Um texto produzido a partir de uma peça irónica atribuída a Philip Stephens
Júlio Marques Mota
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Saiu numa edição do Financial Times (talvez o maior jornal sobre economia e finanças do Mundo).
Uma mulher jovem enviou um e-mail para o jornal a pedir dicas sobre “como arranjar um marido rico”.
Contudo, mais inacreditável que o “pedido” da rapariga, foi a resposta do editor do jornal que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada, isto, respondeu de acordo com a terminologia desse estranho universo, o mundo financeiro, que a quase todos nos consome.
E-mail da rapariga:
“Sou uma rapariga linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Quero casar-me com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano. Há algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que me possa dar algumas dicas? Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não me vão permitir morar em Central Park West. Conheço uma mulher (do meu grupo de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente, sequer. Então, o que é que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correcta? Como é que posso chegar ao nível dela?”
(Rafaela S.)
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Resposta do editor do jornal:
“Li a sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou a tomar o seu tempo à toa, pois respeito o constrangimento de partida…
Posto isto, considero os factos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que procura), o que oferece é simplesmente um péssimo negócio.
Eis o porquê: deixando o convencionalismo de lado, o que sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas: Você entra com a beleza física e eu entro com o dinheiro como contraparte.
Mas há um problema.
Com toda a certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará a aumentar.
Assim, em termos económicos, a senhora é um activo que sofre depreciação, como a dívida pública de quase todos os países sob a égide de Durão Barroso, do seu bando, Draghi, Rompuy, Juncker, além de Merkle e FMI, enquanto eu sou um activo que obtém dividendos. A senhora não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, uma depreciação que por unidade tempo, o ano por exemplo, está sempre a aumentar!
Explicando-me melhor, a senhora tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos em cada ano relativamente ao ano anterior. E no futuro, quando se comparar com uma fotografia de hoje, verá que se transformou num caco de valor comercial nulo, então.
Isto é, hoje a senhora está em ‘alta’, na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.
Usando a terminologia de Wall Street, quem a tiver hoje deve mantê-la como ‘trading position’ (posição para poder vender imediatamente) e não como ‘buy and hold’ (posição para comprar e manter) que é para o que você se está a oferecer, com a proposta de casamento…
Portanto, ainda em termos financeiros, casar (“buy and hold “ ou seja, comprar e manter) consigo não é um bom negócio a médio/longo prazo!
Adicionalmente temos uma outra complicação. Como sabe os bens de investimentos estão sujeitos a um outro fenómeno de depreciação, a chamada usura moral do capital. E que significa esta usura? Simples, muito simples. Uma máquina pode estar em muito bom estado mas eis que de repente surge uma outra máquina que produz a mesma coisa com os menores custos ou produz bastante mais com os meus custos baixando, de uma maneira ou de outra, os custos unitários. Desvaloriza a primeira máquina que estava em bom estado e que assim passa ao estado de produto sem valor, passa à situação de produto tóxico, como a dívida grega, como a dívida da banca espanhola, como a dívida pública portuguesa, espanhola, italiana e em breve como a dívida pública francesa, também. Ora a crise que está a arrasar a Europa é a situação simétrica do crescimento e do progresso técnico com lógicas e dinâmicas equivalentes, embora simétricas. O quadro de valores em que a senhora se insere é exactamente o quadro da crise. Ora o progresso técnico faz aparecer novas máquinas, novos produtos, ora a crise faz aparecer também ela “novos produtos”, os produtos da crise que se expande, e assim é de esperar que muitas mais mulheres se proponham no mercado a valores bem mais baixos que o seu. Propostas vindas de Portugal, de Espanha, da Irlanda, da Grécia, da Itália, de Chipre, da França muito rapidamente, serão pois aos milhares e o seu valor, o seu, minha senhora, esse virá, pela referida usura moral, a cair em flecha. A senhora sai assim depreciada por lógicas que lhe serão estranhas mas que são o que são. Reduzida a produto tóxico!
