Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A magia negra do Eurosistema
Publicado por Agora Vox, assinado por Noé.
19 DE FEVEREIRO DE 2013
Parte II
(conclusão)
Assim, encontramo-nos numa situação semelhante à da União Soviética, em que o banco central russo cria moeda em função das necessidades de moeda de crédito, sendo estas necessidades expressas pelos bancos centrais das repúblicas periféricas, com base nas suas estimativas macroeconómicas dos fluxos de trocas e de pagamentos entre as repúblicas compondo a URSS, cuja especialização económica era decidida pelos organismos de planeamento centrais quaisquer que fossem as consequências sociais desta distribuição de papéis entre regiões especializadas nas produções de forte valor acrescentado e as que herdavam especializações menos nobres, como o turismo ou as indústrias extractivas, por exemplo. Naturalmente quando a URSS foi desmantelada, os países cujo trabalho era relativamente subutilizado encontraram-se perante uma hiperinflação que exigia a desvalorização da sua nova moeda que tinha sucedido ao ao antigo rublo cuja emissão tinha sido parada pelo banco central russo.
A zona euro tem tido fricções crescentes entre os países estruturalmente excedentários e os seus países vizinhos estruturalmente deficitários que não sabem como sair de uma situação de desemprego endémico que já não vem compensar o aumento artificial dos preços dos activos (veja-se a bolha imobiliária) e a criação de empregos públicos. Os jovens são então convidados a tomar o caminho do êxodo, seguindo o rasto do capital produtivo transferido para os países emergentes e em que estes reproduzem os mesmos padrões de desenvolvimento que na Europa, mas com um potencial mais promissor em termos de procura, potencial este que é exactamente dinamizado através do crédito bancário e com a estandardização das formações tal como os comportamentos dos consumidores entre os países harmonizados pela aplicação da governação económica e social comum.
Para sair deste círculo vicioso, é imperativo parar de imprimir dinheiro do BCE, que desempenha aqui o papel de refinanciador de última instância, apesar e contrariamente às disposições dos Tratados europeus, ao manter-se artificialmente a posição dominante dos exportadores dos países do norte da Europa, cuja procura é subsidiada nos países do Sul estruturalmente deficitários, por não terem sido capazes de manter as suas actividades produtivas de riqueza outras que não a riqueza financeira. Como o acentua Charles Gave, não se pode compensar a fuga de capitais produtivos pela injecção massiva de capitais especulativos, que vêm alimentar as bolhas financeiras em benefício dos agentes com a função pura e simples de “rentier” , de apropriação de riqueza criada, assim como em benefício dos bancos privados e claramente, portanto, à custa da classe trabalhadora e das classes médias privadas dos seus instrumentos de trabalho bem como à custa também dos empresários esmagados pelas políticas de rigor orçamental exigidas para o reembolso da dívida pública.
O restabelecimento do valor dos activos nacionais necessita de reconstituir a base produtiva e de desfinanceirizar a economia, privando os bancos de seu monopólio sobre a criação de dinheiro, feita esta sob a forma de empréstimos a juros com base no princípio das “reservas fraccionárias”. As grandes empresas começaram a construir este caminho ao criarem o seu próprio banco, quando os institucionais da finança já não podiam responder à procura da emissão de meios de financiamento, na forma de créditos ou instrumentos de tesouraria. O Estado deveria retomar o seu privilégio de emissão monetária e deveria retomá-lo emitindo moeda em função das necessidades correspondentes ao pleno emprego da sua população posta a trabalhar pelo financiamento de projectos produtivos e em função igualmente da libertação das forças vivas face à pressão fiscal de um Estado que perpetua a sua dívida em vez de estar a diminui-la através do corte das suas despesas públicas e do aumento da sua riqueza criada. Actualmente a moeda emitida pelos bancos serve para financiar as despesas em grande parte improdutivas do Estado, tais como o pagamento de funcionários, cujos efectivos se tornaram tão excessivos que eles atingem na França metade da população activa. A escolha da sociedade consistindo em privilegiar o financiamento da função pública e da dívida em detrimento dos empresários e das actividades produtivas é a prazo completamente suicida , mesmo se a circulação de capitais entre as zonas económicas pela duplicação dos mercados servidos por activos globalizados pode durante algum tempo manter a ilusão de que a ociosidade de alguns poderia ser mantida pelo trabalho dos outros sub-remunerados, o que se faria com a complacência gananciosa dos banqueiros a ganharem em todas as frentes, desde que se trate de transformar a riqueza privada em títulos de dívida transferíveis como meios de financiamento.
Os pequenos retoques sucessivamente feitos na regulação bancária é uma magra compensação para essa falta de reformas estruturais que deveriam fazer frente e atacar pela raiz o mal económico e social que está a minar as sociedades europeias, mesmo se a vaidade do regulador é lisonjeada pelo recurso às suas competências de banqueiro de que ele é o único a dominar a linguagem hermética. Os múltiplos escândalos recentes, tais como como aquele da fixação da taxa LIBOR, Euribor, Tibor, pelo cartel dos bancos comerciais, novamente evidenciaram a existência de circuitos paralelos de financiamento que servem aos bancos para gerar recursos financeiros que garantam a permanência do seu sistema de financiamento da economia. Face à desintegração da função de intermediação dos bancos, é imperativo para as forças vivas da nação que se retome o controle dos meios de financiamento que de forma muito ligeira ou ingénua se abandonaram nas mãos de financeiros apoiados por políticos que praticam uma política de rapina que só pode levar à pobreza e à alienação social por falta de meios necessários para que a pessoa humana reencontre a sua dignidade no domínio do seu destino.

