
Recuso defender-me da crítica de que sou, o que não sou, um adepto de Trump
Resposta a alguns amigos e familiares meus
Júlio Marques Mota
Um amigo meu a propósito da vitória de Trump escreveu-me o seguinte:
“ Desta vez imprimi completamente o teu artigo, para o ler como gosto.
Sei que alguns amigos (consta-me… — nem sei a fonte) ficaram admirados com a tua opinião sobre Trump. Claro que sei que não te agrada o PR dos EUA, mas também não podes deixar de tentar explicar porque é que Trump ganhou. Foi sem dúvida devido à burocracia dos “políticos profissionais” e desta globalização que desumanizou a política e a sociedade. Afinal o fascismo e o comunismo de sistema resultaram, como “estados políticos”, da crise do liberalismo. Agora a crise do neoliberalismo está a originar o populismo de direita (e também, algures, o de esquerda e até os fundamentalismos religiosos, de toda a espécie, incluindo o católico).
É uma simples e talvez simplista reflexão que aqui deixo.”
Não se se lembra da fonte, este meu amigo. É irrelevante. Dias depois num jantar em minha casa, parte dos meus amigos convidados, e da minha família também, vieram com o mesmo discurso, o de crítica ao meu suposto apoio a Trump.
Limitei-me a dizer: mostrem-me uma frase só em que eu diga que defendo Trump. E repisei: o que disse sempre e mantenho foi o seguinte e mesmo muito antes do dia das eleições: ganhe quem ganhar, a América já perdeu. Hoje, a relembrar os paradoxos de Zenão, direi: qualquer que seja a opção desejada, das duas em presença, cada uma delas é sempre pior que a outra e é indiferente a ordem!
Mas estes meus amigos dizem-me que é significativo eu ter feito uma crítica de fundo a Hillary Clinton e um silêncio sepulcral face a Trump. Um raciocínio de uma certa esquerda, para quem os nossos males têm é de ser abafados e não ao vento propalados. Mas este raciocínio, levado à letra, não se distingue do raciocínio da extrema-direita americana, em que esta, em vez de desmontar as críticas que contra ela são feitas, a propósito de pretenderem que a política externa americana seja uma extensão do governo de Israel, difamou os seus adversários e acusou-os imediatamente de antissemitas! Debate a seguir bloqueado.
Mais perto em termos de distância, temos o slogan de quem não é por nós é contra nós, bem utilizado por Salazar, diga-se de passagem. E ser contra nós, é dizer aqui que se é a favor de Trump. Um raciocínio binário diríamos, a relembrar um pouco Paul Watzlawick em A realidade é real?. No fundo, um raciocínio que é um golpe de magia, no plano lógico. Ora com os textos publicados sobre as eleições americanas quis simplesmente questionar um sistema e uma esquerda que lhe deu corpo, porque no fundo era este sistema e esta mesma esquerda que explicaram, que deram, a vitória a Trump. Era isto que me interessava questionar, nada mais que isso. Deduzirem daí o meu apoio a Trump, não é assunto meu.
A reportagem sobre Warren e a América desencantada voltou-me a levantar a questão: gente simples falava do seu desespero face a Washington, gente de emprego ontem, de desemprego hoje e amanhã. E aqui respondeu-me um amigo meu: que se tratava de uma situação de pós verdade! Se percebi bem, pós verdade significa reação despropositada, exagerada. Mas podemos devolver a pergunta, não será antes exagerado considerar estas gentes como “os deploráveis”? Não será antes deplorável “silenciar Bernie Sanders” oferecendo-lhe um cargo importantíssimo no Congresso, onde ele poderia bem aplicar o seu humanismo, a sua visão do mundo, e continuar a defender um candidato não defensável?
Não será mais sério procurar saber as razões de um sistema que chega à situação de, face ao mais elevado cargo da Nação, não ter ninguém que o mereça, ninguém que a sirva honesta e, sobretudo, lucidamente? O que é que de podre aconteceu na América para se chegar a esta situação, de não haver ninguém de nível, com um verdadeiro sentimento de dever público, a disputar o lugar? Esta é a pergunta que me interessou, daí a resposta que se procurou. Esconder tudo isto, o que faz a esquerda oficial ou para-oficial é estar exatamente do lado de quem se quer combater, do lado da lógica de Trump, suportando uma outra lógica bem mais sinistra ainda, a da elite financeira de Wall Street e dos neoconservadores que invadiram a Administração Americana. Não estou pois nem de um lado nem do outro, estou como muitos militantes de Bernie Sanders que se abstiveram e cujo lema é: a luta continua e contra os dois grupos em presença nas presentes eleições.
