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Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (7/8): “Os Panfletos Não Nos Salvarão” por Valeria Villalobos Guízar

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

Hermen Hesse


Nota de editor:

Este décimo quinto texto da parte I – Morte da Cultura e o Regresso à Barbárie e ao Pensamento Mágico é composto por oito textos sujeitos ao tema Degradação Mental sem Fronteiras, do sítio The Bafler. Hoje publicamos o sétimo texto da autoria de Valeria Villalobos Guízar.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6 min de leitura

Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (7/8): Os Panfletos Não Nos Salvarão

 Por Valeria Villalobos Guízar

Publicado por  Baffler Symposium no. 81, em Novembro de 2025 (original aqui)

 

Fotografias de Kaya LeGrand e Max Brandstadt

 

Há alguns anos, após cancelar a minha conta no Instagram, iniciei uma experiência simples. Todas as vezes que vejo os meus amigos, pergunto o que aconteceu nas suas vidas desde a última vez que nos encontrámos. A pergunta geralmente apanha-os de surpresa; eles presumem que eu já sei, que “toda a gente sabe”. Eles esquecem — ou não conseguem bem compreender — que escolhi abandonar a rede social que usam diariamente para responder exatamente a essa pergunta. Quando lembrados disso, sacam dos seus smartphones para me mostrar as fotos que perdi. Mas insisto: antes de me mostrarem fotos ou vídeos, precisam de me contar o que aconteceu. Raramente o consigo sem me tornar incómoda. Na melhor das hipóteses, obtenho relatos fragmentados de momentos desconexos que consideram o auge dos últimos dias. A minha pergunta provoca às vezes desespero, como se ninguém tivesse tempo para contar histórias num mundo em que tudo o que vale a pena narrar já foi sempre “coberto” por um registo digital efémero que deixei de consumir.

Continuei a experiência no meu trabalho a ensinar literatura numa universidade privada no México. O meu curso faz parte do programa de literatura latino-americana, um dos poucos cursos universitários sobre o tema existentes no México. Infelizmente, o programa não é hoje muito popular. Numa universidade que este ano admitiu mil e oitocentos caloiros, dos quais cerca de duzentos se matricularam em cursos como arquitetura, o curso de literatura latino-americana conseguiu atrair apenas cinco a dez novos alunos.

Dez anos atrás, eu era estudante do programa onde hoje leciono. Mas as disciplinas disponíveis atualmente pouco se assemelham às que frequentei na altura. Em resposta ao declínio constante nas matrículas e às exigências dos candidatos por uma formação mais “prática” e voltada para o mercado de trabalho, o curso deslocou o seu foco dos estudos literários e da pesquisa e passou a abraçar cada vez mais a formação pré-profissional em edição, em roteiros para televisão e vídeos e escrita criativa. (Deixando de lado o facto de que ganhar a vida a escrever ou a editar é praticamente impossível no México de hoje, onde governos recentes esvaziaram o que já foi um robusto financiamento público para as artes, qualquer romancista, ou gestor de séries televisivas ou editor-chefe que se preze pode atestar que é impossível ter sucesso em qualquer dessas áreas sem antes ter dedicado a própria vida à leitura).

Expandir o alcance do programa é um esforço louvável por parte do Departamento de Literatura da minha universidade; no entanto, a natureza das exigências dos alunos é preocupante. Embora eu seja apenas dez ou doze anos mais velha do que os meus alunos, a distância entre nós parece maior do que uma mera diferença geracional. Porque é que jovens com um interesse aparente por livros já não conseguem compreender que o propósito de uma educação literária é aprender a ler com seriedade e rigor? Correndo todos os riscos associados à generalização, posso arriscar uma resposta rápida: eles foram criados com os aplicativos dos quais me afastei, programas de software que se tornaram parte tão integral do mundo deles que a vida não pode ser imaginada sem eles.

