Luzes e sombras do processo de destituição de Trump – 3. O procedimento de destituição de Trump não é a resposta para a crise política da América. Por Samuel Moyn

Impeachment de Trump luzes e sombras

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3. O procedimento de destituição de Trump não é a resposta para a crise política da América

Samuel Moyn por Samuel Moyn

Editado por the guardian em 26 de Setembro de 2019 (ver aqui)

 

Tentar derrubar Trump para que os centristas possam voltar ao poder é uma tarefa inútil. Uma nova política deve ser forjada

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Para os centristas liberais e conservadores, habituados ao poder, a ascensão de Donald Trump no partido republicano e o seu sucesso em vencer Hillary Clinton dentro das terríveis regras do jogo americano constituíram uma verdadeira afronta. Fotografia: Saul Loeb/AFP/Getty Images

 

Donald Trump está a enfrentar um procedimento de destituição, e um único telefonema parece ter desequilibrado  a balança. Durante uma conversa em julho com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, ele pediu ajuda na investigação sobre o seu provável oponente em 2020, Joe Biden, cujo filho tinha negócios no país. Na terça-feira, Nancy Pelosi anunciou que o processo para a destituição de Trump iria finalmente começar.

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A Casa Branca tentou encobrir a conversa de Trump com a Ucrânia.

 

Mas a publicação do resumo da conversa ou “memcon” entre Trump e Zelenskiy na quarta-feira deixou as coisas um pouco mais turvas do que o esperado.

Trump pediu um favor, mas foi para o ajudar na sua busca obsessiva para provar que ganhou a presidência de forma justa e leal. E embora mais tarde tenha levantado a perspetiva de uma investigação sobre Biden, em nenhum momento ele terá acenado com contratos militares que ele tivesse colocado em espera como fator de aliciamento. Enquanto isso, Zelenskiy estava mais interessado em possíveis acordos futuros. Havia um pedido de Trump para uma citação – mas nada de específico, exatamente.

Se o resumo for exato, o que nos deixa ver não é saboroso, mas também não é definitivo. No entanto, pôs em marcha mais uma explosão de excitados comentários. O que esta excitação realmente representa é mais uma ronda no ciclo dramático de discussão sobre o significado da vitória eleitoral de Trump em 2016.

Para os centristas liberais e conservadores, dispostos a revezarem-se no poder por décadas, a ascensão de Trump no partido republicano e o seu sucesso em derrotar Hillary Clinton dentro das regras terríveis do jogo americano constituíram uma verdadeira afronta. Cega por ser expulsa por um predador sexual e um não-identidade incoerente, essa coligação de elites de longa permanência no governo, constituída por tecnocratas liberais a conservadores “nunca-Trump”, declarou guerra ao presidente, adotando qualquer mau pretexto ou uma boa razão para querer a sua destituição antecipada.

Certamente, existem muitas razões para desejar que Trump saia do cargo. Ele é incompetente e inflamatório, e as suas políticas são racistas e anti-pobres. Mas por detrás da postura de permanente alarme e indignação adotados pelo establishment político, há um forte sentimento de que o que realmente os incomoda é que a democracia dos EUA, tal como ela é, os apeou do poder. E depois de tanto tempo à espera  que a investigação de Robert Mueller fosse a sua redenção, eles depositaram as suas esperanças num “memorando de uma conversa ex-machina” .

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Membros de esquerda do Congresso, como Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders, há muito que são a favor da impugnação de Trump. Mas não fizeram disso uma obsessão diária”. Fotografia: Zach Gibson/Getty Images

 

O problema desde o início, e uma razão para a constante repetição do drama, é que a própria conquista de Trump do partido republicano significava que seria sempre quase impossível convencer membros suficientes do Congresso a deixar esta presidência para trás mais cedo. Para cada coro de consternação e choque dos centristas do nunca-Trump há uma facção do sempre-Trump preparada para desculpá-lo quando ele se aproxima da linha de prevaricação ou a atravessa – e o refrão sabe disso. Ambos os lados se mereceram um ao outro em todas as fases.

Apesar de todos os seus apelos a valores morais duradouros, quer se trate do excecionalismo dos EUA ou do princípio jurídico, os centristas estão a implementar uma estratégia transparente de regresso ao poder. A atabalhoada presidência de Trump de alguma forma parece menos detestável, ao considerarmos o facto de que os seus críticos se recusam a admitir quão massivamente a sua eleição significou o fracasso das suas políticas, desde as guerras sem fim até à desigualdade económica.

Membros de esquerda do Congresso, como Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders, são desde há muito a favor da impugnação de Trump. Mas eles não fizeram disso uma obsessão diária. Mesmo quando Washington estava repleto de pontos de discussão sobre o telefonema, Ocasio-Cortez introduziu um plano ousado para combater a pobreza; Sanders propôs um novo imposto sobre a riqueza no dia anterior.

Os progressistas têm razão em considerar que o que é  mais importante não é saber se Trump cometeu ou não uma “infração punível ” (o que não significa mais do que haver um número suficiente de membros da Câmara dos Deputados dispostos a  acusá-lo), mas sim que visão política os democratas podem ter de modo a unirem-se para conquistar o país, com o sistema manipulado e tudo o mais. Dada a importância dessa questão, o debate atual sobre se se deve destituir Trump, apesar de todo o melodrama em torno dele agora, é pálido em comparação com esta última problemática.

Os centristas simplesmente querem voltar ao status quo interrompido por Trump, querem as suas reputações lavadas pela sua corajosa oposição ao seu reinado mercurial, e as suas políticas restauradas em termos de credibilidade. Entretanto, os republicanos de direita esperam beneficiar da sua ascendência, duplicando as reduções fiscais. Não admira que o maior medo dos progressistas seja que a situação venha a permitir que o primeiro grupo volte às políticas fracassadas que produziram o próprio Trump, e o segundo capitalize a sua ascensão para consolidar indefinidamente o seu domínio.

Al Green, um congressista democrata do Texas que foi um dos primeiros defensores solitários do procedimento de destituição de Trump, comentou no outro dia que a sua abordagem era vital precisamente porque ajudaria a vencer a próxima eleição. Na sua conferência de imprensa na quarta-feira, o presidente zombou destas afirmações. Alardeando o seu próprio sucesso – ainda que não conquistado – na promoção do crescimento económico, ele interpretou o procedimento de destituição como a estratégia de um partido que não tem mais nada para oferecer aos eleitores. “Todas essas pessoas se concentram-se na caça às bruxas porque não podem nos vencer nas urnas”, exclamou ele com algum prazer.

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A aposta de Pelosi: investigação para a destituição expõe Trump, mas traz riscos para os democratas

 

Quem tem razão – Green ou Trump? O caso da Ucrânia mostra que o maior risco para o povo americano é que os centristas associem o procedimento de destituição a um restabelecimento de um conjunto de prescrições falhadas, enquanto a direita rejeita a tentativa de destituir o presidente e os governos na base de políticas igualmente sem saída. E mostra igualmente que os progressistas devem ligar a oposição a Trump a uma estratégia mais ampla para trazer ao país uma nova e convincente política que lhes seja própria.

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O autor: Samuel Moyn é professor de direito e história em Yale e autor, mais recentemente, de Not Enough: Human Rights in an Unequal World.

 

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