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De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder. Texto 4.12 – Da natureza do fascismo e do recurso ao argumento moral, por Claude Rochet

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder

Texto 4.12 – Da natureza do fascismo e do recurso ao argumento moral

 Por Claude Rochet, 29 de abril de 2017

Uma campanha eleitoral é raramente um momento de elevação intelectual e à altura dos verdadeiros desafios, como foi o caso no tempo do gaullismo – e temporariamente aquando do debate sobre a constituição europeia de 2005 que foi de excelente nível – mas, desde então, tudo tem sido feito para a transformar em algo semelhante a um qualquer concurso de beleza. O professor Alasdair Roberts analisou este fenómeno como o progresso da lógica de disciplina [1] :  as coisas sérias são confiadas ao mercado para serem postas ao abrigo da versatilidade dos povos, o resto é apenas espetáculo onde será necessário estripar-se e tanto mais que tudo continuará como dantes.

É por esta razão que sou um adversário da “democracia representativa” concebida a partir da origem (Benjamin Constant) para não representar senão os representantes: “O erro dos que, de boa-fé e no seu amor pela liberdade, atribuíram à soberania do povo um poder sem limites, vem da maneira como se formaram as suas ideias em política. Viram na história um pequeno número de homens, ou mesmo um só homem, na posse de um poder imenso, que fazia muito mal; mas eles viraram a sua fúria contra os proprietários do poder e não contra o próprio poder. Em vez de o destruírem pensaram apenas em deslocá-lo[2]. Longas conversações com o meu amigo Etienne Chouard permitiram-me aprofundar os meus conhecimentos sobre a democracia direta.

Eis-nos pois envolvidos num delírio coletivo onde a injunção de “combater o fascismo” é imposta a todos – perdão, “a todas e a todos“, como a novilíngua nos impõe – em face de uma ameaça de um novo Oradour[3] e da reabertura de um Auschwitz anunciada por Arno Klarsfeld (o filho, que não chega aos calcanhares dos seus nobres pais).

O problema não é que isto seja ultrajante – é a lei do género dos concursos de beleza – o problema é que esta ideia funciona junto de pessoas que se autoproclamam “as classes instruídas” das quais sou suposto fazer parte. Sou historiador de formação, tive excelentes professores na Sorbonne, fiz a minha tese de licenciatura precisamente sobre o fascismo francês de antes da guerra. A predominância de professores que se inserem à volta do PCF – que começavam contudo a tomar posição – tinham-me levado contudo a bem ponderar o fenómeno fascista na França. Nos arquivos dos anos 1930, sobreavaliava-se a importância das Cruzes de fogo do Coronel do Rocque que se considerava um partido autenticamente fascista (o Partido Social Francês, PSF). Mergulhando nos textos internos deste partido, a sua sociologia e o que se dizia realmente a seu respeito, tornou-se claro aos meus olhos que este partido não era fascista e que se lhe atribuía um mau destino de que só muito recentemente saiu reabilitado. Havia com efeito apenas um só partido que se podia aproximar da definição do fascismo, foi o Partido Popular Francês, FP, do antigo comunista Doriot.

O que nos permite clarificar uma definição do fascismo:

Dizer que a Frente Nacional é um partido fascista, é pois um disparate sem nome. Aqui, partilho a análise de Jacques Sapir, que é a análise a que deveria chegar qualquer cidadão com o mínimo de análise e senso crítico:

“Porque, independentemente das críticas que se possam fazer a Marine le Pen, e tenho algumas no meu caderno de notas, a decência deveria obrigar esta mesma gente a reconhecer que não há nada “de fascista” nem no seu programa nem no comportamento do seu movimento. Onde estão então as milícias armadas nas ruas? Desde há anos que estas vêm de uma outra esfera de influência política que não a FN. Pretender que a FN é “anti republicana” é expor-se além do mais a uma contradição evidente: se este movimento faz correr um perigo à República, deveria ser proibido e os seus responsáveis encarcerados. Se tal não é o caso, é porque este partido não é um perigo para a República.

Pretendendo abrigar-se na História, esta matilha dos jornais e de muito pouco talento acabam por trocar os pés pelas mãos. O programa defendido por Marine Pen é um programa populista, com as suas coisas boas e as suas coisas más. É um programa soberanista, mesmo se não está isento de derrapagens, como sobre a questão do direito do solo e da proteção social. Pode-se contestá-lo, pode-se mesmo rejeitá-lo. Mas, fazer dele um espantalho é de um ridículo completo, total. Não, não estamos na Alemanha de 1933. Também não estamos na França de 2002. As coisas mudaram profundamente, exceto talvez a inconsciência suja da matilha de jornalistas a babar-se e que nos toca a mesma partitura que já nos tinha tocado aquando do referendo de 2005. E, é necessário sublinhá-lo, esta gente foi vencida nessa época!”

