A GALIZA COMO TAREFA –Paleopaisagem- por Ernesto V. Sousa

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Palimpsesto de chuva e pedra que o tempo lavrou, deste jeito definiu a verde Galiza o magnífico pintor, genial poeta vanguardista e a poderosa fantasia épica de Urbano Lugris. Capa e capa, rasto após resto, e a pesar da inquietante destruição dos últimos dous séculos que hoje continua, a Galiza possui uma singular e inconfundível pessoalidade geográfica e presença paisagística que o viajante atento percebe imediatamente e o visitante não deixa de reconhecer.

LUGRISSS

Seguindo Otero Pedrayo, o chão da Galiza compõe-se de rochas antigas, paleozoicas, estrato cristalinas e especialmente graníticas, que apresentam uma configuração de maciço de dobras hertzianas, profundamente esculpidas pela erosão constante de uma característica atmosfera húmida que mantém uma ativíssima energia fluvial.

A Galiza relaciona-se morfologicamente com o maciço central francês e as outras terras atlânticas: a Irlanda, a Escócia e as penínsulas da Bretanha, a Cornualha e Gales. Montes antigos, fortemente desgastados, que fizeram dizer ao imaginativo Benito Vicetto, no início da sua História, que quando baixaram as águas do dilúvio a Galiza emergira, já inteiro vergel, antes que nenhuma Terra; e a Florentino L. A. Cuevillas aquilo de que na Proto-história a terra galega já tinha acabado, havia muito tempo, a sua presente feitura.

No ponto em que a Corrente do Golfo curva para o Norte, depois de condicionar o clima, sem alturas notáveis em serras isoladas, nem grandes desníveis, divide-se a Galiza em duas grandes seções: a Oriental (Nordeste e Alto Minho) e Ocidental (Noroeste e os vales fluentes às rias), que determinaram outrora espaços económicos, linguísticos e políticos, tribos, condados, paróquias, feiras, capitais de comarcas, feudos, isoglossas e caminhos e que se prolongam a Sul e Leste para além das atuais fronteiras num território definido deste antigo como conjunto.

A Terra configura-se nestes grandes eixos, numa paisagem de pequenos territórios e subterritórios, definidos por uma prolongada e antiquíssima ocupação humana, que se converteu no segundo elemento com a água em transformar a paisagem. Até tal ponto que poderíamos dizer que em poucos espaços humanos a geografia e a paisagem estão tão diretamente modificadas, no decurso das gerações, pelos habitantes e o seu jeito de viver e aproveitar o meio natural e os recursos.

A ligação dos galegos com a sua Terra é proverbial, até tal ponto que essa modificação pareceria que se inverteu, sendo por sua vez a terra a que definiu por gerações os habitantes. “Aramos sobre os mortos desta terra” que escreveu intenso Lorenzo Varela; como se a gente escrevera uma e outra vez – talvez essa seja a escrita mais sólida dos galegos – nas pedras, na terra, na paisagem devanceira, e gostasse depois de ler-lha ao que vier.

Para a gente da Galiza, a terra, o país físico representa um importante elo e um espaço de inter-relação social no presente e identificação com o passado, não poucas vezes sendo a ideia do espaço paisagístico-familiar o significado e a única imagem do conjunto. Não por acaso, a Galiza, para os mais dos habitantes é simplesmente nomeada, como “a Terra” ou “a Nossa Terra”.

 

* Para o André Pena Granha, com carinho e admiração.

 

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