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CONTOS – Por José Fernando Magalhães (4)

 

 

O MAR NÃO TEM FRONTEIRAS, MAS PORTUGAL TEM NOME

 

Na Praça dos Poveiros, no Porto, existe uma placa toponímica com o seu nome. Quem passa por ela não pára, na maioria das vezes. A placa também nada explica sobre a origem do nome. A cidade move-se à sua volta com a indiferença habitual dos lugares que têm demasiada história para a revelar toda de uma vez. Mas o nome está lá. E os nomes, quando são merecidos, têm uma resistência que o tempo não desgasta. Como as mãos dos pescadores, que o sal endurece em vez de corroer.

 

O cheiro a salgado nunca saiu das mãos de Manuel Maio. Nem quando as lavava, nem quando dormia, nem quando rezava, o que fazia com a regularidade das marés e a brevidade de quem sabe que Deus está sempre muito ocupado. Era um homem da Póvoa de Varzim, nascido nas Caxinas, o que naqueles tempos significava ser-se do mar antes de se ser de qualquer terra. Era ainda, dizia-se, um familiar do Ti Maio, o Cego do Maio, de quem herdara a coragem e a audácia.

Tinha partido para o Brasil em 1896, quando ainda era moço e o Atlântico lhe parecia uma promessa em vez de um perigo. A Póvoa e a Afurada ainda choravam os seus mortos. Cento e cinco pescadores, trinta e cinco desta e setenta daquela, engolidos pelo oceano numa só tarde de Fevereiro de 1892. Os que sobreviveram olharam para o mar com um misto de ódio e de amor que só os pescadores conhecem, e muitos decidiram procurar noutras águas o sustento que o Atlântico cobrava a preço de vida.

Manuel foi um deles.

Chegou ao Rio de Janeiro com uma muda de roupa, as mãos calosas e uma habilidade rara. Era valente e sabia pescar como poucos no mundo. Os poveiros dominaram a costa brasileira com a destreza de quem aprendera a ler o mar antes de aprender a ler as letras. Criaram a sua comunidade, fechada e orgulhosa, onde só os de casa entravam e onde a língua era sempre portuguesa, o pão era boroa e sêmea, e o santo padroeiro era o mesmo que tinham deixado na Póvoa.

Durante mais de vinte anos, Manuel pescou nas águas do Brasil. Pescava no alto mar, a mais de oitenta quilómetros de terra, e levava depois o pescado, para o vender, ao Mercado Municipal. Casou com Deolinda, uma poveira que chegara dois anos depois dele, filha de pescador como ele, com o mesmo cheiro a salgado nas mãos e a mesma saudade no olhar. Tiveram filhos que nasceram brasileiros mas foram criados portugueses. Em português se rezava, em português se discutia, em português se chorava e se ria e se amaldiçoava o tempo mau.

O Brasil era a sua vida. Portugal, a sua alma.

 

Em 1920, o mundo tinha mudado. A guerra grande terminara havia dois anos e os países recompunham-se como quem recolhe os cacos de uma terrina partida, tentando perceber para o que ainda pode servir. O Brasil, ainda numa juventude republicana de ambições crescentes, decidiu que as suas águas eram suas, e que quem nelas pescasse teria de ser brasileiro.

A lei de nacionalização da pesca chegou como uma tempestade que não foi anunciada. Os estrangeiros, teriam de se naturalizar, ou de abandonar os barcos. Ou eram brasileiros ou não pescavam.

 

Manuel Maio soube da lei numa manhã de Agosto, quando o calor na Baía de Guanabara era uma coisa física que se podia tocar. Leu o papel, ou antes, pediu a um colega que sabia ler que lho lesse, e ficou em silêncio durante um tempo que pareceu longo demais para uma decisão que, no fundo, já estava tomada antes de a pergunta ser feita.

– Então? perguntou Deolinda, que conhecia o silêncio do marido melhor do que ele próprio.

– Então voltamos, disse ele.

 

Não disse mais nada. Não precisou.

Deolinda foi tratar da organização dos dias que aí vinham e arrumar as malas, que na verdade não eram muitas, e Manuel foi falar com os outros. Foram de barracão em barracão, de conversa em conversa, naquela tarde de Agosto que cheirava a peixe e a decisão.

Havia os que hesitavam. Os que tinham filhos nascidos no Brasil e não sabiam bem onde ficava a fronteira entre um país e outro quando os filhos estavam no meio. Os que tinham enterrado os pais naquela terra e não queriam sentir que os abandonavam. Os que tinham medo, de voltar à pobreza, ao frio, ao mar do Norte que não perdoava.

Manuel ouviu tudo. E então disse, com a serenidade de quem não precisa de levantar a voz para ser ouvido:

– O Brasil deu-nos pão. Mas Portugal deu-nos nome. E o nome não se troca. Não havia argumento contra aquilo. Ou havia, mas nenhum que pudesse ser dito em voz alta entre pescadores poveiros, que tinham o orgulho cozido à pele como uma segunda camada mais resistente do que a primeira.