Em sala de aula com os meus alunos, a prática descrita acima que utilizo com os meus amigos, segue um protocolo diferente: antes de entrarmos na análise do texto designado, peço que resumam o que leram, recorrendo apenas às suas anotações e à memória. A cada semestre que passa, os estudantes parecem cada vez menos capazes de articular uma resposta minimamente satisfatória a esta questão. Alguns mal conseguem compor uma “história” no sentido que E. M. Forster descreve em “Aspectos do Romance”: uma simples sequência de eventos narrados em ordem cronológica (“O rei morreu, e depois a rainha morreu”). Após esforços hercúleos, uma pequena parte consegue esboçar um “enredo”, que, no esquema de Forster implica uma camada adicional de causalidade (“O rei morreu, e depois a rainha morreu de desgosto”). O silêncio constrangedor que se instala no início de cada aula não decorre da inefabilidade do texto ou das situações que ele retrata, mas da aparente falta de ferramentas dos alunos para voltarem a narrar o que leram, traduzi-lo para a sua própria linguagem e dar-lhe sentido, para além de uma sequência de factos áridos que talvez lhes bastasse para passar num exame do ensino médio — mas que revela uma incapacidade de compreender, para não dizer fruir, a complexidade linguística e a ambiguidade instigante que distinguem os sonetos de Sor Juana das legendas do Instagram de Rupi Kaur.

Entre os temas recorrentes nos comentários dos meus alunos sobre a experiência de leitura estão as queixas habituais associadas à crise da literacia de que tanto se fala hoje em dia. Muitas dessas queixas têm origem em aborrecimentos banais que todos nós já encontrámos enquanto leitores em algum momento — ainda que isso não as torne uma condição inevitável da própria leitura. Eles relatam as dificuldades em terminar 250 páginas numa única semana e pedem que eu, à semelhança de outros professores, considere reduzir a carga de leitura. Dizem que é difícil concentrarem-se, mesmo quando silenciam os telemóveis. Admitem que não conseguem evitar abandonar um livro ao primeiro sinal de tédio. É raro lerem mais de vinte minutos sem se distraírem a verificar as horas, a fazer scroll nas redes sociais, a pesquisar fotografias do autor e a entrada da Wikipédia sobre a cidade onde a história se passa, ou a procurar algum aspeto do livro que sentem necessidade de confirmar como facto ou ficção (os meus alunos têm frequentemente medo de “imaginar errado”). Por vezes, quando são incapazes de articular sequer porque é que as leituras são difíceis, procuram soluções estranhas. Um aluno mencionou procurar sítios mais silenciosos para ver se isso o ajudaria a “ler mais depressa.”

Esta última observação fez-me lembrar a época, há alguns anos, em que os cursos de leitura rápida para diferentes níveis de ensino se tornaram populares. Estes cursos, oferecidos tanto por profissionais independentes como em escolas ou universidades, eram anunciados em revistas, em cartazes e na rádio — na minha opinião, uma moda completamente ingénua. Melhorar na leitura tem pouco a ver com agilidade ocular ou com o cultivo da duvidosa capacidade de adivinhar a próxima palavra numa frase, à maneira de um modelo de linguagem de grande escala. Mesmo ao nível mais básico, a leitura exige paciência e o esforço mental necessário para induzir aquele peculiar tipo de sinestesia partilhada que nos permite transformar manchas de tinta em sons, imagens mentais e, por fim, espera-se, em ideias e sentimentos.

Não surpreende que os cursos que se propunham ensinar leitura rápida tenham desaparecido rapidamente do mercado. O conteúdo escrito das redes sociais e dos meios de comunicação tornou-se tão veloz que toda a leitura passou a ser leitura rápida: a palavra escrita, tal como a conhecíamos desde os tempos das tábuas de argila sumérias, foi substituída por textos multimodais com componentes visuais, sonoros e interativos, tornando o treino da leitura “linear” muito menos essencial.

As práticas de leitura rápida moldadas pela navegação digital passaram a dominar a sala de aula. Quando os meus alunos conseguem transmitir algo sobre o que leram, tendem a fragmentar o enredo em pedaços, oferecendo um breve resumo de cada capítulo com a frieza afetiva de uma sinopse da Netflix. Concentram-se nos acontecimentos principais e ignoram pequenos gestos, mas significativos; tendem a ser sensíveis às motivações das personagens, mas têm dificuldade em compreender que as pessoas são repletas de contradições, insistindo no tipo de congruência simplicista conhecida apenas pelos puristas de sentimentos que atuam na internet.