Por tudo isto publicamos agora quatro artigos em A Viagem dos Argonautas. Trata-se de artigos que direta ou indiretamente julgo relevantes para esta problemática. São eles:
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Como é que o Partido democrata se tornou o Partido do neoliberalismo, de ARUN GUPTA, 31 de Outubro de 2014.
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O legado de Obama: o que é que de facto aconteceu? De RODRIGUE TREMBLAY, 30 de Maio de 2016
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O triplo jogo dos Neoconservadores, de Laurent Guyénot-rede Voltaire
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Neoconservadorismo e Politica Externa Americana, STEPHEN MCGLINCHEY.
Destes quatro artigos, dois referem-se especificamente ao legado de Obama e os dois últimos ajudam a perceber como é que é necessário e urgente uma limpeza a sério na Administração americana, colocando de fora os neoconservadores, o que, desde há muito, reclama Paul Craig Roberts. Sem uma ideia clara do que são e representam estes senhores na política externa americana não é de modo algum legível, sequer.
Não será então mais correto procura saber qual o legado que nos deixa Obama, após de dois mandatos de exercício do Poder, de um Prémio Nobel da Paz, de utilização de uma retórica espantosa em que muitos de nós fomos levados? Neste último caso, ou sou um dos levados e durante vários anos até que me questionei porque muitos daqueles em que acreditei e que estavam na Administração Obama o abandonaram e antes do final do primeiro mandato. Até que me questionei quando se tornou pública a gravação da conversa de Vitoria Neuland com o embaixador americano em Kiev, sobre a Europa que se f…, que garante publicamente que a conversa estava bem gravada e a conversa era ela a determinar a composição que o governo americano pretendia para o governo da Ucrânia, pós golpe de Estado. E Obama a falar em Democracia! Até que me questionei sobre a desigualdade nos Estados Unidos depois de eu próprio ter traduzido e publicado em A Viagem dos Argonautas um dos mais importantes discursos que alguma vez um Presidente da República fez sobre a desigualdade da repartição. E podia continuar com a expressão Até que me questionei….
Dizem-nos num dos textos que iremos editar, O legado de Obama: o que é que de facto aconteceu?, de Rodrigue Tremblay:
Mas é tempo de repensar esta noção de que aos democratas lhes falta princípios. Eles têm uma agenda clara e representam ideologicamente bem mais do que os republicanos. Democratas como Obama estão dispostos a perder o poder em nome de levarem a cabo a agenda neoliberal. Desde a era Clinton, os democratas têm sido os arquitetos mais eficazes das políticas que aumentem a riqueza e o poder dos que estão no topo da pirâmide económica. Agora, o neoliberalismo é muitas vezes visto como sinónimo de privatização, desregulamentação e liberalização das trocas comerciais e dos movimentos de capital, mas o Estado pode colocar de lado estas políticas estatais e passar a apoiar as elites desde que estas tenham entrado num caos por elas criado como aconteceu com o crash de Wall Street.
Isto deixou o Partido Democrata numa situação de mãos atadas. Posteriormente, apoiaram-se nos votos de grupos sociais como mulheres, sindicalistas, negros, latinos e ambientalistas que defendem políticas de redistribuição, como equidade de género na repartição dos rendimentos, um aumento do salário mínimo, redução dos custos de cuidados de saúde, mais proteção ambiental e direitos mais fortes para os imigrantes. Ao mesmo tempo, os democratas precisam de milhares de milhões de dólares para organizarem as campanhas para as eleições e alimentar a sua máquina partidária. Assim, os democratas vão de chapéu na mão às empresas e em troca prometem mais incentivos fiscais e incentivos para aumentar a rentabilidade das empresas. Os democratas nunca estão tão comprometidos com a ideologia do mercado livre como os republicanos. Os democratas precisam de satisfazer algumas necessidades da sua base social de apoio enquanto os republicanos movem os postes da baliza mais para a direita e ficam à espera que os democratas os apanhem.
