De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder. Texto 4.2 – Fascismo duro , fascismo brando, por Jean-Paul Brighelli

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder

Texto 4.2 Fascismo duro , fascismo brando

Por Jean-Paul Brighelli, Revista Causeur, 3 de maio de 2017

Os nomes dos pássaros passam baixinho desde há alguns dias. Votar MLP, seria, portanto, votar fascista. Ou melhor: seria votar Nazi. A um ponto Godwin, Godwin ponto e meio. E votar branco é tudo a mesma coisa – meio ponto a mais!

Claude Rochet, que teve uma carreira distinta no privado e no público, professor nas universidades e velho especialista em fascismo francês, explicou num fórum rigoroso o que era o fascismo, e como é que o verdadeiro fascismo sempre esteve do lado do poder económico, e é sobre Marine Le Pen que a raiva se projeta. E mais que isso: sobre todos aqueles que não apelam a que se vote no seu adversário. Mélenchon, não tens vergonha de ser um fascista?

No entanto, como salientou o meu amigo Jacques Sapir analisando o programa de MLP, “a decência deveria obrigar esta mesma gente a reconhecer que não há nada de«fascista» nem no seu programa nem no comportamento do seu movimento. Onde é que estão as milícias armadas que seriam levadas para as ruas? Desde há anos, elas vêm de um outro movimento que não a FN. Pretender que a FN é «anti-republicana» é exporem-se além disso a uma contradição evidente: se este movimento representa um perigo para a República, ele deveria ser proibido e os seus dirigentes presos. Se não é este o caso, é então porque este partido não é um perigo para a República. Querendo basear–se na História, esta manada de jornalistas e produtores de rabiscos está a tropeçar e a meter os pés pelas mãos. O programa defendido por Marine Le Pen é um programa populista, com as suas partes boas e as suas partes más. É um programa soberanista, mesmo se não está livre de erros, como a questão do direito de solo e a proteção social. Podemos contestá-lo e até mesmo condená-lo. Mas fazer dele um espantalho é absolutamente ridículo. Não, nós não estamos na Alemanha de 1933. Nós nem sequer estamos na França de 2002. As coisas mudaram profundamente, exceto talvez a inconsciência crassa desta manada embevecida que nos repete a mesma partitura que tinha já representado no referendo 2005. E, deve ser dito, ela foi vencida naquela época!”

Estou muito longe de aprovar todo o programa de Marine Le Pen. Por exemplo, não querer escolarizar às custas da República os filhos dos migrantes é uma grande treta: é necessário sobre-escolarizá-los e duas vezes em vez de uma, e ensinar-lhes a língua francesa que será a sua verdadeira pátria, e através deles escolarizar os seus pais. Mas será fácil, nas classes desdobradas que nos promete Macron.

De uma crise a outra 4 Parte texto 4_2 imagem 1Que eu saiba, não são os fascistas que, no 1º de maio, tentaram queimar os polícias — e se congratularam com isso. Foi uma secção da CGT — desautorizada por Martinez, ligeiramente ultrapassado pelos seus sindicalizados. De notar que François Hollande não se abeirou da cabeceira do polícia mais gravemente ferido — tinha mais que fazer, ao andar a exortar as suas tropas a votarem Macron. O marionetista tinha saído do seu cubículo do Eliseu.

Sim, o verdadeiro fascismo sempre esteve do lado dos poderosos — ele só é populista nos seus meios. Aude Lancelin elaborou um quadro bem lúcido sobre a imprensa francesa, siderada, uma alma bondosa, sobre a quase totalidade dos meios de comunicação social no que se refere a quem estes apoiam. E é isto que põe a França, no quadro de honra de Repórteres sem fronteiras, no 45º lugar, “algures entre o Botsuana e a Roménia”, acrescenta a jornalista. E precisa: “Tudo isto, por causa, contentemo-nos de citar o organismo internacional sobre este ponto, «de um punhado de homens de negócios que têm interesses externos relativamente ao campo dos meios de comunicação social e que acabaram por possuir a grande maioria dos meios de comunicação social privados de vocação nacional». Nunca uma situação similar de controlo quase total sobre a imprensa havia sido vista em França desde 1945.”

De uma crise a outra 4 Parte texto 4_2 imagem 2

Sim, o verdadeiro fascismo não está num ressurgimento de Auschwitz – é necessário toda a retórica frenética de Arno Klarsfeld para ter a coragem de o dizer – mas é sim um filho inconfessado, embora vigoroso, do neoliberalismo que fez dos média a sua caixa de areia preferida. Aqueles que mais celebraram Macron pelo seu primeiro lugar na noite da primeira volta, foram os frequentadores das bolsas que correram no dia seguinte sobre as ações dos bancos – subiram entre + 8 e + 10% em média. Então, se você é banqueiro ou grande industrial ou um grande latifundiário; se participa mais ou menos no último círculo do poder – especialmente do poder de Bruxelas; se está bem colocado na agenda de Jacques Attali ou de Jean-Pierre Jouyet; se está de muito boas relações com o Instituto Montaigne ou se recebe ordens das organizações da União islâmica de França – então sim, vote em Macron. Ele é o seu homem. Ele é, como muito bem resumiu Onfray, o pacote de lexívia que vai lavar mais branco os seus pequenos e grandes lucros.

Mas todos os outros casos … representam muita gente.

Jean-Paul Brighelli

http://blog.causeur.fr/bonnetdane/fascisme-dur-fascisme-mou-001664.html

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