REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A magia negra do Eurosistema

Publicado por Agora Vox, assinado por Noé.

19 de Fevereiro de 2013

 Parte I

E alguns podem colocar a questão de como é que se faz para que os países endividados como os  países do Sul da Europa possam  sobreviver com défices  tão gigantescos nas  suas balanças de pagamentos, sem incorrer em qualquer sanção orçamental  a não ser uma reprimenda da Comissão Europeia no que se refere à exigência do controlo absoluto dos seus  défices  e à da  prática das políticas de austeridade, por forma a não comprometer o financiamento do orçamento público pelos mercados financeiros.

Antes da introdução da moeda única, quando um país da União Europeia se encontrava numa situação de défice prolongado da sua  balança de pagamentos, ele incorria numa  penalização da sua taxa de câmbio  a fim de restabelecer o equilíbrio entre os fluxos de entrada e de saída com base numa igualização dos preços com os seus vizinhos comerciais, de forma a alcançar a posição de equilíbrio [ou seja, impunha-se pelo mercado uma variação do valor externo da sua moeda]. Hoje,  este mecanismo de compensação monetária foi substituído pelo sistema de regularização das  contas entre bancos centrais e a sua casa mãe europeia que é o BCE , sob a forma de operações de igualização das balanças de pagamentos, através de uma afectação  de moeda Banco Central a partir do BCE para os “bancos correspondentes” (BdF, Bundesbank, etc) que registam e acumulam os débitos e os créditos das contas nacionais  ( balança corrente e balança de capitais) para se servirem  como garantia no refinanciamento das dívidas dos  bancos centrais nacionais  para com o BCE.  Por exemplo, se a Itália regista um défice comercial com a Alemanha, os  bancos comerciais italianos concedem créditos aos seus  importadores italianos através da emissão de empréstimos  cujos títulos de crédito correspondentes serão transmitidos ao  Banco Central italiano que irá financiar o saldo negativo com os bancos alemães por troca de dívida italiana  contra a moeda  do Banco Central emitida pelo Bundesbank que creditará a sua conta junto do  Banco Central italiano pelo montante correspondente dos títulos de divida recebidos. Com base nas dívidas compradas pelo BCE, o Banco Central italiano, em seguida, pode refinanciar os bancos comerciais italianos, que emitem créditos que são usados para os importadores italianos comprarem as  máquinas alemãs. Idem para o caso  francês, o caso espanhol ou português…

Target -2

Assim, os  défices  comerciais dos países europeus deficitários são indirectamente financiados pelo Banco Central Europeu, satisfazendo-se desta forma os exportadores alemães que assim podem manter  a sua posição dominante no seio da UE, através da emissão de empréstimos do BCE, em moeda BCE, e em troca de créditos sobre os importadores europeus que praticamente nunca são reembolsados. Tudo  se passa  como se o banqueiro central europeu tenha posto a funcionar   em pleno regime a máquina de fazer o papel-moeda  para financiar as importações de países sob a tutela orçamental europeia  que, por este mecanismo,  os faz viver sob infusão de orçamento, enquanto se mantém um grave défice estrutural no interior da zona  euro. Mais grave ainda, esta colocação entre parêntesis do funcionamento normal dos mercados  que deveria automaticamente corrigir as diferenças de preço dos activos europeus através  de uma reavaliação da taxa de câmbio e da exigência da política de  recriação de capacidades produtivas  como posterior resposta só pode fazer perdurar  uma situação de desemprego endémico nos países que vivem dos  subsídios estrangeiros. Em vez de se gerar  a  riqueza nacional produzida pelas  indústrias nacionais, sacrificadas no altar da globalização dos activos, os PIIGS submetem-se  ao  Império alemão, que impõe a sua supremacia industrial para os seus vizinhos,  transformados em vassalos pela  dívida bancária.

Nesse caso, trata-se de uma escolha política deliberada que é  estar a sacrificar as actividades produtivas em prol do desenvolvimento dos serviços e do serviço público que não vêm de modo nenhum  compensar a perda da substância  económica que deriva deste processo, mesmo se o aumento das despesas  públicas financiadas pela  dívida pode dar a  ilusão, durante algum  tempo,  de se manter a ficção contabilística  do crescimento. A Alemanha e a finança anglo-saxónica fazem valer e aceitar  a teoria das vantagens  comparadas para persuadir os países cujas indústrias estão a ser  consideradas menos competitivas de que estas devem ser sacrificadas , seja pela deslocalização para países  de menor custo social   seja sacrificando-as pura e simplesmente e assim as  substituir  por  actividades de serviços consideradas mais rentáveis  tendo em conta  as vantagens   turísticas dos países que nessa sequência são depois classificados pejorativamente de países do Club Med . O excesso dos efectivos nos serviços públicos deve ajudar a doirar a pílula na medida em que estes estarão a  absorver   o trabalho tornado excedente e que foi assim lançado  no mercado em nome do desenvolvimento das áreas consideradas mais competitivas, os países BRICS, quer sobre o plano económico  quer  sobre o plano social. A globalização dos activos nacionais deve beneficiar os bancos pela sua financeirização, o que permite “criar”  valor  através das  actividades especulativas, apoiando-se estas actividades nas  flutuações das cotações dos  títulos representativos das empresas globalizadas  e em função dos ciclos económicos.  Mesmo em tempos de recessão, quando os preços dos activos se afundam  os bancos continuam a ganhar ao terem tomado posições de venda , por exemplo , sobre índices de acções  ou sobre  ETFs ( Fundos de índices também designados por Exchange Traded Funds)  representativos da actividade económica de um país, que se apropriam pois do valor com a  diminuição dos activos subjacentes, como é o caso de resto, para as opções em  baixa  ou para os instrumentos a prazo  sobre as acções.

(continua)

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