O OCIDENTE É O AUTOR DA SUA PRÓPRIA FRAQUEZA, por PHILIP STEPHENS

 

The west is the author of its own weakness, por Philip Stephens

Finantial Times, 30 de Setembro de 2021

Blogue gonzaloraffoinfonews, Outubro de 2021

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A China representa uma ameaça para a ordem liberal global, mas o maior perigo reside no descrédito da democracia

Chame-lhe a era do otimismo.

Há vinte e cinco anos, quando esta coluna surgiu pela primeira vez, o mundo pertencia ao liberalismo.

O comunismo soviético tinha entrado em colapso, os EUA reivindicavam um momento unipolar, e a China tinha aderido à economia de mercado. A integração europeia tinha banido os demónios do nacionalismo.

O Reino Unido seria rapidamente apelidado de “Cool Britannia”.

Não era preciso pensar que as rodas da história tinham parado de girar para julgar que o século XXI seria moldado à imagem do avanço da democracia e de uma ordem económica liberal.

Os decisores políticos de hoje lutam com um mundo moldado por uma esperada colisão entre os EUA e a China, por uma disputa entre democracia e autoritarismo e pelo choque entre globalização e nacionalismo. A Grã-Bretanha é novamente o homem doente da Europa.

Se isto parecer insuficientemente sombrio, pode-se acrescentar a ameaça existencial do aquecimento global provocado pelo homem.

A explicação fácil é que o Ocidente caiu vítima, durante os anos 90, de uma ingenuidade sem remédio .

A vitória na guerra fria subiu-lhe à cabeça. Os padrões de vida estavam em alta.

Ainda era possível, pré-Facebook, imaginar a Internet como uma comunidade global e uma coisa boa.

Em  todo o  caso, é o instinto humano de projetar o presente para o futuro.

Será que a história não nada em linhas retas?

A Europa não foi inocente a este respeito.

Os internacionalistas liberais do continente fizeram causa comum com os neoconservadores americanos na promoção de uma grande missão democratizadora.

A América tinha armas, mas a UE tinha o seu próprio poder “normativo”.

Grandes extensões do mundo  eram vistas como sendo no futuro,  bem, zonas europeias.

O grande desenrolar da situação, desde então, tem visto a ordem pós guerra fria liderada pelos EUA dar origem a um regresso a uma grande rivalidade de poder, aos populistas de extrema-direita e de extrema-esquerda que empunharam a bandeira do nacionalismo contra a integração europeia, e uma luta mercantilista pela soberania económica nacional.

Numa era de “homens fortes” autoritários, encabeçados pelo chinês Xi Jinping e pelo russo Vladimir Putin, a democracia está numa posição  defensiva.

E agora os decisores políticos ocidentais arriscam outro grande erro ao identificar a China como o desafio mais premente para o ancien regime  

Os EUA e os seus aliados, segundo nos dizem, devem concentrar as suas energias em reunir os seus recursos para afastar a ameaça.

O que precisamos é de mais submarinos no Mar do Sul da China.

Tendo em conta a beligerância de Pequim, o argumento é cativante.

É também uma atividade de deslocação, uma desculpa para não admitir o que realmente aconteceu desde os anos 90.

Sim, a China cresceu a um ritmo muito mais rápido do que quase todos imaginavam.

Mas a explicação para o enfraquecimento das democracias ocidentais reside em grande parte no Ocidente.

As guerras escolhidas da América no Afeganistão e no Iraque fazem parte da história.

Foram concebidas como uma demonstração salutar do poder dos EUA.

Em vez disso, estes conflitos extremamente dispendiosos e impopulares serviram para delinear os limites da Pax Americana.

A única superpotência no mundo prometeu refazer o Médio Oriente.

Em vez disso, como vimos no mês passado na queda de Cabul, Washington foi forçada a a acabar com a guerra e a fugir.

O resto do mundo repara nestas coisas.

O fracasso no Médio Oriente, no entanto, é insignificante contra os danos infligidos pelo colapso financeiro global de 2008.

Os historiadores registarão o crash como um acontecimento geopolítico tão importante quanto económico – o momento em que as democracias ocidentais sofreram um golpe potencialmente letal.

O fracasso da economia do laissez-faire era visível antes do colapso do Lehman Brothers.

Os rendimentos dos não tão bem-beneficiados com a globalização tinham estado há muito estagnados sob a pressão do avanço tecnológico e da abertura dos mercados.

Era óbvio, também, que as ganhos resultantes da globalização estavam a ser colhidas pelos ricos e super-ricos.

O crash, porém, cristalizou o que se tinha tornado, de facto, um abalo elaborado.

Aqueles que procuram uma explicação para a vitória presidencial de Donald Trump, para o voto Brexit britânico, ou para as insurreições populistas em toda a Europa não precisam de ir mais longe.

Os excessos da indústria dos serviços financeiros e a decisão dos governos de amontoar os custos da crise para as classes trabalhadoras e médias baixas atingiram o próprio cerne da legitimidade democrática.

O que Trump compreendeu, tal como os populistas noutros locais, é que o respeito dos eleitores pela política estabelecida está enraizado em acordos.

A fé pública na democracia – no Estado de direito e nas instituições do Estado – assenta na perceção de que o sistema, pelo menos, acena com a cabeça a dizer sim quanto á justiça.

Houve reformas para esse fim desde o colapso financeiro de 2008, mas pouco sugere que elas sejam suficientes.

Não havia nada de errado com a ambição dos otimistas do pós-guerra fria.

Continua a ser difícil ver como o mundo pode trabalhar sem uma democracia liberal e um sistema internacional baseado em regras.

O que os otimistas não viram nessa altura, e os observadores da China ignoram agora, é a perda de confiança na democracia em casa.

Evidentemente, a China é uma ameaça potencial.

Um segundo mandato presidencial para Trump seria muito mais perigoso.

Pode ser que a história conclua que o otimismo excessivo dos anos 90 está hoje a ser reflectido num excesso de pessimismo.

Esta é uma ideia que tenciono deixar para outros.

Para um comentador político, 25 anos na mesma onda é tempo mais que suficiente.

Portanto, esta é a minha última coluna no Financial Times.

Continuarei a escrever de tempos a tempos como editor contribuinte da FT, mas de resto tenciono ir em busca de uma melhor compreensão, digamos, da história.


Pode ler este texto no original clicando em:

The west is the author of its own weakness | Financial Times (ft.com)

Gonzalo Raffo InfoNews: THE WEST IS THE AUTHOR OF ITS OWN WEAKNESS / THE FINANCIAL TIMES OP EDITORIAL

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