Para resolver a contradição, os democratas como Obama e a provavelmente nomeada candidata às eleições presidenciais de 2016, Hillary Clinton, dizem-nos que irão gerir a economia trickle-down. Mas é tempo de repensar esta noção de que aos democratas lhes falta princípios. Eles têm uma agenda clara e representam ideologicamente bem mais do que os republicanos. Democratas como Obama estão dispostos a perder o poder nome de levaram e cabo a agenda neoliberal. Desde a era Clinton, os democratas têm sido os arquitetos mais eficazes das políticas que aumentem a riqueza e o poder dos que estão no topo da pirâmide económica. Agora, o neoliberalismo é muitas vezes visto como sinónimo de privatização, desregulamentação e liberalização das trocas comerciais e dos movimentos de capital, mas o Estado pode colocar de lado estas políticas estatais e passar a apoiar as elites desde que estas tenham entrado num caos por elas criado como aconteceu com o crash de Wall Street.
Isto deixou o Partido Democrata numa situação de mãos atadas. Posteriormente, apoiaram-se nos votos de grupos sociais como mulheres, sindicalistas, negros, latinos e ambientalistas que defendem políticas de redistribuição, como equidade de género na repartição dos rendimentos, um aumento do salário mínimo, redução dos custos de cuidados de saúde, mais proteção ambiental e direitos mais fortes para os imigrantes. Ao mesmo tempo, os democratas precisam de milhares de milhões de dólares para organizarem as campanhas para as eleições e alimentar a sua máquina partidária. Assim, os democratas vão de chapéu na mão às empresas e em troca prometem mais incentivos fiscais e incentivos para aumentar a rentabilidade das empresas. Os democratas nunca estão tão comprometidos com a ideologia do mercado livre como os republicanos. Os democratas precisam de satisfazer algumas necessidades da sua base social de apoio enquanto os republicanos movem os postes da baliza mais para a direita e ficam à espera que os democratas os apanhem.
Para resolver a contradição, os democratas como Obama e a provavelmente nomeada candidata às eleições presidenciais de 2016, Hillary Clinton, dizem-nos que irão gerir a economia trickle-down com mais eficiência.”
Por economia de trickle-down podemos entender, que se trata de uma economia em regime de extrema desigualdade na repartição do rendimento e ao ponto de colocar em perigo a estabilidade social.
Vejamos pois alguns exemplos do que que está por detrás da vitória de Trump.
Desigualdade na repartição nos Estados Unidos, segundo um texto por nós publicado em 2014 e pode-se comparar com o que editamos na semana passada que era produzido de um documento da PEW Research[1]:
A paz, o Prémio Nobel e a Guerra. Em 2001, pós ataque às Torres Gémeas, disse o General Wesley Clark.
O general Wesley Clark testemunhou em numerosas ocasiões, diante das cãmaras, que uma dezena de dias após o 11 de setembro de 2001, aquando de uma visita ao Pentágono para lá se encontrar com Rumsfeld e Wolfowitz, ele soube por um general, que ele recusa identificar, que a decisão de invadir o Iraque estava já tomada ao mais alto nível. Duas semanas mais tarde, quando as operações tinham começado no Afeganistão, Clark perguntou ao mesmo general se ainda havia a intenção de invadir o Iraque, e este respondeu-lhe, exibindo um documento: «Oh, é pior do que isso. Eu tenho aqui um memorando que descreve como se vai tomar sete países em cinco anos, começando pelo Iraque, depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália e o Sudão, e acabando pelo Irão». Ora, segundo o Deuteronómio 7, Yavé entregará a Israel «sete nações maiores e mais poderosas que tu. […] Yavé teu Deus entregar-tas-á, elas permanecerão submetidas a grandes aflições até que elas sejam destruídas. Ele entregará os seus reis ao teu poder e tu apagarás o seu nome por debaixo dos céus». Estas «sete nações», ainda evocadas em Josué 24:11 e Actos 13:19, fazem parte dos mitos sionistas inculcados aos estudantes israelitas desde a idade dos nove anos, com o culto da guerra santa. Conformando o ensinamento de Leo Strauss, o projeto neo-conservador de atacar «sete países» alimenta-se do mito bíblico das «sete nações».
