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A GALIZA COMO TAREFA -Introdução ao Território-por Ernesto V. Sousa

Quando de se enxerga a Galiza querendo perceber algo da sua singularidade, convém reparar em três constantes: a antiquíssima e densa habitação do território, a fragmentação ou repartição em sub-territórios (países/comarcas) de muito velho definidos e a auto-sustentabilidade especializada das comunidades radicadas neles.

A quantidade de aquíferos, a viçosa massa florestal e uma riqueza de biomassa costeira, acompanharam uma variada geografia de cote hospitaleira, na qual alternam vales, bocarribeiras, pequenas serras, chairas e rias, enquadrados entre sistemas fluviais; e que se completa com um clima benigno (invernos não muito frios, verãos não excessivamente quentes, estações intermédias prolongadas), matizado numa interessante sucessão de microclimas característicos.

Isto tudo tem definido desde épocas remotíssimas, uma divisão administrativa, ou política, do território local que tem sobrevivido até aos nossos dias e que provavelmente nas suas linhas principais já estava definido muito antes de os Romanos chegarem.

Efetivamente, a Galiza tem um modelo territorial próprio fixado que já o cristianismo e os Suevos aproveitaram e que reflete essa realidade muito anterior; mas presente ainda na consciência coletiva atual, pela que a gente ainda se identifica, mesmo duas gerações depois de terem abandonado espaços já mesmo inexistentes.

E esta territorialidade é estrutural, e está definida perfeitamente pelos caminhos antigos e marcada em unidades pelas feiras e mercados populares (e portanto daí os dialetos e costumes que deveram ser leis) centralizada nas cabeças de comarca que se comunicam por sua vez estruturando as estradas e o comércio.

Territórios especializados e com proveitoso intercâmbio desde antigo a toda escala (local, inter-territorial, internacional), capazes de albergar populações tamanhas, repartidos e bem comunicados, com a característica de se tornarem estanques e autodefendíveis em caso bélico.

Paróquias como unidades naturais comunitárias e comarcas (depois condados e mais tarde feudos) como unidades políticas administrativas, subjazem ainda às modernas e estrangeiras divisões de concelho e província.

O referente mais característico que tem a Galiza, mais que a língua mesmo, é o território. Cada paróquia é uma célula de universalidade e cada comarca, um país ou uma nação, segundo empreguemos a terminologia antiga ou moderna. Por isso, a Galiza, que é apenas um nome administrativo romano para o local de Terra, pode ser minguante ou crescente em território ao longo da história antiga e da moderna. Cada paróquia [freguesia] é soberana e poder criar, segregar uma nação, pode integrar outras nações, pequenas, médias e mesmo grandes… ou perdê-las…

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