SOBRE A BOMBA DE NEUTRÕES FABRICADA EM BRUXELAS E ALGURES E JÁ PRONTA PARA DISPARAR SOBRE TODA A ZONA EURO – VI

Por Júlio Marques Mota

(continuação)

Porque é que os saldos no euro-sistema têm aumentado?

A razão para este aumento deve-se a que a saída de fundos de países periféricos se tem tornado muito maior do que as entradas de  capital privado. Antes da crise financeira os bancos na periferia tinha um fácil acesso aos capitais privados. Eles receberam financiamento vindo do exterior – na forma de empréstimos interbancários, investimentos directos etc – para financiar as importações e os pagamentos entre os países. Estes afluxos de fundos compensavam as saídas respectivas e ajudaram  os bancos nacionais centrais a manterem um equilíbrio no euro-sistema que poderemos considerar de neutro.

Mas, como uma consequência da crise financeira, a moeda privada não está a fluir para estes países à mesma taxa. O mercado interbancário é disfuncional, os empréstimos entre os países desceram  os depósitos estão a fluir para  fora dos países em crise.

Isso é o que as figuras 3 e 4 nos mostram: os empréstimos dos bancos alemães para com os bancos dos  outros países da área do euro diminuíram  significativamente, enquanto a crise da dívida levou a saídas maciças de depósitos da periferia para o centro. Ao mesmo tempo, os países que se mantêm deficitários na sua conta corrente e os seus bancos têm de pagar os empréstimos ainda em curso. Como resultado, essas saídas líquidas de capital  são então liquidadas através da posição que assume o banco central europeu face ao correspondente banco central nacional apresentado no euro-sistema pelo Target 2, ou seja, pelos  passivos destes últimos , enquanto os países que recebem os fluxos (por exemplo, a Alemanha) mostra face ao Banco Central Europeu  uma posição credora  correspondente  apresentada pelo Target 2.

Devido à fuga de  liquidez dos bancos na periferia, o BCE entrou em cena e a  fornecer  liquidez, sob a forma de ilimitado financiamento aos bancos contra a entrega de colateral, a garantia – ou seja, através das principais operações de  refinanciamento de curto prazo, (MRO – Main Refinancing Operation)  e das operações de refinanciamento a longo prazo, as LTRO.

Por esta razão os balanços dos bancos centrais nacionais  mostram um aumento de responsabilidades no sistema TARGET2 face ao BCE, geralmente também apresentam um acréscimo de provisões de liquidez através de operações de empréstimo no lado activo. O BCE interveio para desempenhar o papel de refinanciador de liquidez, quando aparece como limitado o fluxo de fundos privados a entrarem nos países em crise e aumenta assim no sistema TARGET2 os passivos a reflectirem ou melhor a serem a consequência deste facto.

A medida em que TARGET2 reflecte estes desequilíbrios nas  necessidades de liquidez na área do euro é demonstrado pela figura 5. Com ela se mostra as operações de refinanciamento (MRO e LTRO) no balanço do Bundesbank e dos bancos centrais nacionais das cinco economias periféricas.

Os desequilíbrios no euro-sistema TARGET2 têm-se estado a tornar  cada vez mais evidentes durante a crise de 2008-2009, quando a Alemanha e a periferia precisaram de liquidez, mas depois de 2010, quando as necessidades de liquidez na Alemanha caíram acentuadamente e em que as necessidades da periferia em liquidez do Banco central continuaram a aumentar. Isso é mostrado claramente na figura  6 em  que a diferença entre o valor das operações de refinanciamento na periferia e na Alemanha e as operações realizadas no quadro do Target 2, ou seja a evolução dos activos  do Bundesbank junto do Banco Central Europeu .

Dado que o Bundesbank tem sido sujeito a um aumento de tal forma tão grande da sua posição credora  no Target2  junto do BCE, alguns  participantes do mercado  passaram a  ficar  preocupados com a saúde das suas próprias contas, em particular…  Alguns argumentaram que o aumento das posições credoras  do  sistema TARGET2    junto do BCE  pelo lados dos activos do seu balanço, significa que há então outros activos que têm de diminuir, possivelmente , o volume de crédito para os bancos alemães.

Isto não é correto, do nosso ponto de vista: um aumento nos activos do Bundesbank TARGET2 é compensado, não pela venda de activos mas pelo acréscimo de responsabilidades em depósito. O saldo do Bundesbank como um todo aumenta.

Isto é devido ao facto de que as operações de refinanciamento levaram a expansões nas contas do  Euro-sistema o que, por seu lado,  inevitavelmente levou a um aumento do saldo  do Bundesbank   como um subconjunto do Euro-sistema. A figura 9 mostra a estreita correlação no crescimento dos saldos do Bundesbank  e os do Euro-sistema.

Quando é que os valores de GTarget2 se tornam um problema, então?

A discussão acima baseia-se no pressuposto de que a zona euro permanece intacta que nenhum país deixa esta mesma zona. No entanto, esses saldos TARGET2 poder‑se‑iam tornar um problema para os bancos centrais nacionais – e respectivos estados soberanos – no caso de uma situação de ruptura de um país em que este deixa a zona euro ou no caso de uma crise total da zona euro e da sua dissolução . Neste sentido, é importante ter em mente que os créditos e os débitos, as responsabilidades, dos bancos centrais nacionais são para com o BCE e não para com os outros bancos centrais. Então as perdas do  BCE nas suas  operações de refinanciamento com os bancos centrais do país ou dos países de partida, de saída, – com efeito a contrapartida dos saldos no sistema TARGET2 – seriam suportadas  e partilhadas pelos restantes membros do Euro-sistema.

Como tal, os saldos TARGET2  são, ainda, outro mecanismo pelo quem  os custos de uma dissolução desordenada da zona euro seriam claramente suportados. Mais uma vez, isto é um outro exemplo de como os custos de uma dissolução da zona euro poderiam incidir sobre os países do núcleo central da zona euro e não sobre os países ditos periféricos. E é aqui que a questão de poderem ser mesmo todos os países a ficarem atolados numa montanha de dívidas se levanta e com muita acuidade, mas inversamente a redução dos apoios aos bancos dos países ditos periféricos levará por sua vez a uma rápida explosão destes países e eventualmente de todos eles depois. Uma outra quadratura do círculo, portanto.

(continua)

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