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REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A magia negra do Eurosistema

Publicado por Agora Vox, assinado por Noé.

19 DE FEVEREIRO DE 2013

Parte II

(conclusão) 

Assim, encontramo-nos numa situação semelhante à da União Soviética, em que o banco central russo cria moeda em função das  necessidades de moeda de crédito, sendo  estas necessidades  expressas pelos bancos centrais das repúblicas periféricas, com base nas suas estimativas macroeconómicas dos  fluxos de trocas e de pagamentos  entre as repúblicas compondo a URSS, cuja especialização económica era decidida pelos organismos de planeamento centrais quaisquer que fossem as consequências sociais desta distribuição de papéis entre regiões especializadas nas produções de forte valor acrescentado e as que herdavam  especializações menos nobres, como o turismo ou as indústrias extractivas, por exemplo. Naturalmente quando a URSS foi desmantelada, os países cujo trabalho era relativamente subutilizado encontraram-se perante  uma hiperinflação que exigia  a desvalorização da sua nova  moeda que tinha   sucedido ao ao antigo rublo cuja emissão tinha sido parada pelo banco central russo.

A zona euro tem tido  fricções  crescentes  entre os países  estruturalmente excedentários   e  os seus países  vizinhos estruturalmente deficitários  que não sabem como sair de uma situação de desemprego endémico que  já não vem compensar o aumento artificial dos preços dos activos (veja-se a bolha imobiliária) e a criação de empregos públicos. Os jovens são então convidados a tomar o caminho do  êxodo,  seguindo o rasto   do capital produtivo transferido  para os países emergentes e em que estes   reproduzem os mesmos padrões de desenvolvimento  que na Europa, mas com um potencial mais promissor em termos de procura,  potencial  este que é exactamente dinamizado através do crédito bancário e com a  estandardização   das formações tal como os   comportamentos dos consumidores  entre os países harmonizados  pela  aplicação da governação económica e social comum.

Para sair deste círculo vicioso, é imperativo parar de imprimir dinheiro do BCE, que desempenha aqui o papel de refinanciador  de  última instância, apesar e  contrariamente às disposições dos Tratados europeus,  ao manter-se  artificialmente a posição dominante dos exportadores dos países do norte da Europa, cuja procura  é subsidiada nos países do Sul estruturalmente deficitários, por não terem  sido capazes  de manter as suas actividades produtivas de riqueza outras que não a riqueza financeira. Como o acentua Charles Gave, não se pode compensar a fuga de capitais produtivos pela  injecção  massiva   de capitais especulativos, que vêm alimentar as   bolhas financeiras em benefício dos agentes com a função pura e simples de “rentier” , de apropriação de riqueza criada, assim como em benefício  dos bancos privados e claramente, portanto,  à custa da classe trabalhadora e das classes médias privadas dos seus instrumentos   de trabalho   bem como  à custa também dos empresários esmagados  pelas políticas de rigor orçamental exigidas  para o  reembolso da dívida pública.

O  restabelecimento do valor dos activos nacionais necessita de reconstituir  a base produtiva e de desfinanceirizar   a economia, privando os bancos de seu monopólio sobre a criação de dinheiro,  feita esta sob a forma de empréstimos a juros   com base no princípio das “reservas fraccionárias”.  As grandes empresas começaram a construir este caminho  ao criarem o  seu próprio banco, quando os institucionais da  finança  já  não podiam   responder à procura da emissão  de meios de  financiamento, na forma de créditos ou instrumentos de tesouraria. O Estado deveria retomar o seu privilégio de emissão monetária e deveria retomá-lo  emitindo moeda  em função  das necessidades  correspondentes  ao pleno emprego da  sua  população posta a trabalhar pelo  financiamento de projectos produtivos e em função igualmente da libertação das forças vivas  face à  pressão fiscal  de um Estado que perpetua a sua dívida em vez de estar a diminui-la  através do corte  das suas despesas públicas e do aumento da sua riqueza criada. Actualmente a moeda emitida pelos bancos serve para financiar  as despesas  em grande parte improdutivas do Estado, tais como o pagamento de funcionários,  cujos efectivos  se tornaram tão excessivos que eles   atingem na França  metade da população activa. A escolha da sociedade consistindo  em privilegiar  o financiamento da função pública e da dívida em detrimento dos empresários e das actividades produtivas é  a prazo   completamente suicida , mesmo se  a circulação de  capitais entre as zonas económicas pela duplicação dos mercados servidos por activos globalizados  pode durante algum tempo  manter a ilusão de que a ociosidade de alguns  poderia ser mantida pelo trabalho dos outros sub-remunerados, o que se faria  com a complacência gananciosa dos banqueiros  a ganharem  em todas as frentes,  desde que se trate de  transformar  a riqueza privada em  títulos de dívida transferíveis   como meios  de financiamento.

Os pequenos retoques sucessivamente feitos na regulação bancária é uma magra compensação  para essa falta de reformas estruturais que deveriam fazer frente  e atacar pela  raiz o mal económico e social  que está a minar as sociedades europeias, mesmo se a vaidade do regulador é lisonjeada pelo  recurso às  suas competências de  banqueiro de que ele é o único a dominar a linguagem hermética. Os múltiplos  escândalos recentes, tais como  como aquele da fixação da taxa LIBOR, Euribor, Tibor, pelo cartel dos bancos comerciais, novamente evidenciaram a existência de circuitos paralelos de financiamento que servem aos  bancos para gerar recursos financeiros que garantam a permanência do seu sistema de financiamento da economia. Face à  desintegração da função de intermediação dos bancos, é imperativo para as forças vivas da nação que se retome o controle dos meios de financiamento que de forma muito ligeira ou ingénua  se abandonaram  nas mãos de financeiros apoiados por políticos que praticam uma política de rapina que só pode levar à pobreza e à alienação social por falta de  meios necessários para que a pessoa  humana reencontre a sua dignidade no domínio do seu destino.

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