Que os meus alunos tenham tanta dificuldade para ler e narrar na era da informação instantânea, das notícias falsas e dos big data não me surpreende do ponto de vista académico (já li o meu Walter Benjamin). Mas se a literatura é “a melhor invenção já criada pelos seres humanos para se explorarem a si próprios”, como disse Juan Gabriel Vásquez, fico de coração partido ao testemunhar como recontar experiências de leitura se tornou tão difícil para os jovens. Isso diz-me que não é apenas uma crise de literacia, mas também de narrativa: os meus alunos (e os meus amigos) têm dificuldade em resumir o que leram ou viveram porque a superabundância de informação da nossa era atrofiou tão profundamente a imaginação.

Uma cura para esse mal parece bastante óbvia: ler mais literatura. O problema, no México pelo menos, é que os livros disponibilizados por muitas das editoras do país não ajudarão muito. Com frequência, os seus catálogos equivalem a tentativas condescendentes de bajular leitores acostumados a consumir informação à velocidade digital, com livros moldados para o gosto do utilizador. Um exemplo dessa tendência lamentável é o recente declínio do Fundo de Cultura Económica, a editora estatal. Fundada há noventa e um anos para fornecer a estudantes universitários e investigadores académicos edições de qualidade de textos canónicos a preços acessíveis — as primeiras ofertas incluíam a primeira tradução para o espanhol de “Ser e Tempo” e uma das primeiras edições não abreviadas de “O Capital” em espanhol — o Fundo acabou por expandir a sua missão para enriquecer o debate nacional, tornando a alta cultura acessível ao grande público. Nos últimos anos, porém, o Fundo tem sido criticado por abandonar o seu mandato de enriquecer a vida dos leitores mexicanos pela disponibilização de textos desafiadores, passando a publicar materiais que parecem imaginar um público de não leitores.

Em nenhum outro lugar a abdicação do Fundo do seu papel é mais claramente visível do que nos “Vientos del Pueblo”, uma coleção lançada pela editora estatal em 2019 que supostamente tem como objetivo promover a leitura. A série compreende mais de cem títulos de escritores que vão desde figuras canónicas como Tolstoi até autores contemporâneos como Alejandro Zambra, além de personagens da história mexicana como Benito Juárez, todos disponibilizados a preços notavelmente baixos: custam menos de um dólar americano cada. Isso soa ótimo, exceto que chamar aos “Vientos del Pueblo” uma coleção de “livros” seria impreciso — não apenas porque os seus títulos são folhetos frágeis presos por grampos, mas porque cada um desses livretos contém uma seleção aleatória de fragmentos retirados de diferentes obras, apresentados sem qualquer tipo de introdução ou notas que pudessem ajudar leitores jovens a aproximarem-se dos textos, a compreenderem o contexto dos seus autores ou a pensarem criticamente sobre o que leram.

Não há dúvida de que o Estado deve oferecer ao público uma seleção robusta de materiais de leitura de qualidade a preços acessíveis, especialmente em lugares como o México, onde o preço médio de um livro em 2024 (cerca de $14,40, segundo a Câmara Nacional da Indústria Editorial Mexicana) era quase equivalente ao salário mínimo diário ($14,90). Mas acreditar que simplesmente distribuir livros transformará as pessoas em leitores — como um colega me disse certa vez — é o mesmo que acreditar que distribuir patins transformará toda a gente em patinadores. A ideia de que a distribuição em massa garante acesso é ingénua. A decisão de publicar folhetos fragmentários sugere, além disso, que o Fundo agora opera sob a premissa de que os mexicanos da classe trabalhadora que talvez não possam pagar pelos livros vendidos a preços de mercado não serão capazes de ler um romance inteiro. Em vez de combater a crise da iliteracia, iniciativas como *Vientos del Pueblo* equivalem a uma rendição às forças perniciosas que tanto dano causaram à capacidade imaginativa dos mexicanos — a ponto de até estudantes de literatura terem dificuldade para narrar o que leram – ou, por essa razão, até narrar as suas próprias vidas.

 


A autora: Valeria Villalobos Guízar [1994 – ] escritora mexicana, é editora, guionista, ensaísta e professora de literatura. Foi diretora de edições da universidade Iberoamericana. Na universidade Iberoamericana é Professora da Licenciatura en Literatura Latinoamericana de la Ciudad de México, Professora titular de literatura Europea e Norteamericana do século XX e Professora titular do Seminario de investigação em Literatura Latinoamericana II. É licenciada em Línguas, Literaturas e Linguística hispânicas e latino-americanas. Mestre em Filosofía da História: Democracia e Ordem Mundial pela universidade Universidade Autónoma de Madrid.

 

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