About ten days after 9/11, I went through the Pentagon and I saw Secretary Rumsfeld and Deputy Secretary Wolfowitz. I went downstairs just to say hello to some of the people on the Joint Staff who used to work for me, and one of the generals called me in. He said, “Sir, you’ve got to come in and talk to me a second.” I said, “Well, you’re too busy.” He said, “No, no.” He says, “We’ve made the decision we’re going to war with Iraq.” This was on or about the 20th of September. I said, “We’re going to war with Iraq? Why?” He said, “I don’t know.” He said, “I guess they don’t know what else to do.” So I said, “Well, did they find some information connecting Saddam to al-Qaeda?” He said, “No, no.” He says, “There’s nothing new that way. They just made the decision to go to war with Iraq.” He said, “I guess it’s like we don’t know what to do about terrorists, but we’ve got a good military and we can take down governments.” And he said, “I guess if the only tool you have is a hammer, every problem has to look like a nail.”
So I came back to see him a few weeks later, and by that time we were bombing in Afghanistan. I said, “Are we still going to war with Iraq?” And he said, “Oh, it’s worse than that.” He reached over on his desk. He picked up a piece of paper. And he said, “I just got this down from upstairs” — meaning the Secretary of Defense’s office — “today.” And he said, “This is a memo that describes how we’re going to take out seven countries in five years, starting with Iraq, and then Syria, Lebanon, Libya, Somalia, Sudan and, finishing off, Iran.” I said, “Is it classified?” He said, “Yes, sir.” I said, “Well, don’t show it to me.” And I saw him a year or so ago, and I said, “You remember that?” He said, “Sir, I didn’t show you that memo! I didn’t show it to you!”
Estávamos em 2001, quando estas afirmações foram proferidas. Depois com Obama noticiava o jornal Independent:
Barack Obama, o homem que para muitos representava a esperança da paz quando chegou a Presidente, bombardeou sete países durante os seus primeiros seis anos na Casa Branca[2].
O Presidente dos EUA supervisionou os primeiros ataques aéreos dos EUA lançados contra a Síria, esta semana, numa enorme escalada da campanha militar dos EUA contra o Isis (também conhecido como estado islâmico)
O Presidente Obama foi eleito em 2009, em parte pela sua oposição à guerra do Iraque e foi premiado com o Nobel da paz, depois de ter assumido o poder.
Esta tomada de decisão, indiscutivelmente otimista, pelo Comité Nobel norueguês foi tomada apenas nove meses depois de estar na Presidência e foi-lhe atribuído quando estava envolvido na guerra do no Afeganistão.
Com o seu famoso discurso ‘A New Beginning’ no Cairo viu-se o Presidente declarar que ele estava a querer estabelecer um novo começo “entre os Estados Unidos e os muçulmanos em todo o mundo”, aumentando as esperanças de que ele seria o antídoto para o controverso mandato de Bush.
Seis anos depois, o Presidente Obama aprovou operações militares no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Somália, Iémen, Líbia, Síria.
O Bureau of Investigative Journalism (BIJ) estima que a Administração Obama desencadeou mais de 390 ataques por drônes em cinco anos sobre o Paquistão Iémen, e Somália – 8 vezes mais ataques aprovados que durante toda a Presidência Bush.[3]
A história é curta, os factos são muitos, as pessoas destruídas muitas mais são:
George Bush filho entrou em combate em cinco países: Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iémen e Somália. Bill Clinton bombardeou ou enviou tropas de combate para seis: Iraque, Sérvia, Bósnia, Somália, Afeganistão e Sudão. George Bush conflitos militares do ancião estavam no Iraque, Panamá, Somália e Líbia. Obama orgulha-se de atacar 7 países em 6 anos.
Em síntese de toda esta história, apresentar Obama como sendo relativamente uma pomba de uma forma que sugere só se atingir a sua memória institucional muito para lá do início do século XXI. A sua apresentação de Hillary Clinton como a menina dos Cachinhos Dourados colocado em comandante-em-chefe — mais beligerante do que Obama, mais pacífica do que Bush — ajuda a colocar no terreno de forma constante a intervenção militar da época da “Guerra contra o Terror”, como sendo a nova normalidade.
