Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Herman Hesse
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
3 min de leitura
Texto 3. A cultura molda o cérebro: como a leitura muda a nossa forma de pensar
Publicado por
em 23 de Abril de 2018 (original aqui)
A partir de uma perspetiva de investigação, a Leitura e a Escrita são um fascinante fenómeno. Afinal, os primeiros sistemas de escrita datam de menos de 6.000 anos atrás — um piscar de olhos na escala temporal da evolução humana. Como o cérebro humano é, ainda assim, capaz de dominar essa tarefa complexa é uma questão fundamental. Os tópicos atuais de interesse científico incluem explorar as diferenças entre leitores fluentes e indivíduos iletrados e analisar as consequências para pessoas com dificuldades de leitura, assim como investigar o impacto do baixo nível de iliteracia na democracia global.
A Complexidade por Trás do Hábito
Ler e escrever é algo que a maioria de nós considera natural. Pegar numa caneta para anotar algo ou usar o telemóvel para ler ou responder a uma mensagem de texto ou e-mail é algo em que não pensamos nem por um segundo. Ler e escrever são, no entanto, competências incrivelmente complexas — como nos esclarecem Falk Huettig, do Instituto Max Planck de Psicolinguística em Nijmegen, e os seus colegas Régine Kolinsky e Thomas Lachmann no prefácio de “The effects of literacy on cognition and brain functioning” (Os efeitos da literacia na cognição e no funcionamento cerebral), uma edição especial da revista Language, Cognition and Neuroscience. Para ler e escrever, o cérebro deve coordenar inúmeras funções perceptivas e cognitivas. Estas incluem, por exemplo, competências visuais básicas, percepção fonológica, memória de longo prazo e memória de trabalho. É por isso que são necessários anos de prática para que a leitura e a escrita se tornem tão profundamente enraizadas a ponto de serem fáceis. Aprender a ler e escrever, por sua vez, modifica a estrutura e a função do cérebro.
A investigação nesta área foca em duas questões fundamentais. Quais são as condições que é necessário estarem presentes para que sejamos capazes de aprender a ler e escrever? Como é que esta competência complexa afeta a nossa perceção e cognição? Para responder a estas perguntas, as comparações são particularmente úteis: por exemplo, observar as diferenças entre bons leitores adultos e adultos que nunca aprenderam a ler; ou a diferença entre crianças que aprendem a ler com facilidade e crianças que têm mais dificuldade com isso, ou que possam ter dislexia.
No caso da dislexia, em particular, é frequentemente difícil diferenciar se os déficits associados são causadores ou se ocorrem porque leitores de idade comparável treinaram essas competências cognitivas através da leitura. Há alguns anos, José Morais, da Universidade de Bruxelas, determinou que a leitura melhora significativamente a consciência fonológica (a capacidade de reconhecer estruturas sonoras específicas de uma língua). Pessoas com dislexia muitas vezes sentem dificuldade em distinguir essas estruturas. John F. Stein, da Universidade de Oxford, argumenta que isso é meramente um efeito colateral, e não a causa, das dificuldades de leitura.
O próprio Falk Huettig, juntamente com investigadores de Kaiserslautern e de Faro, em Portugal, identificou outros efeitos que são característicos da dislexia, mas que também são observados em pessoas iletradas. Estes efeitos incluem a perceção de categorias, a memória verbal de curto prazo, a capacidade de repetir pseudopalavras e a capacidade de nomear rapidamente imagens, cores e símbolos, ou de prever como é que frases faladas podem continuar. Mais uma vez, os investigadores interpretam estes défices como sendo o resultado de iliteracia ou da baixa capacidade de leitura, e não a sua causa.
Comparar indivíduos iletrados e leitores adultos evidencia repetidamente o quanto aprender a ler transforma os nossos cérebros. De acordo com um estudo de investigadores franceses e espanhóis, pessoas que não conseguem ou mal conseguem ler não sentem apenas uma maior dificuldade em analisar sequências de letras — elas apresentam dificuldades semelhantes no processamento de sequências de imagens. Um outro estudo realizado em Portugal revelou que pessoas iletradas também sentem mais dificuldade em distinguir a orientação de um objeto no espaço — por exemplo, um martelo representado diagonalmente, onde a cabeça e o cabo podem apontar para várias direções.
Leitores experientes podem apenas imaginar as desvantagens enfrentadas por aqueles que nunca tiveram a chance de aprender a ler e escrever. Uma área à qual se tem dado pouca atenção são os testes cognitivos usados por médicos para diagnosticar o estágio inicial de demência em idosos. A pesquisadora grega Mary H. Kosmidis ressalta que esses testes são projetados para pessoas letradas. As competências que eles avaliam são, frequentemente, treinadas pela leitura e pela escrita, e os resultados desses testes tendem a ser distorcidos (ou enviesados) quando aplicados em indivíduos iletrados . Na Europa, ainda existem muitos idosos, em particular, que não sabem ler nem escrever.
De acordo com os dados da UNESCO, o número de pessoas iletradas em nível global permanece em 15%. José Morais, da Universidade de Bruxelas, explica como isso impacta não apenas os próprios iletradas, mas a humanidade como um todo. Ele argumenta que os efeitos da alfabetização não terminam quando as crianças aprendem a ler, mas que ela possui efeitos profundos e duradouros na sua cognição e conhecimento. A capacidade de ler e escrever é essencial para a capacidade de analisar problemas complexos e para o fluxo de ideias e do pensamento crítico. Ela facilita o debate público fundamentado e a tomada de decisões coletivas sensatas. Quanto mais alfabetizadas as pessoas são, mais bem capacitadas elas estão para exercer controle sobre os assuntos públicos e contribuir para um governo genuinamente democrático.
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Publicação
Huettig, F., Kolinsky, R., & Lachmann, T. (2018). The culturally co-opted brain: How literacy affects the human mind. Language, Cognition and Neuroscience, 33(3), 275-277. doi:10.1080/23273798.2018.1425803 (ver aqui)
Nota de editor: este texto de Huettig, F., Kolinsky, R., & Lachmann será publicado amanhã.