Mas minha senhora, um mal nunca vem só. Os dois mecanismos, a usura física e a usura moral, interagem e provocam os fenómenos de overshooting, de sobre-reacção, em que a usura física faz aumentar a usura moral e em que a usura moral pelos seus efeitos nefastos faz aumentar a usura física e assim sucessivamente até ao valor de mercado a tender para zero a que a senhora está condenada. E pela sobre-reacção, isso acontecerá muito rapidamente
Tudo isto a lembrar os trabalhos do economista Rudiger “Rudi” Dornbusch, durante muito o economista-chefe do FMI, a lembrar o seu “currency board”, o directório da política monetária e cambial, a lembrar a política suicida praticada pelo FMI na Argentina, com o valor do peso estabelecido e imposto na Constituição, na Argentina, antigo celeiro do mundo, antigo talho do mundo e onde em 2001 morriam em média 100 pessoas por dia devido à fome devido às políticas conduzidas pelo FMI. Tal como agora, minha senhora, como agora se nos impõe a partir de Berlim o valor do défice na Constituição de cada Estado-membro da União Monetária Europeia, a famosa regra do travão da dívida. A reduzir aa zero as funções do Estado e com a precariedade e a fome a aumentar, numa brutal espiral ascendente e por isso premiada com o Prémio Nobel! Com tudo isto, a fazer-nos lembrar a política suicida agora seguida neste nosso velho continente, a reduzir a lixo económico esta Europa assim martirizada por um outro directório, o bando dos quatro acima referido.
Uma outra hipótese é alugá-la, isso sim ou mesmo aqui, apenas talvez !
Assim, em termos sociais, um negócio razoável a ponderar é, namorar.
Sem ponderar… Mas, já a ponderar e, para me certificar do quão “articulada” , com classe e maravilhosamente linda’ a senhora é, eu, na condição de provável futuro locatário dessa “máquina”, quero tão-somente o que é de praxe: fazer um ‘test drive’ antes de fechar o negócio… do aluguer, da posse transitória. Aqui fica equiparada não aos títulos que outrora eram de investimento transmissíveis de geração em geração mas aos títulos de agora…E agora, estes duram o tempo de um rumor que os mercados diariamente fabricam . A duração de um dia ou mesmo de uns instantes, com a rapidez de um jacto. Diariamente, esse é agora o tempo de mercado em crise e às vezes é bem menos que isso como lhe posso confirmar. Sabendo isso, podemos marcar?
Mas deixe-me dizer-lhe, minha senhora, que os dois fenómenos ligados, as duas usuras e tendo a crise como pano de fundo, tornam proibitivo, inclusive, a segurança possível que um CDS nos poderia dar. Mas não confunda este produto financeiro com um qualquer partido porque nessa confusão se houvesse transparência os submarinos consigo ao fundo iriam. Não, não, não falo dos partidos, falo dessas espécies de apólice de seguro que, perversão das perversões, em que eu me poderia segurar contra aquilo que ardentemente desejo que possa acontecer. Um exemplo para perceber o que quero dizer minha senhora. Imagine o banco onde um homem de nome António Borges trabalhou. Num banco? Qual? Necessariamente, com aquela estirpe moral de quem ganha mais de 200 mil por ano já livre de impostos e em Portugal defende os salários de fome, só poderia trabalhar no Goldman Sachs e no lugar de vice-presidente. Imagine então um outro vice-presidente do Goldman Sachs e da mesma estirpe, Fabrice Tourre de seu nome. Compra hipotecas sem valor à Goldman Sachs, inventam uma empresa, Abaccus, emitem títulos, CDO’s, os títulos que tinham como garantia os rendimentos dessa hipotecas sem valor, recebem o dinheiro com que pagam as hipotecas compradas à Goldman Sachs ao seu valor nominal. Propagam que o Goldman Sachs compra e na verdade compra alguns títulos…para vender também e imediatamente, como eu o poderia fazer consigo, minha senhora. Mas mais, vendem a descoberto muito mais títulos que na verdade não têm e arrasam os preços, como os novos “produtos” que aparecerão concorrentes consigo degradam o seu valor, minha senhora. Mas isto é pouco, porque antes de arrasarem os preços seguram os títulos numa AIG qualquer , contra a descida de valor. Como vê, seguram-se antes contra a descida do valor, descida que vão a seguir provocar!
Mas, minha senhora. estes títulos eram então seguráveis enquanto a sua beleza, hoje e nestes tempos de crise, claramente já o não é. Segurar por um dia, por uma ou duas horas, criar o rumor e voltar a vender o CDS em que a poderia inscrever sairia hoje caríssimo . Um dia ou uma a duas horas, um investimento possível. Apenas alugável, portanto. Se quiser, pense nisso.
Mas deixe-me dizer-lhe, minha senhora, o nome over-shooting, sobre-reacção, faz-me lembrar uma outra palavra, a palavra REVOLUÇÂO., faz-me lembrar um outro mundo que não aquele em que a senhora se inscreve, que não aquele que o bando dos quatro da Europa ou da China nos querem oferecer. E se em vez de andar a pensar neste tipo de contrato que me propõe pensássemos todos nós neste outro projecto, neste enorme contrato colectivo que seria recriar a Europa que muitos pensadores com as suas utopias conceberam há já muito tempo, a partir de 1789, possivelmente . Que acha, que acham?