Em contrapartida, o exame do movimento Em Marcha de Emmanuel Macron faz aparecer características inquietantes:

Pessoalmente, não tenho nenhuma atração por Marine Le Pen. Considero que os seus discursos são maus, que ela é incapaz de falar sem um texto escrito à sua frente, que ela não está à altura da sua função, que ela começa os seus discursos por ” meus caros amigos” o que é muito irritante: não temos que ser amigos, mas sim seus concidadãos, a política não se resume ao Facebook.

Mas Macron é de outro modo, é bem mais inquietante com o anúncio da destruição da proteção social, o alinhamento com a Alemanha e os Estados Unidos para partir em guerra contra a Rússia, pela promoção do comunitarismo, a discriminação positiva, o lenço islâmico na Universidade, o aumento da CSG e do IVA, em suma, a aplicação do programa de Bruxelas que Asselineau efetivamente analisou na sua campanha, os famosos GOPE… a lista é longa.

Assim, pode-se ser a favor ou pode-se ser contra. O debate entre a economia neoclássica (dita neoliberal) e a economia mista, entre o papel da finança e a economia de produção, sobre o papel do Estado, sobre o comércio livre, é antigo e tem subjacente toda uma literatura de qualidade. Temos análises sociológicas brilhantes para argumentar e defender os pontos de vista de uns e de outros.

Há aí de tudo para argumentar e o recurso ao mito do fascismo, à manipulação da história (principalmente no que diz respeito à segunda grande guerra e ao regime de Vichy [9]), ao terrorismo que já não é somente intelectual, à condenação à morte social de todos aqueles que não se curvam,  os métodos de propaganda mais do que duvidosos, é inaceitável.

Cabe a cada um condená-lo e fazê-lo pela via que julgue mais apropriada.

 

Claude Rochet, De la nature du fascisme et du recours à l’argument moral, disponível no sitio de Claude Rochet, Politiques publiques, philosophie politique et sciences de la complexité. O seu endereço é o seguinte : https://claude-rochet.fr/de-la-nature-du-fascisme/

Notas

[1] Veja-se o artigo Pour une logique de l’indiscipline: http://claude-rochet.fr/pour-une-logique-de-lindiscipline/

[2] https://www.wikiberal.org/wiki/Principes_de_politique#cite_note-1

[3] Referência a Oradour-sur-Glane, vila mártir de França, esmagada sob as patas dos nazis. Veja-se sobre Macron na sua visita a Oradour em Libération:

http://www.liberation.fr/elections-presidentielle-legislatives-2017/2017/04/28/a-oradour-sur-glane-emmanuel-macron-veut-voir-la-france-renaissante_1566196

[4] O Movimento Völkisch era a interpretação alemã do movimento populista, com um enfoque romântico sobre o folclore do país. O termo völkisch, que significa “étnico”, deriva da palavra alemã Volk (povo). Segundo o historiador James Webb, a palavra também tem “conotações de “nação”, “raça” e “tribo”…” ….. O “movimento” völkisch não foi um movimento unificado, mas “um caldeirão de crenças, medos e esperanças que encontrou expressão em vários movimentos e era muitas vezes articuladas em um tom emocional”, Petteri Pietikäinen observou no traçado völkischs influências de Carl Gustav Jung. O movimento völkischs era “provavelmente o maior grupo” no movimento revolucionário conservador na Alemanha.  (cf.  https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_V%C3%B6lkisch  ).

[5] Veja-se o trabalho de G. L. MOSSE : Les racines intellectuelles du IIIè Reich, de 2007, disponível em: http://wodka.over-blog.com/article-6397442.html

[6] Nota de tradução. Hjalmar Sachs , um partidário duro da deflação e da austeridade. Sobre este tema, tomo a liberdade de sugerir a leitura do meu texto de homenagem a João Cravinho. (vd. https://aviagemdosargonautas.net/2016/09/26/homenagem-a-joao-cravinho-pelos-seus-oitenta-anos-de-uma-crise-a-outra-da-crise-dos-anos-de-1930-na-alemanha-a-crise-dos-anos-da-troika-a-equivalencia-nos-discursos-politicos-a-equivalen/ e seguintes)

[7] Diz-nos Deleuze: o fascismo implica fundamentalmente, contrariamente ao totalitarismo, a ideia de um movimento perpétuo sem objeto nem finalidade. Veja-se Deleuze em: https://didierbazy.wordpress.com/2014/03/11/le-fascisme-implique-fondamentalement-contrairement-au-totalitarisme-lidee-dun-mouvement-perpetuel-sans-objet-ni-but-deleuze/

[8] Veja-se o trabalho de Jairus Banaji Le fascisme en tant que mouvement de masse publicado por CONTRETEMPS -REVUE DE CRITIQUE COMMUNISTE, disponível em : https://www.contretemps.eu/fascisme-en-tant-que-mouvement-masse/

[9] Quanto ao regime de Vichy se quer saber algo mais sobre o meio envolvente da época e não só, veja: de Claude Rochet, L’esprit de Vichy, Abril de 2017, disponível em: http://claude-rochet.fr/lesprit-de-vichy/. A partir deste link pode obter informações  valiosos sobre este período. Esclarecedoras.

 

 

 

 

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