EDITORIAL: ÀS TALHADAS! EM LEILÃO! – por João Machado
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Lemos hoje no Público uma notícia sobre a compra por um cidadão holandês de dois prédios mistos, no Algarve, na zona de Tavira, junto à ria Formosa (clicar no primeiro link abaixo), que ali terá querido edificar a sua residência. Nesses prédios estão as ruínas da cidade romana de Balsa, cujo apogeu decorreu nos séculos I a IV depois de Cristo, e na altura foi um dos principais centros urbanos existentes no território que hoje é Portugal. O novo proprietário terá querido edificar ali uma casa para dela fazer a sua residência. A enorme importância histórica das ruínas terá sido deixada em segundo plano pelas autoridades e pelo novo proprietário, e o assunto teria ficado esquecido se não fosse a intervenção de indivíduos e associações que defendem o património nacional.
Há alguns dias soubemos que o Convento de Cristo de Tomar foi danificado por acções realizadas durante a rodagem de um filme. Terão sido partidas pedras centenárias, arrancadas árvores e ateada uma fogueira de grandes dimensões num claustro.
Transcrevemos a seguir uma passagem de A Ilustre Casa de Ramires (pág. 43, da edição da Livraria Chardron, Lello & Irmãos editores, 1927), narrando uma conversa à ceia entre Gonçalo Mendes Ramires, o amigo Titó e João Gouveia, o administrador do concelho:
“…
Portugueses indecentes a vender Portugal! Até o Sr. Administrador do Concelho devia proibir estas conversas…
Mas o Sr. Administrador do Concelho afirmou que as consentia e rasgadamente … Por que também ele, como governo, venderia Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa Oriental! E às talhadas! Em leilão! Ali, toda a África , posta em praça, apregoada no Terreiro do Paço!
…”
Desculpem termos actualizado a ortografia. A questão que pomos é: será que hoje em dia encaramos os nossos valores culturais e históricos da mesma maneira como os personagens retratados por Eça de Queirós no fim do século XIX encaravam as colónias?