Comércio Internacional, Movimentos de Capitais: a globalização em franca aceleração com a Presidência Obama e que pretendia continuar com Hillary Clinton:
“A administração Obama tem permitido às grandes empresas e aos grandes bancos deslocalizarem empregos e lucros
A principal característica dos nossos tempos é que os lucros das grandes empresas estão em alta, enquanto os salários estão estagnados, e os impostos destas mesmas empresas estão a descer.
Na verdade, uma resposta parcial às muitas questões levantadas acima é o fato de que a Administração Obama tem sido acusada de estar a continuar e mesmo a intensificar a tendência à baixa dos impostos a favor das grandes empresas, e assim a permitir mais lucro para as grandes empresas e para os mega-bancos.
Em primeiro lugar, a administração Obama deu início a dois gigantescos “acordos comerciais” internacionais. Esses acordos comerciais têm sido em grande parte em segredo, porque um dos seus objetivos é garantir a proteção legal para as empresas mundiais e para os bancos nacionais contra os governos eleitos e dar-lhes então imunidade sobre processos que contra elas possam ser levantados pelos governos nacionais.
Os mais recentes exemplos de tais “acordos” são Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) com a Europa e o Transpacific Trade Partnership (TTP) Transpacific Trade Partnership (TTP) com países da Ásia[4].
Deve ser entendido por todos que estes acordos chamados de “livre comércio” não são realmente acordos de livre comércio para o livre movimento de bens entre países e com base nas vantagens comparadas nacionais, mas são na verdade acordos estabelecidos pelas grandes empresas e grandes bancos para proteger as grandes empresas e os megabancos contra os governos nacionais de acolhimento, contra a sua tributação e a sua regulamentação.
Estes acordos, perto negociados em segredo quase completo, prosseguem objetivos geopolíticos. Eles são uma tentativa de construir uma ordem econômica e financeira mundial que substitua a dos estados nacionais e que represente igualmente uma tentativa de proteger as elites das grandes empresas e dos megabancos contra as políticas dos estados nacionais, ou seja a querer garantir a proteção dos 1% mais ricos contra eventuais posições dos governos nacionais.”
Quanto a migrações, o que é referido por muitos analistas sérios, Obama foi o que foi, conforme se descreve:
CIDADE DO MÉXICO.
As comunidades latino-americanas chamam a Barack Obama “El Deportador en Jefe”[5].
Durante quase os oito anos do governo de Barack Obama os Estados Unidos, atingiram ou ultrapassaram mesmo o número de deportações que Donald Trump promete levar a cabo: entre dois a três milhões de ilegais.
Do 2009 a julho de 2016, a administração de Obama expulsou do seu país dois milhão 858 mil 980 pessoas que não conseguiram creditar a sua estada legal nos Estados Unidos, 47 por cento dos quais sem antecedentes penais. A este número precedente é necessário acrescentar os deportados entre o 1º de agosto de 2016 e o dia 20 de janeiro de 2017, quando entregar o poder a Trump.
Isto foi uma constante ano após ano durante a sua governação. Por exemplo, dos 391 mil 438 estrangeiros que foram expulsos em 2009 – no início do governo de Obama, 259 mil 601 não tinham antecedentes criminosos.
De acordo com o Instituto de Emigração e Alfandegas (ICE, na sua sigla em inglês), os menores não acompanhados, que são uma causa de asilo nos Estados Unidos, encontram-se na lista das prioridades em deportações desde 2014.
A conclusão que se tira de tudo isto é que a política de Obama foi a política neoliberal na sua forma mais sofisticada, ao nível financeiro, ao nível dos tratados comerciais, ao nível das migrações e ao nível da paz, porque revestida de uma retórica fulgurante, o mesmo dizer de uma enorme capacidade de convencimento sobre o nada fazer ou sobre o fazer o contrário do que prometeu. No fundo é a recusa de todos estes feitos que estão por detrás da derrota de Hiillary Clinton, ou seja a vitória de Trump não se deve pois aos deploráveis como Clinton acusa, deploráveis porque recusam a globalização neoliberal com todos os postulados em termos de políticas económicas e sociais que esta implica. A rejeição destas irá salvar o povo americano do desastre? Não, com Trump, um rejeitado do sistema mas um produto grosseiro do próprio sistema, não se irá longe, exceto no reacender da luta de classes em curso na América. Creio mesmo que muita da campanha contra Trump é uma manobra de diversão dos verdadeiros problemas contra os quais o povo americano se deve levantar, levada a cabo pelos mesmos centros de intoxicação que bem nos tentam convencer de que não há outra visão que não seja a que tem sido seguida nestes últimos anos. De resto, contra tudo o que foi exposto onde esteve a esquerda americana, a que agora está nas ruas e que antes ninguém a via?
