para com o tédio”.
Sabemos desde há muito tempo que as pessoas que não suportam ficar entediadas são entediantes. Mas penso que agora estamos a verificar que a guerra contra o tédio é um desastre cultural — talvez não para os filhos bem instruídos dos ricos, mas para nós, as pessoas da classe média.
De qualquer forma, é um belo livro, mas dê-lhe uma olhadela, folheie-o, leia‑o ou pegue o audiolivro e limpe o chão enquanto o “lê”.
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[1] Estou agora a ler livros que deveriam ser claramente ouvidos como audiolivros (mais sobre isso outro dia). Frases curtas, sem descrição necessária, todos os verbos verbos verbos. Uma ação curta, ou reivindicação. após a outra.
O autor: Dustin Atlas é Diretor de Estudos Judaicos e Professor Associado da Escola de Religião da Queen’s University. Especializou-se no pensamento, identidade e estética judaica contemporânea, especialmente obras que dizem respeito à fragilidade, imperfeição e criaturas não humanas. O seu trabalho tenta construir pontes entre os Estudos Judaicos e o campo mais amplo dos Estudos Religiosos, usando pensadores judeus para entender o Judaísmo contemporâneo à luz das tendências políticas, intelectuais e éticas recentes (especialmente pós-colonialismo, novo materialismo, estudos com animais e teoria do afeto). A sua bolsa de estudos procura mostrar como o judaísmo, o pensamento judaico e a Política judaica começaram a mudar de uma preocupação exclusiva com as nações (humanismo, cosmopolitismo, etnia e sionismo) para se adaptar a uma visão de mundo globalizada (pós-humana, transnacional e pós-sionista). O seu projeto atual de livro (Buber Talks: Jewish Dialogue and the Nonhuman World) usa o trabalho de Martin Buber para interrogar as preocupações pós-humanas contemporâneas no pensamento, na política e na vida judaica, explorando as maneiras pelas quais o pensamento judaico nos permite envolver o não-humano. Além disso, ele está a trabalhar no ensino da religião na Palestina.