 

António, o filho mais velho, tinha dezassete anos e olhos que já não eram nem portugueses nem brasileiros. Nascera e crescera, como os seus irmãos, no Brasil, e havia nele essa divisão silenciosa, incutida pelos pais, de quem pertence a dois lugares e não pertence completamente a nenhum.

Foi ele quem perguntou, enquanto dobrava uma camisa com cuidado excessivo para quem estava prestes a perder quase tudo:

– Papá, e se eu não gostar de Portugal?

Manuel olhou para o filho durante um momento.

– Vais gostar – disse. – O mar é o mesmo.

A pequena Graça, que tinha sete anos e ainda não entendia bem o que era uma pátria, mas percebia tudo o que era importante, agarrou-se à perna da cadeira onde costumava sentar a gata que tinham deixado à vizinha, e disse que não queria ir.

– A Mimi fica – disse, com a lógica irrepreensível dos sete anos.

– A Mimi fica – confirmou Deolinda, com uma voz que não deixava perceber se estava a falar da gata ou de outra coisa qualquer.

O filho do meio, João, tinha doze anos e passara a tarde a dizer saudade em voz alta, repetidamente, como se estivesse a aprender uma palavra nova.

– Papá – chamou,

– No Brasil não há esta palavra?

– Não sei, – disse Manuel, pensativo.

– Por isso voltamos

 

O primeiro contingente chegou a Lisboa em 30 de Outubro de 1920. Duzentos e cinquenta homens, mulheres e crianças, descendo do transatlântico com o pouco que tinham e o muito que eram. Rostos tisnados pelo sol do Brasil, mãos marcadas pelo sal de duas costas, olhos que tinham visto o oceano de ambos os lados e preferiam este.

A 4 de Novembro a Academia do Porto vai em massa esperar em S. Bento os pescadores poveiros que tinham desembarcado em Lisboa, e preferiram abandonar o Brasil a deixar de ser portugueses. O atraso de horas levou a manifestação a deixar a estação e ir ao Governo Civil, onde José Ferreira e Lucílio da Fonseca enalteceram os pescadores poveiros em nome dos manifestantes. Dispersa a manifestação, alguns centos foram a S. Bento, onde, às 2h da manhã, chegaram os poveiros, oferecendo-lhes uma artística barca em flores, com rede de pesca e a legenda “Aos nossos poveiros, paradigma do patriotismo”

Uma semana depois do primeiro contingente, a 5 de Novembro, outro grupo, trezentas e duas pessoas, desembarcava em Leixões, enquanto um terceiro grupo de cerca de quatrocentas pessoas partira já do Rio de Janeiro. Manuel Maio vinha neste segundo contingente. Enquanto o navio entrava na barra, ele estava no convés, de pé, com as mãos agarradas ao corrimão de ferro, a olhar para a costa com uma expressão que Deolinda, ao seu lado, não sabia ao certo se era alegria ou dor, e que provavelmente era as duas coisas ao mesmo tempo.

O Porto estava frio naquele Novembro. Um frio húmido que entrava pelos ossos com a familiaridade de uma coisa antiga e conhecida. Manuel respirou fundo e sentiu, pela primeira vez em vinte e quatro anos, que o ar tinha o cheiro certo.

Foram recebidos como heróis.

Não eram heróis. Eram pescadores pobres que tinham feito a única coisa que sabiam fazer. Escolher. E tinham escolhido com a mesma simplicidade com que escolhiam as redes, pelas que eram mais resistentes, pelas que duravam mais, e pelas que não rompiam quando o peso era maior.

 

Na cidade do Porto, o Dr. Vasco Nogueira de Oliveira levantou-se numa sessão da Câmara Municipal e propôs que o antigo largo de Santo André passasse a chamar-se Largo dos Poveiros. Era o dia 20 de Novembro de 1920, menos de três semanas depois do primeiro desembarque em Lisboa.

A proposta foi aprovada.

Não havia naquele gesto grandiosidade de império nem pompa de estado. Era apenas uma cidade a dizer, à sua maneira sóbria e nortenha, que tinha visto e que não esquecia. Que havia gente que tinha preferido voltar pobre a ficar rico com outro nome. Que isso merecia ser lembrado numa pedra, numa placa, num nome de lugar que os filhos e os netos leriam sem saber ao certo o que significava, até que alguém lhes contasse.

 

Manuel Maio não chegou a saber que havia um largo com o nome dos seus. Era homem de mar e de porto, de barco e de rede, de madrugada e de entardecer sobre as águas.

O que sabia era outra coisa, e sabia-o sem palavras. Sabia que tinha dormido, durante vinte e quatro anos, num país que não era o seu, e que isso nunca o tinha feito sentir-se em casa, não porque o Brasil fosse um lugar mau, mas porque a casa não é o lugar onde se dorme. É o lugar onde o cheiro do ar é o certo.

E o cheiro do ar da Póvoa de Varzim, sal e vento e pedra húmida e boroa no forno, era o único cheiro que, quando o sentia, lhe punha as lágrimas nos olhos sem que soubesse ao certo porquê.

Deolinda sabia porquê. Mas não dizia. Não era preciso. Nunca fora.

Não se explicava. Existia. E era suficiente.

 

 

 

 

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