De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder Texto 4.3 – Hollande terá ele mudado de campo político? Não, de modo nenhum, e isto é seguro, por Laurent Joffrin

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder

Texto 4.3 – Hollande terá ele mudado de campo político? Não, de modo nenhum, e isto é seguro

Por Laurent Joffrin, publicado por L’OBS em 14 de janeiro de 2014

De uma crise a outra 4 Parte texto 4_3 imagem 1

François Hollande, aquando da sua conferência de imprensa, no dia 14 de janeiro de 2013, no Eliseu. (AFP PHOTO ALAIN JOCARD)

Mas o chefe de Estado representa da forma mais oficial a mudança de cultura da esquerda francesa no governo.

François Hollande hesita, obviamente, sobre o futuro da sua relação afectiva. Em contrapartida faz uma escolha política clara: abre uma nova etapa na história da esquerda francesa.

Abrigando-se atrás da proteção necessária da vida privada – o argumento não é negligenciável – esvaziou, com algumas frases secas, as perguntas que tinham a ver com a sua vida privada. Mas terá de clarificar a sua situação, como o disse, antes da sua viagem aos Estados Unidos, sem o que a opinião pública até agora clemente (se acreditarmos nas sondagens de opinião) o julgará severamente.

A sua posição é, pelo contrário, bem clara no que diz respeito às matérias de economia. Trata-se de assinar um acordo com o patronato francês esperando uma retoma da economia e do emprego. Nada de surpreendente quando se sabe o percurso de François Hollande, o émulo de Jacques Delors, economista e especialista em fiscalidade, socialista francês que vive ao ritmo da social-democracia europeia. Mas há um subtexto nestas afirmações. Enquanto contava com uma recuperação económica no final do ano de 2013, o presidente teve de reconhecer com inquietação que a França arriscou a ficar no cais, ou seja, a ficar em situação de estagnação quando as outras economias europeias retomaram, embora lentamente, o seu crescimento de forma até sustentada. É verdade que o país entrou menos brutalmente em recessão do que outros, devido ao peso do Estado Providência francês na economia e sai dela mais lentamente. Mas o presidente também foi confrontado com a dissidência mal escondida da classe dirigente. A estagnação ao nível dos investimentos, as deslocalizações industriais ou de sedes das empresas, a evasão fiscal: uma parte do patronato tomou como uma bofetada na cara os aumentos de impostos decididos pelo governo Ayrault. Hollande teria podido passar por cima disto. Mas que fazer sem as empresas?

 

A cultura da esquerda francesa mudou, isto é oficial

Por isso, foi necessário enviar um “sinal forte” para se conciliar com os mercados, com os grandes empresários. A baixa nas despesas com a segurança social, especialmente pela transferência das contribuições das famílias, uma velha reivindicação de Medef, controlo sobre as subidas de impostos, redução de despesas e sanear as contas da Segurança Social: é todo um catálogo muito patronal que foi apresentado e descorticado pelo presidente. Terá o Presidente mudado de campo? Não propriamente. Mas ele representa da forma mais oficial a modificação da cultura da esquerda francesa no governo. No passado, melhorava-se a redistribuição para aumentar a procura e por aí a produção. Desta vez ajuda-se a própria produção – ou seja, ajuda-se as empresas privadas- para redistribuir depois.

Liberalismo? A palavra é de emprego difícil num país que detém o recorde europeu das contribuições obrigatórias e onde as taxas de tributação mais elevadas atingem 75%. Realismo. Isso é certamente. No fundo, os socialistas franceses fazem a partir de agora em diante algumas perguntas simples: o défice orçamental é ele de esquerda e o orçamento equilibrado é de direita? As despesas públicas não controladas são à esquerda e é de direita a boa utilização dos fundos públicos? Deve considerar-se uma mudança de campo político, uma mudança para o campo do adversário, quando se quer tornar a ação do governo menos custosa e mais eficiente? Deve ser considerado traição quando se alcança e assina um acordo estratégico com o patronato francês, o Medef? Havia um socialismo da procura. Será que pode haver um socialismo da oferta? Se as medidas anunciadas forem postas em prática, se a linha for seguida de forma constante, a esquerda francesa terá definitivamente deixado os seus antigos estandartes definitivamente para se fundir ideologicamente na social-democracia europeia.

Ver o texto original em:

http://tempsreel.nouvelobs.com/politique/20140114.OBS2337/hollande-a-t-il-vire-de-bord-pas-vraiment.html

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