Quanto aos europeus e ligando-se a estes temas diz-nos Domenico Mario Nuti num artigo que iremos publicar brevemente:
1. Sobre os Tratados Comerciais a assinar ou já assinados
[Na Europa] Há um défice democrático claro: ou os representantes de 3.5 milhões de eleitores da Valónia (Bélgica) podem bloquear um Tratado que afeta 545 milhões de pessoas[6]; ou após-7 anos de negociações secretas com o Canadá, o Tratado CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement) era indevidamente favorável para os investidores internacionais, gozando ad hoc do mecanismo (Investor-State Dispute Settlement), da proteção dos lucros relativamente à legislação regulamentar sobre o trabalho e o ambiente, da proteção excessiva sobre as patentes. Um outro acordo de grande escala atualmente em negociação, o TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership) entre a UE e os Estados Unidos não deve ser assinado sob Donald Trump. Aparentemente, o novo presidente opõe-se também à Parceria TransPacífico entre os EUA e 11 países da região do Pacífico (apesar da atual exclusão chinesa que poderia ajudar a conter a política de expansão da China) e pretende denunciar NAFTA the North Atlantic Free Trade Association) como sendo “o pior acordo comercial de sempre”.)
2. Sobre as migrações:
Aqui a falha sísmica é uma divisão Leste-Ocidente, que causou o colapso de área Schengen e a construção de muros: 175km de arame farpado em aço, 4m de altura, entre a Hungria e a Sérvia, concluído em setembro de 2015; a barreira entre a Macedónia e a Grécia, concluído em março de 2016; uma parede de 4m de altura, construída em Munique, em novembro de 2016 para separar a população local do acampamento dos migrantes; a “grande muralha” construída em 3 meses para impedir os migrantes de atravessarem o canal da Mancha entrando ilegalmente nos camiões a caminho de Dover: betão armado de 1km, 4m de altura, a um custo de €2, 7 milhões pagos pela Grã-Bretanha, para completar a vedação de arame farpado em aço erguida para impedir o acesso ao porto de Calais. As paredes podem dará má aparência e serem desagradáveis, mas aos países membros de Schengen é-lhes realmente requerido que as ergam pelo art. 17 do Acordo: “Em matéria de circulação de pessoas, as partes esforçar-se para abolir os controlos nas fronteiras comuns e transferi-los para as suas fronteiras externas… e tomarem medidas complementares para garantir a segurança interna e impedir a imigração ilegal por nacionais dos Estados que não são membros das Comunidades Europeias.” De facto um país como a Grécia, incapaz de satisfazer esta obrigação devido às condições de crise dramática, é responsabilizada e repreendida pela Comissão Europeia por não conseguir controlar as suas fronteiras (BBC, 2016).
Quanto a migrações, a esquerda agora protesta contra Trump e genericamente esteve calada na Europa quando se está a fazer o mesmo que Obama fez e o mesmo que Trump diz que vai fazer. Quanto aos tratados comerciais em que Estados soberanos ficam na mão das multinacionais, quase todas elas americanas, haveria também muito a dizer. Recusá-los, é recusar a intensificação da globalização. Não vi a esquerda europeia ou americana bater-se por isso. Negociados secretamente, nada mais e votados em Parlamentos controlados, nada mais. Aí, Trump tem a vantagem, não de responder aos problemas que esta globalização levanta – pela sua própria lógica nunca o conseguirá- mas sim de nos obrigar a refletir sobre ela em vez de andarmos silenciosamente a engolir o dogma de quanto mais comércio-livre melhor, como se fez com o reinado de Pascal Lamy na Organização Mundial do Comércio.
Em conclusão, deixemos assentar a poeira da raiva da derrota, deixemos a emoção acalmar, e voltaremos, então sim à análise das políticas de Trump.
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